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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Florestas

Nada segura o crescimento

Florestas

O segmento de florestas plantadas representa 3,9% de todas as exportações brasileiras, com receita de US$ 6,4 bilhões em 2017. E as perspectivas são de crescimento de exportações em 2018, visto a demanda chinesa. A estimativa é que o setor vai investir R$ 14 bilhões entre 2017 e 2020

Eliza Maliszewski

O ano de 2017 foi de crescimento para a indústria de base florestal. Houve um avanço de 12,9% na balança comercial do setor, alcançando o valor de US$ 7,5 bilhões. As exportações puxaram essa alta, com aumento de 14% para celulose, o que representa US$ 6,4 bilhões em receita, variação positiva de 2,2% para papel, resultado financeiro de US$ 1,9 bilhão e crescimento de 15,6% para painéis de madeira, atingindo US$ 289 milhões. Em termos de representatividade, as exportações do setor produtivo de árvores plantadas foram responsáveis por 3,9% de todo o volume de bens e produtos negociados pelo Brasil. Também foi registrado avanço nos acordos com o mercado externo em todos os segmentos da indústria.

A China se manteve como principal compradora da celulose brasileira, aumentando o consumo em 18,7%, seguida da Europa, que aumentou as importações em 7,5%. Já a América Latina permaneceu à frente das demais regiões do mundo quando o assunto é destino de painéis de madeira e papel. Para os painéis, a região representou 52,2% de todo o volume exportado pelo País, avanço de 11%. O mercado interno de painéis de madeira registrou avanço de 4% em suas negociações, totalizando 6,5 milhões de metros cúbicos vendidos. Já o segmento de papel encerrou 2017 com saldo positivo de 0,7%, somando 5,5 milhões de toneladas comercializadas. A produção também teve variação positiva no setor de celulose, que avançou 3,8%. Destaque para as 19,5 milhões de toneladas produzidas, o maior volume já registrado no período de um ano. Papel, por sua vez, com 10,5 milhões de toneladas geradas, teve alta de 1,4% em comparação com 2016.

O setor conta com 7,8 milhões hectares de florestas, ocupando um pouco menos de 1% do território nacional, e representa cerca de 4% do PIB. A presidente da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Elizabeth de Carvalhaes, atribui esses bons resultados à retomada, ainda que tímida, do crescimento brasileiro em meio à crise econômica e às estratégias que produtores e empresas estão adotando para driblar as dificuldades, como a busca de novos mercados. Por exemplo: em 2017, a celulose de fibra curta teve demanda maior do que o previsto em função da procura de papéis tissue na China, batendo recorde de 4,713 milhões de toneladas exportadas para aquele país.

“A gradual retomada de confiança do consumidor, principalmente no último trimestre (de abril a junho de 2018), foi fundamental para embalagens e papel cartão, isso porque o papel cartão é utilizado para fabricar embalagens que acompanham produtos de necessidades básicas, como cosméticos e higiene, além de eletrônicos. É uma relação direta: com o consumo subindo, o setor cresce”, explica.

Elizabeth enfatiza que as exportações já deixaram de ser uma saída das empresas que produzem painéis para passar pela crise e tornaram-se parte da estratégia de crescimento. “O mercado doméstico, com certeza, continuará como a prioridade dessa indústria, mas o mercado externo deve ganhar espaço. Os painéis de madeira nacionais possuem muitos atributos que os tornam bastantes competitivos no exterior, como a qualidade e a capacidade de desenvolver produtos distintos para mercados diversos. Temos uma das indústrias mais modernas do mundo, e é um caminho natural que as exportações continuem crescendo”, avalia.

Por isso, em 2018, a expectativa é que as exportações continuem subindo em função de medidas de governo chinesas, políticas socioambientais locais rígidas na Europa e retomada do consumo pelos brasileiros. “O setor também trabalha para que o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia seja concretizado, pois isso seria mais um impulso para produtos do segmento, mundialmente reconhecidos por suas qualidades”, diz.

Tecnologias e sustentabilidade — A floresta plantada do Brasil é a mais produtiva do mundo, sendo 35% das áreas plantadas destinadas para papel e celulose. Essa engrenagem se beneficia muito dos fatores edafoclimáticos (relação planta-solo- -clima) que são privilegiados por aqui. Mas esse resultado é superior também por investimentos em tecnologia no cultivo. Técnicas de manejo sustentável contribuem para a conservação da biodiversidade, preservação do solo, recursos hídricos, recuperação de áreas degradadas e geração de energia renovável. Para Elizabeth, os aportes constantes em inovação na base florestal e na indústria têm levado o setor a uma posição de destaque no desenvolvimento de uma economia de baixo carbono.

A estimativa do setor é de investimento de R$ 14 bilhões entre 2017 e 2020, boa parte destinada para pesquisa e desenvolvimento. “Com potencial para ser fonte de mais de 5 mil produtos e subprodutos inovadores originários da madeira, no futuro, as árvores plantadas abastecerão outras indústrias, como farmacêutica, química, cosmética, aeronáutica, têxtil, alimentícia, eletrônica e automobilística”, completa.

Nanocelulose e bioplástico — Também é possível citar a nanocelulose e os nanocristais, que estão em estudos para desenvolvimento de produtos como telas flexíveis e de LCD, remédios, cosméticos, bioplásticos e componentes estruturais de aeronaves. “Não podemos esquecer do mercado de carbono, que deverá ser regulamentado até 2019. Esse será um importante mecanismo para a preservação ambiental e redução do efeito estufa. As empresas do setor de florestas plantadas do Brasil poderão atuar nesse mercado, que tem início previsto para 2020, pois já possuem crédito de carbono”, acrescenta.

Para a pesquisadora da Embrapa Florestas Rosana Higa, as florestas e seus produtos têm importante atuação no clima pelo potencial de absorver emissões de carbono em sua biomassa. Plantio, colheita, preparação do solo e adubação podem ser manipulados para influenciar o acúmulo de carbono no solo. “Os produtos madeireiros e a energia da madeira podem substituir produtos que usam grandes quantidades de combustíveis fósseis, contribuindo para uma economia de baixo carbono.

No entanto, as limitações e preocupações tecnológicas em relação aos potenciais impactos negativos sobre os recursos florestais têm sido barreiras ao aumento do uso de energia e produtos de madeira”, alerta. Rosana ainda ressalta que novas tecnologias estão sendo investigadas, desenvolvidas e comercializadas para aproveitar a energia da madeira, como os chamados biocombustíveis de segunda geração, pensando nas exigências cada vez maiores de sustentabilidade que surgem do consumidor.

Florestas

O melhoramento genético é um dos grandes focos do setor, sendo que o Brasil é o país que mais avançou nessa tecnologia e, por isso, detém a maior produtividade

A genética do futuro — A Ibá ressalta que o melhoramento genético é um dos grandes focos do setor no momento. O Brasil é o país que mais avançou na questão de árvores e, por isso, detém a maior produtividade florestal do mundo. Estudos de laboratório são capazes de obter clones que são mais eficientes na produção de biomassa e melhor adaptação ao ambiente, o que inclui falta de recursos hídricos e resistência a pragas. O indicador de produtividade no País chega a 40 metros cúbicos/hectare/ ano, mas, entre algumas empresas filiadas à entidade, a produtividade chega a 60 m³/ha/ano. Na Escandinávia, por exemplo, onde as florestas são nativas e passam por invernos rigorosos, esse indicador não ultrapassa 10 metros cúbicos/hectare/ano.

Os investimentos para alavancar ainda mais a produtividade beiram a casa dos bilhões de reais, focados na base florestal. “Se não houvesse o desenvolvimento dessa tecnologia, seria necessária uma área de plantio muito maior”, destaca Elizabeth. A entidade ainda observa que outras tecnologias também estão em curso, como a transgenia, e que, antes da aprovação de novas variedades comerciais, há um controle rigoroso de diversos organismos para avaliar impactos ambientais. “O Brasil tem um dos sistemas regulatórios mais restritos no que tange à biossegurança, e é fundamental reconhecer a importância de um marco regulatório robusto e de medidas que estimulem investimentos em pesquisas e inovação tecnológica, estimulando o diálogo contínuo entre todas as partes e atores envolvidos”, afirma.