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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Suínos

Mercado difícil de encarar

Suínos

Soja e milho com bons preços representam custos mais altos ao segmento. E ainda tem o embargo russo, que aumentou a oferta doméstica de carne e, naturalmente, derrubou as cotações. Em resumo, a margem do suinocultor despencou. Só a abertura de novos mercados ajuda

Leonardo Gottems

O Brasil manteve, em 2018, o quarto lugar entre os maiores produtores e exportadores mundiais de carne suína, vendendo para mais de 70 mercados e dominando 9% dos embarques mundiais. Os dados são do presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, salientando que eles ressaltam a importância do mercado de carne de suíno para a economia nacional e mundial. No entanto, ele afirma que, em junho de 2018, a suinocultura sofreu uma queda de 44,9% no volume de exportações e registrou uma baixa de 59% nas receitas das vendas externas em relação ao mesmo período de 2017. Segundo o presidente da ABPA, vários fatores internos e externos estão afetando todo o mercado de proteína animal brasileiro.

Nesse cenário, Francielmir Machado, diretor técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), explica que o setor passa por uma fase muito delicada em um cenário muito instável. Para ele, os principais fatores que influenciam esse momento são o embargo do mercado russo, que ocorreu em 2017 e fez com que a produção brasileira ficasse retida no mercado interno, causando, consequentemente, uma baixa no preço. Isso, somado ao alto custo dos insumos, acabou por reduzir as possibilidades de margem de lucro na atividade.

Quanto aos insumos, os pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves Dirceu Talamini, Jonas dos Santos Filho e Franco Martins dizem que os materiais utilizados nas rações tiveram significativa elevação entre julho de 2017 e julho de 2018. Como consequência, os pesquisadores comentam que a avicultura e a suinocultura brasileira estão passando por um período de grande dificuldade em razão dos problemas que estão ocorrendo nos mercados interno e externo. “No mercado interno, tem-se problemas de custo de produção e restrições da demanda, e, no mercado externo, o País tem enfrentado crescentes barreiras técnicas e econômicas de alguns dos importadores dos nossos produtos”, descrevem.

O que esperar? — Segundo os especialistas, é difícil elaborar uma perspectiva de futuro para o mercado da carne suína sem falar no mercado externo e nas exportações. Assim, Turra acredita que os embarques de carne suína deverão registrar um desempenho melhor com a possível reabertura do mercado russo, ao mesmo tempo em que o setor estará menos dependente dessas vendas. Além disso, ele lembra que existe uma forte elevação de importações de China, Hong Kong, Chile e outros mercados importantes para a suinocultura brasileira que pode fazer um contraponto às retrações do ano passado.

Suínos

Futuro: a expectativa de o Brasil obter o status de todo território livre de aftosa sem vacinação em 2023 levará o segmento brasileiro a outro patamar no mercado internacional

Nesse cenário, Machado, da ABCS, salienta que a abertura de novos mercados – como Coreia do Sul, México e Japão – também pode colaborar no processo de recuperação do setor suíno brasileiro. “Por outro lado, a expectativa de obtermos o status de todo território livre de aftosa sem vacinação em 2023, certamente, nos levará a outro patamar no mercado internacional da carne suína”, comenta. “Normalmente, o segundo semestre é um período de alta de preço da carne suína, em função dos festejos de final de ano e o aumento do consumo. Porém, os estoques altos das agroindústrias continuarão enchendo o varejo e puxando os preços para baixo. É necessário que haja um aumento nos volumes exportados, pois somente o consumo interno não será suficiente para elevar os preços a patamares que gerem margem positiva ao produtor, especialmente porque os custos de produção, relacionados ao preço dos grãos, continuam elevados”, completa Machado.

O que dizem os números? — De acordo com dados da Embrapa, a produção e a exportação de carne suína são menores que as de frangos e bovina, mas têm conquistado espaços importantes do mercado internacional, atingindo uma proporção perto de 20% do volume total. Além disso, informa a instituição, “o consumo interno de carne suína tem se elevado, passando de 3 milhões, em 2014, para 3,3 milhões de toneladas em 2017. Contudo, a produção vem aumentando, e as importações totais do produto têm caído, passando de 516 mil toneladas, em 2014, para 375 mil em 2017, e estima-se que chegue a cerca de 300 mil toneladas em 2018”.

Entretanto, Turra, da ABPA, lembra que os novos mercados que o Brasil vem atingindo para vender a carne ajudaram a reduzir o custo causado pelos embargos e podem ser considerados como uma alternativa para o futuro. Segundo Turra, mesmo que a situação esteja complicada, pode melhorar nos próximos meses. “Para a Coreia do Sul, foram exportadas 478 toneladas nos cinco primeiros meses deste ano (2018). Outro mercado que obteve forte elevação foi a China, a qual aumentou suas importações em 156%, para onde foram embarcadas 63,1 mil toneladas entre janeiro a maio deste ano. Também houve significativo crescimento nas exportações para Hong Kong, o que reduziu o impacto causado pelo embargo imposto pela Rússia em novembro de 2017”, lista.

Atenção aos insumos — Para Machado, a melhor alternativa aos produtores é estar atento aos movimentos do mercado de grãos (nacional e internacional), possibilitando comprar os insumos – especialmente milho e farelo de soja – a preços mais baixos. “Para tanto, é preciso atenção, buscar capital de giro para antecipar compras e contratos, e, se for o caso, investir em sistemas de armazenagem. É necessário pensar em mecanismos para a compra estratégica de insumos”, diz. Já os pesquisadores da Embrapa sugerem que “o próximo Governo do País deve definir uma estratégia sustentável para resolver os problemas de logística e energia. A deficiência da infraestrutura de transporte e portos é bem conhecida, mas não tem recebido a devida atenção”.