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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

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Crise, greve, embargo e (muita) apreensão

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O mercado externo é fundamental para a avicultura brasileira, mas esse destino vai levar 3,9 milhões de toneladas em 2018, ante as 4,2 milhões em 2017. Lá fora tem o embargo europeu e a tarifa chinesa. Além disso, aqui dentro tem crise econômica, custos em alta e greve dos caminhoneiros

Leonardo Gottems

Líder absoluto nas exportações de carne de frango do mundo, comercializando com mais de 150 mercados ao redor do globo e representando 37% das exportações mundiais, o mercado avícola do Brasil vem sofrendo com uma série de fatores. Como esse mercado gira, de Lucas Scherer/Embrapa Suínos e Aves uma maneira bastante significativa, em torno das vendas ao exterior, problemas como logística e disputas políticas acabam repercutindo no setor. De acordo com Fernando Henrique Iglesias, da Agência Safras & Mercado, a avicultura se depara com uma situação complicada em 2018. Segundo ele, a estimativa total de produção de carne de frango para o ano de 2018 é de pouco mais de 13 milhões de toneladas, praticamente o mesmo número de 2017. No entanto, as exportações devem cair de 4,2 milhões de toneladas para 3,9 milhões em 2018.

Ele explica que o resultado inferior das exportações pode ser justificado pelo embargo imposto pela União Europeia, além da tarifa antidumping imposta pela China. No mercado doméstico, o fraco desempenho econômico ajuda a explicar a dificuldade em ampliar o consumo. Além disso, a avicultura foi um dos setores mais prejudicados com a greve dos caminhoneiros. Segundo dados divulgados pelo presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, o setor avícola ainda está sentindo os efeitos dessa greve.

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A paralisação dos caminhoneiros gerou impactos de R$ 3,150 bilhões na produção e exportação de carne de aves e também de suínos, ovos e material genético

A paralisação gerou impactos de R$ 3,150 bilhões na produção e exportação de aves, suínos, ovos e material genético. “Em junho (2018), o setor avícola sofreu uma queda de 36,9% no volume de exportações e registrou uma baixa de 41,9% nas receitas das exportações, comparando com o mesmo período do ano passado”, informa Turra. No entanto, o dirigente lembra que é preciso considerar, ainda, a forte elevação dos custos de produção decorrente de altas históricas do milho e da soja ao longo do primeiro semestre de 2018. Segundo o presidente da ABPA, esse fator tem influenciado a elevação do preço dos produtos no mercado interno.

Sem previsão otimista — Para os próximos meses, a expectativa é de que o setor busque uma recuperação, desde que haja um controle de oferta. Iglesias, entretanto, acredita que a reabertura da União Europeia pode demorar mais do que o previsto e a demanda interna poderá seguir achincalhada pelo fraco desempenho econômico do País. Sendo assim, ele diz que “manter a oferta ajustada em relação ao consumo parece uma estratégia mais do que necessária para recuperar as receitas do setor”. Nesse cenário, a análise dos pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves, Dirceu Talamini, Jonas Santos Filho e Franco Martins, mostra que a piora da situação veio muito rápido e a recuperação deve ser demasiadamente lenta.

Eles lembram, ainda, que todo o mercado de proteína está enfrentando as mesmas dificuldades e que a tendência é de que a situação não se resolva em um curto prazo. “Olhando para o futuro próximo, pensamos que a situação deve continuar preocupante, porque não se vislumbra uma modificação rápida e positiva das condições da economia brasileira, nem uma recuperação rápida do mercado internacional. A piora das condições em geral é muito rápida, quase instantânea, mas a recuperação é lenta e exige grande esforço”, dizem os pesquisadores da Embrapa.

Todos esses atrasos no desenvolvimento da avicultura brasileira não chegaram de graça, pelo contrário, são baseados em acontecimentos de escala nacional ou global, que afetaram direta ou indiretamente o setor. A já citada greve dos caminhoneiros, por exemplo, além de impactar na falta de competitividade gerada pelo atraso de transporte, causou uma suspensão no fornecimento de ração, o que acabou literalmente matando muitos animais. “Os maiores entraves são o aumento do preço dos insumos, que, ao que parece, vieram para ficar, e os movimentos protecionistas das indústrias locais da Europa e China”, afirma Turra.

Nesse sentido, Iglesias cita como problemas o seguinte: em primeiro lugar, a dificuldade em ampliar o fluxo de embarques mesmo com a desvalorização do real; depois, a dificuldade em expandir a demanda interna em um ano de fraco desempenho econômico. Conforme ele, é preciso, primeiramente, manter a oferta interna equilibrada, via redução do alojamento de pintos de corte. “A recuperação da credibilidade das proteínas de origem animal do Brasil no mercado externo é fator determinante, mas as negociações são árduas e podem se arrastar por mais tempo do que o previsto”, acrescenta.

Exportação — Quanto ao aspecto exportação, os especialistas da Embrapa dizem que as barreiras impostas pela União Europeia, Rússia e China visam proteger os seus produtores, mas acabam prejudicando outros países fornecedores de proteína animal. Nesse cenário, eles alertam os próximos governantes para ficarem atentos a esse tipo de ação para buscarem agir com profissionalismo, tanto no espaço público como no privado, para defender-se com efetividade. No entanto, Turra finaliza dizendo que a diminuição nas exportações pode não ser tão significativa quanto se imaginava, já que México, Coreia do Sul, Jordânia e outros mercados importantes para a avicultura brasileira no Oriente Médio e na Ásia sinalizaram que irão aumentar o poder de compra da carne de aves do Brasil. Nesse caso, esse surgimento de novos compradores acabaria compensando os efeitos da retração das vendas para a União Europeia e a Arábia Saudita.