A Granja do Ano – 36 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Flores

Números deslumbrantes

Flores

O segmento de flores não foi atingido pela crise econômica brasileira. Em 2017, o faturamento cresceu 9%, sendo que algumas cooperativas chegaram a registrar até 15%. E há potencial para mais expansão

Eliza Maliszewski

Os números retratam um setor consolidado. O Brasil conta, atualmente, com cerca de 8 mil produtores de flores e plantas ornamentais. Juntos, eles cultivam mais de 350 espécies, com cerca de 3 mil variedades de flores cortadas, como rosas e crisântemos, e as de vaso, como orquídeas e kalanchoes. O mercado de flores representa uma importante engrenagem na economia brasileira, responsável por quase 200 mil empregos diretos, entre produção, distribuição, varejo e em outras funções, em maior parte como apoio. São cerca de 15 mil hectares de área plantada, sendo São Paulo o maior produtor e também consumidor.

Em 2017, foi registrado um faturamento de R$ 7,3 bilhões, crescimento de 9% em relação ao ano anterior. Nos últimos cinco anos, essa foi a tendência (alta que varia de 8% a 16% por ano). Para o presidente do Instituto Brasileiro da Flor (Ibraflor), Kees Schoenmaker, há dois fatores que podem esfriar um pouco esse otimismo. Um deles é a greve dos caminhoneiros, que aconteceu em maio de 2018 e pode fazer com que a projeção de crescimento caia de 6% a 10%. “Com os dados e informações dos quais dispomos agora, tudo indica que o ano (2018) vai ficar abaixo das estimativas iniciais. Parece que o consumidor perdeu confiança e ficou mais cauteloso”, avalia.

O outro fator é o clima. A falta de chuva e as altas temperaturas do inverno de 2018 na Região Sudeste aumentam a oferta de flores cortadas exatamente no momento em que o mercado estava fraco. “Mesmo assim, estamos confiantes, porque se percebe que as vendas através do canal de autosserviços continuam bastante razoáveis, uma vez que o consumidor encontra, mesmo não estando à procura, um produto que pode melhorar a sua vida, por um preço que cabe praticamente em todos os bolsos”, esclarece.

Essa também é a visão de uma das maiores cooperativas de flores do País. A Veiling, de Holambra/SP, que tem atuação no mercado nacional e conta com 400 produtores associados, vinha de um período de cautela em função do momento econômico do Brasil, mas, em 2017, o desempenho comercial foi melhor do que o esperado. “Fechamos o ano (2017) com 15% de crescimento, acima do esperado. Atualmente, o mercado está respondendo bem às nossas expectativas. Embora muitas variáveis externas tenham atrapalhado bastante o cenário geral de vendas, ainda nos mantemos otimistas e com uma previsão de crescimento de, aproximadamente, 10% para 2018”, ressalta a gerente comercial, Rachel Ferreira Osório.

Flores

O mercado de flores é responsável por quase 200 mil empregos diretos, entre produção, distribuição, varejo e em outras funções, sobretudo como apoio

Superar barreiras e buscar tecnologia — Mesmo com a evolução da produção de flores e plantas ornamentais no Brasil, em diversos aspectos, alguns desafios ainda pairam sobre o setor. O primeiro é o fator climático. Chuvas em exagero ou estiagens atingiram regiões produtoras nos últimos anos, até mesmo as com irrigação, e mostraram a importância de investimentos nos sistemas de cultivo. Em um balanço de custo e produtividade, a mão de obra tem peso importante, pois nem sempre é qualificada para a função.

Outro ponto é o escoamento da produção. Baixa qualidade de infraestrutura – especialmente em zonas rurais, onde o transporte rodoviário encontra estradas precárias e a falta de refrigeração adequada para armazenagem – impacta toda a cadeia, assim como dificuldade de acesso de algumas áreas à energia elétrica e à internet. O Ibraflor ainda sugere que falta um sistema de classificação que permita bonificar os produtores pela qualidade dos seus produtos e que há elevada informalidade no setor. Estima- -se que, em alguns estados, até metade dos produtores estão em situação irregular.

O investimento em novas tecnologias e a automatização é visto como uma alternativa para aumentar a produção em todas as estações do ano, mas também requer cautela. Como a maioria das atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação voltadas ao cultivo vem de fora do País, o acesso e a adequação às condições estruturais do Brasil tornam-se mais difíceis. Schoenmaker, do Ibraflor, acredita que, no caso de produção de vasos em estufas, a diferença para quem faz uso de tecnologias pode ser enorme, porém exige investimentos grandes. Desde que o produtor tenha uma produção de um porte razoável, além de trabalhar com produtos de boa aceitação com bom preço, a iniciativa é valida.

Conhecer o consumidor — Rachel, da Veiling, explica que conhecer os hábitos do público consumidor é fundamental. Em média, cada brasileiro costuma consumir até R$ 35 por ano. Com o enfraquecimento do real, a importação de mudas, bulbos e sementes ficou muito cara. Isso tem um impacto muito grande nos custos para os produtores. O Brasil está apenas exportando mudas e bulbos. O envio de flores cortadas para o exterior parou há cerca de seis anos devido aos altos custos, o então câmbio desfavorável, e, principalmente, ao mercado interno aquecido. Por isso, o produtor deve manter a competitividade inovando sempre. “Isso requer investimentos, principalmente em moeda estrangeira, como, por exemplo, com o pagamento de royalties. Os custos com produção continuam elevados, e ainda há o agravante de produções que trabalham na informalidade ou com a pirataria de produtos, atrapalhando bastante o mercado como um todo”, sugere Rachel.