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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Hortaliças

Tempos pouco saudáveis

Hortaliças

O segmento de hortaliças também foi atingido pela crise econômica, que provocou queda na renda doméstica do trabalhador. Em 2017, a área plantada com hortaliças encolheu 8% ante 2016, ao mesmo tempo em que o faturamento do produtor caiu 4%

Thais D’Avila

A crise econômica brasileira atingiu em cheio os produtores de hortaliças. Com a redução da renda familiar provocada pelo desemprego, muitas famílias trocaram o valor investido nessa categoria de produtos por algum tipo de carne ou macarrão. “Um quilo de algumas hortaliças varia de R$ 3 a R$ 6. Com esse valor, as pessoas optam por outros produtos que dão mais volume na alimentação”, Leandro Mariani Mittmann explica o chefe-geral da Embrapa Hortaliças, Warley Nascimento. Conforme o diretor-executivo da Associação Brasileira do Comércio de Sementes e Mudas (ABCSem), Marcelo Pacotte, em 2017, houve uma queda de 8% na área plantada em relação ao ano anterior (2016). Já o faturamento encolheu em 4%. “É uma crise duradoura, não acaba. É um problema em cima do outro. E a instabilidade política só contribui para esse ambiente”, lamenta. Pacotte afirma que o início de 2018 chegou a apresentar um suspiro, com algumas empresas exibindo resultados interessantes. “Mas o mercado ainda está difícil.”

Além da redução de área registrada pela ABCSem, o chefe- -geral da Embrapa Hortaliças acredita que o produtor investiu menos na tecnologia e nos cuidados com as plantações. “Vendo a redução no consumo, ele não está insistindo. Ou plantou menos, ou não cuidou tanto. Deixou de colocar a dose certa de adubo, fez um trato cultural ou pulverização a menos. E, em consequência, teve uma produção menor”, analisa Nascimento. A falta de empenho do produtor, entretanto, não tem a ver somente com a crise econômica.

Nascimento credita a falta de investimento em inovação genética e práticas de manejo a uma cultura de não enxergar a médio e longo prazos. “O produtor não faz a conta se a semente de uma cultivar um pouco mais cara vai representar maior produtividade, redução de custos com insumos e maior sobrevida do produto nas gôndolas. Ele só pensa no desembolso.” E completa dizendo que o resultado do trabalho da pesquisa e desenvolvimento não vem tendo adesão dos produtores. “O produtor acha que o investimento não vale a pena. Ele fecha os olhos. Não quer investir muito. Não tem ousadia ou experiência de gestão de utilizar uma tecnologia que vai contribuir mais e com a qual ele poderá ganhar mais”, lastima.

Radiografia do segmento — A falta de organização do setor de hortaliças é histórica e reconhecida pelas entidades que atuam no segmento. Afinal, é difícil organizar uma produção pulverizada – os pequenos produtores representam 95% do total de hortaliças produzidas no País. Ao longo de 2017, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a ABCSem elaboraram um mapeamento e uma quantificação da cadeia produtiva das hortaliças. Uma publicação com mais de 70 páginas e que traz uma radiografia relatando a importância econômica e social desses produtos. Conforme o estudo, em 2016, a movimentação total foi de mais de US$ 19 bilhões, estando US$ 3,2 bilhões antes da porteira, US$ 5,08 bilhões dentro da porteira e US$ 10, 5 bilhões depois da porteira.

Conforme o assessor de hortaliças da CNA, Eduardo Brandão Costa, dimensionar o tamanho certo da cadeia contribui até para conseguir avanços na política e investimentos para o setor. Mais otimista, ele afirma que o trabalho tem ajudado na tendência que está acontecendo nas hortaliças de organização e tecnificação do setor produtivo. “Percebemos uma maior preocupação com irrigação, com resíduos de defensivos, e isso é muito positivo”, pontua. Segundo ele, como o produto é consumido rápido e in natura, isso começou a entrar mais forte na cabeça dos pequenos produtores. “Acreditamos que 2018 vai ser o ano da tecnificação no setor das hortaliças.” O trabalho abordou 13 culturas: abóbora, abobrinha, alface, alho, batata, beterraba, cebola, cenoura, coentro, couve-flor, pimentão, tomate de mesa e tomate industrial, que representam 65% da produção brasileira de hortaliças. O estudo também revelou que fertilizantes, energia elétrica e defensivos correspondem a mais da metade dos custos.

Rastreabilidade e mais segurança para o consumidor — Passou a valer, em agosto de 2018, a primeira fase da Instrução Normativa nº 2/2018, do Ministério da Agricultura e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Trata-se de um novo sistema de rastreabilidade para monitorar a presença de resíduos de agrotóxicos em frutas e hortaliças. A norma, publicada em fevereiro, dava prazo de 180 dias para o vigor nas primeiras culturas. A adequação de todos os vegetais frescos destinados à alimentação humana deve acontecer em até dois anos após a publicação do documento. As hortaliças serão as principais atingidas pela medida que prevê a identificação dos produtos com etiquetas, códigos de barra ou QR codes.

Conforme o diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal do ministério, Fábio Florêncio, “o ministério vem tentando implementar a rastreabilidade nos produtos vegetais, especialmente os hortícolas, há alguns anos. “Primeiro, começou com a padronização de embalagens. Depois, a rotulagem. O problema é complexo, pois abrange muitos pequenos produtores”, descreve. Segundo Florêncio, a tendência com as exigências de documentação do uso de defensivos é a profissionalização do produtor. “Ele vai precisar declarar a origem e o uso do produto, e, com isso, vai ter um controle melhor sobre a produção”, acredita. Entre as hortaliças, as primeiras exigências são para batata, alface, repolho, tomate e pepino.

Conforme o Ministério da Agricultura, não será necessário um incremento de custos para o agricultor. “O produtor tem que fornecer à cadeia posterior informações para que seja registrado de quem é aquele produto. E assim sucessivamente, até o varejo, para que seja possível voltar à origem do alimento”, explica Florêncio. Já as informações sobre o uso de produtos devem ficar nos controles internos do produtor. A fiscalização será realizada por diferentes organismos, dependendo do elo da cadeia. Do produtor até o entreposto, a responsabilidade de fiscalizar é do ministério, enquanto do entreposto ao consumidor será das vigilâncias sanitárias estadual e municipal.