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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Milho

Cotações e perspectivas aquecidas

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A oferta inferior de milho em 2018 – 27 milhões de toneladas a menos que na safra 2016/17 – tem efeitos diretos num movimento de valorização dos preços no decorrer do ano. Além disso, a desvalorização do real favorece as exportações e diminui a oferta interna do grão. Ainda para a primeira safra, a soja se mostra mais interessante ao produtor (que o cereal), visto a guerra comercial entre China e Estados Unidos, e há incertezas quanto à safra norte-americana

Arno Baasch
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A safra brasileira de milho 2017/18 estava, em julho de 2018, praticamente definida, apontando um corte considerável em termos de volume em relação à temporada imediatamente anterior (2016/17). Segundo levantamento de julho de Safras & Mercado, o Brasil devia fechar a temporada com uma colheita de 80,724 milhões de toneladas, bem abaixo do volume de 107,901 milhões registrado em 2016/17. O analista de Safras Paulo Molinari ressalta que a queda no volume produzido é normal após uma colheita recorde, com a acomodação do mercado em meio ao cenário de preços menos atrativos e de amplos estoques de passagem, o que foi justificado pelo declínio considerável nas áreas cultivadas, tanto no verão quanto na segunda safra. Além disso, problemas climáticos observados nas regiões produtoras, especialmente na segunda safra, impossibilitaram uma colheita mais expressiva do cereal.

O indicativo de uma menor oferta de milho em 2018 vem contribuindo para um movimento de valorização dos preços ao longo do ano. No primeiro trimestre, o setor de proteína animal foi diretamente impactado pelo pico de preços da saca de milho, já que não houve um maior movimento por parte dos consumidores em adquirir volumes mais expressivos do cereal colhidos na safrinha de 2017, embora já houvesse indicativos claros de que a disponibilidade de oferta na safra de verão de 2018 seria inferior à registrada em 2016 e também abaixo da necessidade de consumo. A área cultivada de verão confirmou as expectativas e recuou 21,3% frente ao ano anterior, de 5,306 milhões para 4,176 milhões de hectares. Houve uma queda em todas as regiões produtoras, sendo bem expressiva em estados de grande tradição no cultivo de milho verão, como Goiás, de 43,5%; e Paraná, de 40%.

Afetada pelo fenômeno climático La Niña, que provocou estiagem, a produtividade média ficou em 5.872 quilos por hectare, aquém dos 6.269 quilos registrados na safra verão 2017. A produção alcançou 24,523 milhões de toneladas, perante a de 33,625 milhões colhida no ano anterior. “Essa diferença na produção foi puxada pelo declínio nas colheitas no Paraná, de 5,792 milhões de toneladas para 3,406 milhões; no Rio Grande do Sul, de 8,046 milhões de toneladas para 6,123 milhões; e em Goiás, de 3,333 milhões de toneladas para 1,86 milhão”, aponta.

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Segundo levantamento de Safras, o Brasil colheria, em 2017/18, o volume de 80,724 milhões de toneladas, bem inferior às 107,901 milhões da safra anterior

Molinari destaca que o mercado não esperava também que os efeitos do La Niña fossem tão fortes na Argentina, provocando uma forte queda no potencial produtivo e criando um movimento especulativo muito expressivo nos preços do cereal, seja no mercado internacional, seja no doméstico. A alta de preços, combinada ao fator cambial, fez com que o milho brasileiro se tornasse bastante competitivo no cenário internacional, favorecendo um avanço das exportações e contribuindo para que as ofertas ficassem ainda mais restritas aos setores consumidores no primeiro trimestre. Havia, ainda, as incertezas quanto ao final da colheita da safra norte-americana 2017/18 e ao plantio da 2018/19, o que favoreceu uma alta de preços do milho bastante efetiva no mercado interno.

No segundo trimestre de 2018, o mercado seguiu bastante valorizado para o milho, com a ocorrência de fatores de impacto no mercado, como o bloqueio da União Europeia às importações de carne de frango do Brasil e a greve nacional dos caminhoneiros, A paralisação de dez dias, ocorrida em maio, prejudicou, de forma bastante contundente, o abastecimento das granjas, que ficaram sem o cereal para a alimentação de milhares de aves e suínos. “A falta de oferta de milho disponível, por conta da ausência de caminhões para a realização dos transportes, acabou contribuindo para elevações muito expressivas nos preços do cereal”, detalha.

Plantio da safrinha com atraso — Molinari afirma que o plantio da safrinha se mostrou bastante complicado em 2018. Houve atrasos na colheita da soja, e, por conseguinte, muitos produtores deixaram de cultivar milho, optando pelo sorgo. Os bons preços, por outro lado, incentivaram muitos produtores a plantar milho mesmo fora da época recomendada, o que aumentou o risco de perdas por ocorrência de eventos climáticos. A área cultivada acabou recuando 9%, de 11,491 milhões de hectares para 10,457 milhões de hectares. A exemplo do ocorrido com o cultivo de verão, a área de safrinha encolheu em todos os estados produtores. A baixa mais expressiva foi registrada no Paraná, de 24,1%, passando de 2,517 milhões de hectares para 1,911 milhão de hectares; e em São Paulo, de 15,9%, passando de 502,250 mil hectares para 422,280 mil hectares.

Além do atraso na janela de cultivo, muitos produtores optaram por reduzir os investimentos de tecnologia empregados nas lavouras, o que, naturalmente, já traria uma expectativa de produtividade média inferior à obtida em 2017. Após uma segunda safra com um clima praticamente perfeito em 2017 – o que contribuiu para o País registrar uma produção recorde do cereal –, o mercado não esperava maiores problemas para a safra 2018.

Estiagem afeta desenvolvimento — O desenvolvimento inicial da segunda safra 2018 até foi positivo, com o regime de chuvas se prolongando em algumas regiões além do esperado. De abril em diante, porém, as chuvas cessaram ou se mostraram bastante limitadas nas áreas de cultivo. O crescimento das lavouras ficou bastante comprometido, com um enchimento de grãos abaixo do potencial normal, o que trouxe falhas na formação de espigas. Conforme o esperado, as médias obtidas nas primeiras lavouras colhidas até foram boas, mas as perspectivas de perdas de produtividade vêm se confirmando em praticamente todas as regiões na medida que os trabalhos de colheita vêm avançando.

O mais recente levantamento de Safras & Mercado aponta perdas muito expressivas na produtividade em estados com grande relevância para a safrinha. No Paraná, a produtividade deve declinar 37,3%, passando de 6.068 quilos por hectare para 3.802 quilos por hectare. Em São Paulo, o rendimento médio deve baixar 44%, de 6.201 quilos por hectare para 3.469 quilos por hectare. Já em Mato Grosso do Sul, o declínio previsto na produtividade é de 36,45%, passando de 5.800 quilos por hectare para 3.800 quilos por hectare. O balanço total entre todos os estados que cultivam milho segunda safra aponta para uma queda de 19,75%, de 5.863 quilos por hectare para 4.705 quilos por hectare.

Com a retração na área e na produtividade média do cereal, a segunda safra deverá atingir um volume de 49,208 milhões de toneladas, com uma baixa de 26,95% frente às 67,368 milhões de toneladas registradas na safrinha 2017. No Paraná, a produção deve retroceder 52,41%; em São Paulo, a queda pode chegar a 52,9%; e, em Goiás, o decréscimo na produção tende a atingir 36,59%.

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Para a segunda safra 2019, Safras projeta incremento de 7,7% na área a ser cultivada frente a 2018, ou uma superfície de 11,259 milhões de hectares

Consumo interno deve ser estável — O consumo interno de milho no Brasil em 2018 deverá ficar 1,87% acima do registrado no ano passado, segundo levantamento de Safras & Mercado. Entre os segmentos humano, industrial, animal e produção de sementes, a expectativa é de que o volume demandado alcance 63,155 milhões de toneladas, acima das 61,993 milhões de toneladas consumidas no ano anterior. Com os entraves logísticos registrados no mercado interno por conta do encarecimento dos fretes, a partir da nova tabela estabelecida após a greve dos caminhoneiros, Safras estima um volume de exportação 4,58% inferior em 2018 perante as 30,813 milhões de toneladas embarcadas em 2017, que poderiam alcançar em torno de 29,4 milhões de toneladas. Considerando uma oferta total de milho em 2018 de 103,152 milhões de toneladas e um consumo total de 92,555 milhões de toneladas, a expectativa é de que os estoques finais de passagem da safra 2018 fiquem em 10,597 milhões de toneladas, abaixo das 21,727 milhões de toneladas registradas na temporada anterior.

Mesmo com o atual cenário de preços vantajosos ao milho, em 2018, há muitas variáveis em jogo que deverão condicionar os produtores às tomadas de decisão de plantio para a safra de verão 2018/19. Safras & Mercado destaca que há uma visão de oportunidades para a soja brasileira em 2019, em detrimento do cereal. Molinari salienta que, apesar de algumas empresas na Região Sul estarem realizando bons contratos para a safra nova de milho, fatores como o dispêndio de plantio e as oportunidades oferecidas pela safrinha têm inibido uma expectativa de acréscimo de área plantada para o verão 2018.

A forte desvalorização cambial e a elevação dos custos de transporte estão afetando os preços dos fertilizantes nitrogenados e gerando um desembolso para o plantio, que é bem superior para o milho em relação à soja. A guerra comercial entre China e Estados Unidos criou um ambiente indefinido para 2019, mas estabeleceu também uma série de expectativas positivas para a soja brasileira na visão dos produtores, o que faz com que estejam condicionados a plantar mais soja e menos milho na cultura de verão. A safrinha 2019 já dispõe de um bom perfil de negócios, com os produtores procurando pacotes de troca e sinalizando contratos para julho, agosto e setembro de 2019, o que revela uma tendência de recomposição da área de safrinha a ser cultivada.

Safras indica que pode haver uma melhora na tecnologia a ser aplicada na safra de verão de 2018/19 em relação à registrada na safra anterior. Pesa positivamente também a tendência de clima com El Niño para a primavera e o verão na América do Sul, o que sugere uma condição favorável para a maior parte das lavouras de milho. Essa combinação de indicadores revela que a área a ser plantada com milho verão em 2018/ 19 deverá ficar muito próxima da registrada em 2017/18. A expectativa é de que sejam cultivados 4,11 milhões de hectares, 1,6% abaixo da anterior. “Entre os principais estados produtores, deve haver uma retomada da área a ser cultivada em São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais. Estados como Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso sinalizam que podem reduzir a área plantada, optando pelo plantio de outras culturas, como a soja”, pontua.

O potencial de produção previsto para a safra de verão é de 24,679 milhões de toneladas, superando levemente o volume colhido em 2017/18. Esse aumento é decorrente de uma previsão de incremento na produção em estados como Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás/Distrito Federal e Minas Gerais, na comparação com os volumes colhidos em 2018.

Safrinha maior em 2019 — Para a segunda safra 2019, Safras & Mercado está projetando um incremento de 7,7% na área a ser cultivada frente a 2018, que poderá alcançar 11,259 milhões de hectares. Esse aumento deverá ser puxado, de forma mais expressiva, pelos estados do Paraná e de São Paulo, que devem ampliar as áreas de cultivo em 24,5% e 18,7%, respectivamente. A confirmar um aumento da produtividade em todas as regiões, a produção deverá crescer 25,82% e alcançar 61,914 milhões de toneladas na segunda safra 2019. Segundo Molinari, nas regiões Norte e Nordeste, o cenário de queda na área e na produção registrado nas temporadas 2016/17 e 2017/18 tende a ser mantido em 2018/19. A expectativa é de que a área a ser cultivada fique em 1,555 milhão de toneladas, 2,5% menor ante as 1,594 milhão plantadas em 2017/18. A produção deverá ficar em 6,454 milhões de toneladas, com um decréscimo de 7,7% frente às 6,992 milhões colhidas em 2018.

Considerando os números esperados para a safra de verão e a safrinha 2018/19, a área a ser cultivada no Brasil deverá crescer 4,3% frente à de 2017/18, alcançando 16,924 milhões hectares. Com um incremento esperado na produtividade média para 5.498 quilos por hectare, a expectativa é de que a produção total de milho cresça 15,26% e alcance 93,047 milhões de toneladas na temporada 2018/19.

Segundo levantamento de Safras, o Brasil colheria, em 2017/18, o volume de 80,724 milhões de toneladas, bem inferior às 107,901 milhões da safra anterior