A Granja do Ano – 36 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Frutas

Acudido pelos portos

Frutas

O segmento de frutas sofre com a crise econômica que afeta o consumo doméstico. Felizmente, em 2017, as exportações tiveram um incremento de 15,7% em faturamento, e, no primeiro semestre de 2018, tal expansão foi de 16,51%. E o potencial é gigantesco

Thais D’Avila

O açaí foi a fruta brasileira escolhida para inaugurar um produto agrícola brasileiro no Singles Day (Dia dos Solteiros), uma promoção do site chinês Alibaba. Realizada em novembro para os consumidores chineses, a promoção – equivalente à Black Friday norteamericana – foi criada para ser uma data comercial oposta ao Dia dos Namorados. A iniciativa partiu do próprio site, que procurou mais informações após verificar o crescimento do consumo do açaí na Ásia. Conforme o assessor de Fruticultura da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Eduardo Brandão Costa, o site é responsável por fazer uma estimativa de volume. “O setor produtivo no Brasil precisa buscar a produção para atender à demanda e enviar para lá”, avalia. A expectativa é que, após experimentar o produto, haja novos pedidos.

Costa conta que os chineses fizeram o mesmo trabalho com o abacate do Peru e venderam nesse dia mais do que todo o abacate que a China importava daquele país ao longo de três meses. Hoje, o Brasil não exporta frutas para a China pela falta de um acordo fitossanitário. Mas o açaí entra sem restrição, pois trata-se de um produto processado, sem riscos. Segundo Costa, uma equipe da CNA já esteve no Pará e reuniu os maiores produtores e processadores da fruta para levantar a capacidade de produção. “A tendência do mercado mundial – não só de frutas, mas do fresh (frutas e hortaliças) –, nos próximos dez anos, é o aumento da venda e-commerce. O pessoal liga, pede uma cesta e recebe em casa”, aposta.

Mercado internacional com força — E, ao que tudo indica, os olhos dos fruticultores brasileiros devem se voltar para o horizonte internacional. Em 2017, a crise econômica não deu trégua, e o consumo no mercado interno acusou o golpe. Já as exportações registraram um aumento de 15,7% no faturamento em relação a 2016 e de 9% no volume no mesmo período. “O câmbio ajudou um pouco, e também a demanda crescente por frutas tropicais no mercado internacional. Por isso, o setor conseguiu encerrar o ano com desempenho satisfatório”, revela o diretor de projetos da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), Jorge Souza.

O ano de 2018 permanece promissor para o segmento de frutas de exportação. Conforme Costa, o trabalho de promoção feito pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) tem contribuído para que o mercado externo procure mais a fruta brasileira. De janeiro a junho de 2018, houve um incremento de 16,51% nas vendas em relação ao mesmo período do ano anterior. E o volume também cresceu. Foi um aumento de quase 12%, e, em se tratando de fruta, é “um percentual significativo”, diz. Considerando que o segundo semestre – mais particularmente, o último trimestre – é sempre o período que registra maior crescimento, há uma esperança de que seja possível superar o desempenho de 2017. As exportações representam 3% da fruticultura brasileira. Mas diante das instabilidades da economia brasileira, a intenção é sempre ampliar esse percentual. Uma boa nova que deve ocorrer ainda em 2018 é a exportação do melão para a China. “Vai melão brasileiro para a China e vem pera chinesa para o Brasil porque não somos um grande produtor. É uma fruta que não afeta muito a produção nacional”, explica Costa. O Oriente Médio é um mercado que tem um bom potencial para as frutas brasileiras, porém, segundo ele, é preciso “ensinar o árabe a comer algumas espécies, como o mamão”. “Mas acreditamos que podemos fazer bons negócios”, ressalta. Souza explica que as negociações são demoradas por serem muito técnicas. “Em um acordo fitossanitário de uma determinada espécie, como a do melão, que já tem sete anos, o país pede contrapartidas, precisa escolher uma espécie que não prejudique a produção nacional. São complexas e não são rápidas”, descreve.

Seca no semiárido provoca mudanças — Durante 2017, o setor de frutas sofreu muito com a falta de chuva. Boa parte dos polos de produção está localizada no semiárido. Conforme o diretor de projetos da Abrafrutas, essa região é importante, pois a qualidade da fruta está muito ligada à ausência de insetos e doenças. “E quando você coloca a água direto no solo, somente para a irrigação, isso privilegia a planta e a produção”, afirma Souza. Ele explica, entretanto, que a falta de água vem impondo desafios que não apareciam em anos anteriores. “Foram cinco anos de seca prolongada que acabaram sacrificando os reservatórios do Nordeste. A Barragem de Sobradinho chegou quase no volume morto.” Segundo ele, com as dificuldades relacionadas à irrigação aumentando, os produtores tiveram que trabalhar dobrado, abrir novas áreas em outras regiões, ou até mesmo apostar em novos sistemas de irrigação que privilegiem a economia de água.

Conforme dados da Abrafrutas, houve uma migração de muitas empresas para as margens do Rio Parnaíba, no Piauí, que eram áreas de pastagens degradadas e que não estavam sendo bem aproveitadas. Outras iniciativas foram para regiões do Maranhão, que também não sofreu tanto. Em termos de troca de tecnologia de irrigação, os produtores deixaram de usar a microaspersão para trabalhar com gotejamento, que representa grande economia de água. “Isso gerou um investimento, mas o setor entendeu que, em função do momento do mercado e dos importantes concorrentes internacionais, como Peru, Colômbia, e outros países tropicais da América Latina, não pode dar abertura para os concorrentes”, adverte Souza.

Inteligência na fruticultura — A atividade agrícola – em especial, a fruticultura – não pode mais sobreviver sem informações e inteligência. A afirmação é do pesquisador da Embrapa Fruticultura Carlos Estevão Cardoso Leite. “A lógica, agora, é de fronteiras mais abertas. Por isso, é preciso buscar informações para tomar a decisão. E uma ferramenta fundamental para isso se concretizar é o tempo, que vai dizer o quanto isso vai ser importante para a fruticultura”, projeta. Um exemplo é o CenterFrut, lançado em dezembro de 2017. O Centro de Inteligência da Fruticultura Baiana é um ambiente virtual de inteligência estratégica que tem o objetivo de divulgar informações de interesse dos atores da cadeia produtiva da fruticultura baiana, oferecendo dados para que possam tomar decisões mais acertadas.