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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Soja

O horizonte é o limite

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Capitalizado, o produtor brasileiro vai cultivar a maior área de soja até hoje em lavouras no País: serão 36 milhões de hectares em 2018/19, ou 2,3% a mais que na safra anterior, quando foi colhida a maior safra da história. A maior produção será obtida em novas áreas, e não em espaços retirados do milho, como em outras temporadas. E o clima vai definir se mais um recorde está a caminho – algo ao redor de 120 milhões de toneladas. O preço médio da saca apurado por Safras & Mercado fechou julho de 2018 a R$ 76,50, muito além dos R$ 64,50 de janeiro

Dylan Della Pasqua
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Apesar de alguns entraves – greve, tabelamento de fretes e incertezas diante da guerra comercial entre China e Estados Unidos –, os produtores brasileiros irão reforçar a sua aposta na soja na temporada 2018/19. Com uma comercialização equilibrada, o produtor está capitalizado e deverá cultivar a maior área da história. Com condições favoráveis de clima, o País tem tudo para colher ao menos uma safra semelhante à de 2017/18, que também foi recorde. O levantamento de intenção de plantio de Safras & Mercado indicou que os produtores brasileiros de soja deverão cultivar 36,004 milhões de hectares em 2018/19, a maior área da história, crescendo 2,3% sobre o total semeado no ano passado, de 35,824 milhões.

Com uma possível redução de produtividade, de 3.409 quilos para 3.344 quilos por hectare, a produção nacional deve ficar um pouco acima da obtida nesta temporada. A previsão inicial é de uma safra de 119,787 milhões de toneladas, 0,3% maior que o recorde de 119,419 milhões obtido em 2017/18. “Nesta nova temporada, notamos, mais uma vez, um quadro bastante favorável ao cultivo da oleaginosa. As grandes produtividades registradas em todo o País na temporada 2017/18 aliadas à elevação dos preços praticados ao longo de todo o ano de 2018 culminaram na manutenção de uma margem razoável para os produtores, mesmo com o crescimento dos custos de produção”, explica o consultor de Safras Luiz Fernando Roque.

A forte alta do dólar e os problemas recentes envolvendo os fretes no Brasil são fatores que, inicialmente, impedem uma expansão ainda maior da área de soja na nova temporada. “Neste primeiro momento, nota-se uma grande incerteza em torno desses fatores fundamentais, o que traz insegurança para a decisão do produtor. Aliado a isso, a recuperação dos preços do milho nos últimos meses também deve impedir um maior avanço da área de soja”, completa.

Segundo o analista, diferente do ano passado, não deverá ocorrer grandes transferências de áreas do milho para a oleaginosa em decorrência da boa remuneração do milho. Dessa forma, a expansão da área de soja se dará por aberturas de novas áreas em todo o País. Nessa linha, destaque para o Norte/ Nordeste, que deve ter, novamente, o maior aumento percentual de área. “Em termos de produtividades, nossos primeiros números naturalmente indicam rendimentos médios inferiores aos da última safra (2017/18), que foi praticamente perfeita em todo o País. Nada impede a repetição dessas grandes produtividades, mas, para isso, o clima deverá ser novamente muito favorável. Alertamos para a possibilidade crescente de o fenômeno El Niño ser confirmado no verão sulamericano”, alerta. Embora a estimativa inicial aponte para um crescimento de 2,3% na área brasileira, as semanas antes do plantio seriam fundamentais para a decisão dos produtores, e não seria surpresa um aumento ainda maior na área destinada à soja na nova temporada.

Oferta e demanda — As exportações de soja deverão totalizar 75 milhões de toneladas no ano comercial 2019/20 – de fevereiro de 2019 a janeiro de 2020 –, 1% acima do estimado para 2018/19, de 74,5 milhões de toneladas, segundo estimativas de Safras & Mercado. Safras indica esmagamento de 44 milhões de toneladas em 2019/20 e de 43,2 milhões de toneladas em 2018/19, representando um aumento de 2% entre uma temporada e outra. Em relação à temporada 2019/20, a oferta total de soja deverá cair 1%, passando para 122,679 milhões de toneladas. A demanda total está projetada por Safras em 122,25 milhões de toneladas, com aumento de 1%. Dessa forma, os estoques finais deverão cair 83%, passando de 2,492 milhões para 429 mil toneladas.

Safras trabalha com uma produção de farelo de soja de 33,47 milhões de toneladas, subindo 2%. As exportações deverão cair 13%, para 15 milhões de toneladas, enquanto o consumo interno está projetado em 17,5 milhões, inalterado. Os estoques deverão subir 83%, para 2,142 milhões de toneladas. A produção de óleo de soja deverá ficar em 8,735 milhões de toneladas. O Brasil deverá exportar 1,1 milhão de toneladas, com queda de 8% sobre 2017. O consumo interno deve estabilizar em 7,8 milhões. A previsão é de recuo de 50% nos estoques para 114 mil toneladas.

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Mesmo com uma possível redução de produtividade – de 3.409 kg/ha para 3.344 kg/ha –, em 2018/19, a safra deve ficar um pouco acima da anterior, ou 119,787 milhões de toneladas

Preços em elevação — Na temporada 2017/18, o Brasil colheu a maior safra da história. Como os Estados Unidos também obtiveram uma produção cheia, a expectativa era de que os preços perdessem força, comprometendo a comercialização. Mas, para a sorte do sojicultor, esse quadro não se confirmou. Os preços médios subiram ao longo do ano de 2018, tendência que motivou todo o otimismo para a próxima temporada. Levantamento de Safras & Mercado indica que o preço médio da saca de 60 quilos no Brasil fechou o mês de julho de 2018 a R$ 76,50. Em janeiro, a cotação média foi de R$ 64,50. Os referenciais foram crescendo mês a mês até maio, quando atingiu a melhor média do ano, de R$ 77. Com a intensificação da guerra comercial entre China e Estados Unidos, o mercado perdeu um pouco de força, mas logo se recuperou, atingindo a média de julho, bem próxima do pico do ano.

Se os sopapos comerciais trocados entre China e Estados Unidos prejudicaram as cotações no mercado futuro de Chicago, os prêmios nos portos brasileiros atingiram cotações recordes, compensando o impacto negativo dos contratos internacionais, que chegaram a bater nos menores níveis em dez anos. A cruzada da administração de Donald Trump para equilibrar a disputa comercial com os chineses teve impacto direto no mercado de soja. A retaliação do país asiático às medidas protecionistas dos Estados Unidos envolveu também a soja. O produto norte--americano foi sobretaxado em 25% pelos chineses.

A interpretação do mercado foi a seguinte: com a taxa, a demanda chinesa vai se deslocar do mercado dos Estados Unidos para a América do Sul. Como consequência dessa mudança de rota, as cotações despencaram em Chicago, e os prêmios de exportação subiram em Paranaguá/PR, equilibrando a média do preço FOB. Os contratos spot em Chicago tiveram média de US$ 9,71 por bushell em janeiro. Apresentaram o melhor desempenho médio em março – em meio à quebra da safra argentina –, quando bateram em US$ 10,40, e despencaram em julho, fechando com média de US$ 8,50. Já os prêmios passaram de 66,4 pontos acima de Chicago em janeiro para 207 pontos acima em julho. O preço FOB em Paranaguá iniciou o ano de 2018 com média de US$ 381,30 por tonelada e teve média de US$ 388,50 em julho. O pico de preços foi registrado em abril: US$ 425.

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Quadro favorável: as altas produtividades em 2017/18 aliadas à elevação dos preços no decorrer de 2018 redundaram uma margem razoável para os produtores

Em ano eleitoral, a configuração da política econômica e o comportamento do câmbio também tiverem impacto marcante na composição dos preços internos e nas cotações de exportação. O dólar comercial também teve uma escalada nas suas médias, que favoreceu e ajudou a contrabalançar o impacto negativo de Chicago. No mês de janeiro de 2018, o dólar comercial teve média de R$ 3,210; em julho, a moeda norte-americana ficou em R$ 3,829. Diante desse cenário, os produtores aproveitaram os momentos favoráveis e negociaram de forma escalonada. Por isso, iniciaram a nova temporada bem capitalizados e dispostos a investir na soja. O mais recente levantamento de comercialização de Safras & Mercado mostra que as vendas estão adiantadas, mesmo com os problemas enfrentados com a greve dos caminhoneiros e com a fixação de uma tabela de preços mínimos de fretes bem acima dos praticados antes da paralisação.

A comercialização da safra 2017/ 18 do Brasil envolvia 84% da produção projetada, conforme relatório de Safras & Mercado, com dados recolhidos até três de agosto de 2018. No relatório anterior, com dados de 7 de julho, o número era de 71,3%. Em igual período de 2017, a negociação envolvia 74%, e a média para o período é de 82%. Levando--se em conta uma safra estimada em 119,419 milhões de toneladas, o total de soja já negociado é de 99,934 milhões de toneladas. Já a comercialização antecipada da safra 2018/19 envolve 18% da produção projetada até 3 de agosto. Em igual período do ano anterior, o número era de 8%, e a média histórica é de 20%. No relatório anterior, divulgado em 7 de julho de 2018, o percentual era de 8,5 pontos. Levando-se em conta uma produção estimada em 119,787 milhões de toneladas, o total então comprometido pelos produtores totalizava 21,49 milhões de toneladas. A seguir, os pontos que merecem atenção do produtor.

Impactos da greve e dos fretes nos fertilizantes — Segundo a Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda), as entregas entre janeiro e junho de 2018 estavam atrasadas em 2,3% na comparação com o ano anterior e totalizavam 12,8 milhões de toneladas. O resultado de julho podia ser ainda pior. A tabela de preços mínimos para fretes rodoviários não deve se sustentar por muito tempo. A paralisação dos caminhoneiros e os eventos que a precederam foram um movimento de curto prazo e determinaram decisões pontuais, como a criação de frotas próprias por parte de empresas e cooperativas. Mas até que uma solução fosse encontrada, as dúvidas persistem e podem prejudicar as entregas.

Incertezas com a guerra comercial — Em um primeiro momento, o Brasil foi beneficiado, e as vendas se aceleraram, como indicado anteriormente pelos números de comercialização de Safras. Mas é bom lembrar que as investidas de Donald Trump têm uma carga emocional. Assim como iniciou uma guerra com a China, o presidente norte-americano pode chegar logo a um acordo com o principal comprador de soja do mundo. E nada impede que esse acordo volte a deslocar o interesse chinês para o mercado dos Estados Unidos.

Dólar alto impacta no custo de produção — A moeda norte- -americana atinge os custos de produção, já que boa parte dos insumos são adquiridos no exterior. Reiterando que o Brasil está em ano eleitoral. Quanto mais perto do embate à presidência, a tendência é de muita volatilidade no dólar. Ainda mais se candidatos mais distantes do gosto do mercado se destacarem nas pesquisas. A moeda já superou a casa de R$ 4 ao longo do ano e pode bater novamente nesses níveis.

Frete elevado dificulta na fixação de preços — As tradings e as cooperativas estão encontrando dificuldades para fixar preços. Ninguém tem certeza com que frete trabalhar para formar os referenciais de preço. Com isso, os negócios antecipados podem perder ritmo no curto prazo.

Produção global — O relatório de julho de 2018 do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projetou safra mundial de soja em 2017/18 de 336,7 milhões de toneladas. No relatório anterior, o número era de 336,7 milhões. Os estoques finais foram elevados de 92,49 milhões de toneladas para 96,02 milhões. A projeção do USDA aposta em safra norteamericana de 119,52 milhões de toneladas, sendo mantido o número de junho de 2018. Para o Brasil, a previsão é de uma produção de 119,5 milhões de toneladas, contra 119 milhões de toneladas em junho. O mercado previa número de 119 milhões de toneladas. A previsão para a Argentina permaneceu em 37 milhões de toneladas. A estimativa do mercado era de 36,7 milhões. Pelo lado da demanda, destaque para a manutenção da previsão das importações chinesas, na casa de 97 milhões de toneladas. Para a temporada 2018/19, o USDA estima safra mundial de 359,49 milhões, contra 355,24 milhões do relatório anterior. Os estoques finais foram elevados de 87,02 milhões para 98,27 milhões de toneladas. O mercado apostava em número de 92 milhões de toneladas. A safra norte-americana foi elevada de 116,48 milhões para 117,3 de toneladas. Para o Brasil, a previsão de produção foi elevada de 118 milhões para 120,5 milhões de toneladas. A projeção para a Argentina foi elevada de 56 milhões para 57 milhões de toneladas.