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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Leite

Azedou junto com a economia

Leite

Os problemas econômicos do País têm influenciado negativamente o consumo de lácteos. Até houve um crescimento da produção em 2017, após dois anos em queda, mas, em 2018, a retomada arrefeceu. Além disso, a média dos preços pagos ao produtor de janeiro a maio de 2018 caiu 14% ante o mesmo período do ano anterior

Leonardo Gottems

As incertezas motivadas pela crise econômica e política que se instaurou no País nos últimos anos vêm atingindo em cheio os setores produtivos do Brasil, entre eles, mais sensivelmente, a cadeia leiteira nacional. De acordo com o presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados (Sindilat), Alexandre Guerra, o setor lácteo brasileiro viveu o pior semestre dos últimos anos nos primeiros seis meses de 2018. Segundo o especialista em socioeconomia do setor de gado de leite da Embrapa, Denis Rocha, a produção de leite inspecionado voltou a crescer em 2017 depois de dois anos consecutivos de queda. Contudo, essa retomada da produção já começa a mostrar sinais de fraqueza em 2018, com a redução do ritmo de crescimento no primeiro trimestre na comparação com o mesmo trimestre de 2017.

Nesse cenário, Rodrigo Alvim, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), explica que as sucessivas quedas no preço do leite no segundo semestre de 2017, quando se atingiu o pico de produção em dezembro, acabaram por causar um excedente na oferta. No entanto, ao mesmo tempo, os custos de produção da pecuária leiteira seguiram em alta por seis meses consecutivos, o que resultou na baixa rentabilidade da atividade leiteira nos últimos 12 meses, até julho de 2018. Além disso, Alvim lembra que a variação constante de preço também cria uma incerteza e uma instabilidade para o setor leiteiro. “O preço pago ao produtor de janeiro a maio de 2018 teve queda de 14% quando comparado ao mesmo período de 2017, o que resultou na queda do volume captado pela indústria em 19,2% desde o pico de produção, em dezembro de 2017, por causa do desestímulo do produtor, resultando no desequilíbrio na oferta e demanda”, comenta.

Segundo Rocha, a relação de troca ao produtor, que mede a quantidade de litros de leite necessários para compra de uma saca de 60 kg de ração, aumentou 44% em um ano, passando de 27 litros, em junho de 2017, para 39 litros de leite em junho de 2018. Sendo assim, o especialista afirma que a situação acaba comprometendo o poder de compra e a rentabilidade do produtor. “A partir do final de 2017, o custo de produção começou a subir ao mesmo tempo em que o preço do leite recuou de forma acentuada. No caso dos custos, a valorização dos preços dos insumos – em especial, do milho e do farelo de soja – foi a principal responsável por essa situação que resultou em aumento de 16% no Índice de Custo de Produção de Leite da Embrapa (ICPLeite) em junho de 2018 comparado com o mesmo mês do ano anterior”, explica.

Outro fator que contribuiu para o mau andamento do setor nos primeiros meses de 2018 foi a paralisação dos caminhoneiros, que, além de influenciar diretamente na perda de uma grande quantidade de leite in natura, acabou por gerar um aumento no preço do frete. “Foi perdida cerca de 1% da produção brasileira na greve, trazendo desmotivação e praticamente zerando um possível aumento da produção em 2018 frente a 2017”, revela o vice-presidente da Leite Brasil, Roberto Jank. Além disso, ele diz que, com a alta do dólar, as importações seguem em nível inferior aos dois anos anteriores, contribuindo para o ajuste entre oferta e demanda. Também a alta dos grãos no primeiro semestre desmotivou o produtor de leite, e a seca acentuada da Região Sudeste precipitou a entressafra.

Tendências um pouco melhores — Mas, até meados de 2019, a situação é animadora para preço do leite, tendência motivada pelos valores mais altos do que os observados no terceiro trimestre de 2017. Segundo Jank, espera-se que o atual ajuste entre a demanda e a oferta siga até o final de 2018, com preços ligeiramente mais estáveis que os registrados no terceiro e quarto trimestres de 2017, quando o valor caiu além da média histórica recente. Entretanto, Rocha, da Embrapa, lembra que a tendência é que os custos de produção se mantenham em patamares elevados devido ao preço dos grãos, que, até, pelo menos, o início de 2019, devem continuar mais caros que em 2017. Nesse cenário, a produção de leite no restante de 2018 deve continuar desacelerando na comparação com o mesmo período do ano anterior. Para o especialista, é praticamente impossível que a situação demonstre uma melhora significativa até o fim de 2018.

Nesse sentido, Alvim diz que os custos da atividade leiteira estão 7,2% maiores do que em 2017. “No entanto, no curto prazo, espera-se uma recuperação nesse cenário com alimentação concentrada, principalmente com o avanço da colheita da segunda safra brasileira”, avalia. “De certa forma, o dólar em patamar mais alto neste ano (2018) e oscilando mais merece atenção, já que tem impacto sobre as cotações de alguns insumos importados e do preço do leite em pó e derivados no mercado internacional.”

Entraves — Como já ressaltado pelos especialistas, são vários fatores externos que estão dificultando a vida do produtor de leite do Brasil.

Como exemplo, Glauco Rodrigues Carvalho, especialista da Embrapa Gado de Leite, cita a baixa eficiência dos fatores de produção (mão de obra, terra etc.), a reduzida escala de produção nas fazendas, os problemas com a qualidade do leite e a pouca preocupação com a produção de sólidos do leite, além, ainda, do alto custo de captação, do baixo investimento em novos produtos e da reduzida coordenação setorial. “O setor também enfrenta alta carga tributária e inúmeros entraves logísticos. As mais de 200 indústrias que operam no Rio Grande do Sul (um dos maiores produtores) recolhem leite em mais de 90% dos municípios gaúchos. Isso significa transitar diariamente por estradas de chão, esburacadas e de difícil acesso. Ainda citaria a concorrência com os importados, como já mencionei, e os altos custos de produção”, lembra Guerra, do Sindilat.

Para tentar corrigir esses problemas e vencer os desafios, Jank pede que ocorra uma maior estabilidade na produção, no consumo e nas importações. Segundo ele, isso só é possível com ganhos de qualidade na manufatura, maior segmentação de produtos ao consumidor e maior rigidez nas normas tanto ao produtor quanto à matéria-prima nos silos das indústrias. Além disso, para Alvim, é necessário que o produtor encare a atividade leiteira como uma empresa rural, administrando os custos, treinando e capacitando seus colaboradores e produtores, além de implementar boas práticas agropecuárias e gestão com o objetivo de melhorar o manejo do rebanho. Segundo ele, todos esses itens atendidos certamente minimizariam os custos de produção. E Guerra complementa: “Também cabe ao produtor fazer seu dever de casa, organizar a produção, adotar sistemas mais sustentáveis e com menos agressão ao meio ambiente. O futuro cobrará do produtor agrícola uma produção com menos energia, menos água e menos mão de obra. Precisamos estar prontos para o futuro. Mesmo papel deve atentar à indústria, com maximização da eficiência produtiva”.

Mercado externo — De acordo com Guerra, um levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio apontou que 55 países realizaram negociações de aquisição de lácteos nos últimos dois anos no Brasil. Em 2017, os maiores embarques em valores tiveram como destino Venezuela (15%), Arábia Saudita (9%), Chile (7%), Estados Unidos (7%), Emirados Árabes (6%), Argentina (6%), Filipinas (5%), Trinidade e Tobago (5%) e Argélia (5%). As exportações tiveram forte recuo em maio de 2018, tanto em faturamento como em volume, frente ao mês anterior. “Em relação a igual período de 2017, volume e faturamento caíram, respectivamente, 68,5% e 71,7%”, afirma Alvim.

Leite

A partir do final de 2017, o custo de produção começou a subir em razão do milho e do farelo de soja, ao mesmo tempo em que o preço do leite recuou muito