A Granja do Ano – 36 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Feijão

Estável e desorganizado

Feijão

Segmento do feijão vive um momento de cotações sem sobressaltos. Mas as lideranças anseiam em ver a cadeia em dias constantes. Organização e mercado externo são os sonhos, assim como esperam do Governo mais ação e menos burocracia

Leonardo Gottems

Ao contrário da instabilidade entre oferta e demanda registrada em 2017, a cultura do feijão passa por um momento de produção e de preços estáveis em 2018, mesmo com os valores em um patamar abaixo do registrado nos últimos anos. A média do feijão carioca, por exemplo, deve variar entre R$ 120 e R$ 150 a saca de 60 quilos. Em 2017, a mínima não baixava de R$ 150, e a máxima chegou a R$ 200. De acordo com o analista em transferência da Embrapa Arroz e Feijão Pedro Sarmento, a produção estimada para 2018 é de, aproximadamente, 3,3 milhões de toneladas, semelhante à de 2017.

No entanto, como a tendência é de que os preços não aumentem no decorrer do ano, as safras de feijão não estão se mostrando lucrativas para alguns produtores. “No momento, o cenário não está favorável para os produtores de feijão irrigado. É necessário produzir acima de 50 sacas para conseguir alguma lucratividade. Infelizmente, existe uma tendência de excessiva utilização de insumos sem a devida atenção ao retorno dessas aplicações na lavoura”, comenta Sarmento. Segundo o analista, outro ponto importante é a saúde do solo dos pivôs plantados com feijoeiro comum. Ele explica que os produtores já perceberam que, se não usarem algum tipo de cobertura, seja ela milheto, crotalária, braquiária, trigo mourisco, separadas ou misturadas, dificilmente conseguirão produzir acima das 60 sacas por hectare.

Já o engenheiro-agrônomo Fábio Aurélio Dias Martins, pesquisador da Empresa de Pesquisas Agropecuárias de Minas Gerais (Epamig Sul), lembra o seguinte: “É possível perceber que, em função da entrada de novas regiões produtoras de feijão comum, estamos passando por um processo de reacomodação da cadeia produtiva, com um cenário que indica preços mais baixos pagos ao produtor”. Nesse sentido, o especialista entende que não haverá mudanças significativas no que se refere aos preços e à produtividade da cultura.

Grãos especiais e burocracia — Além dos preços menores, Sarmento citou outras dificuldades que são enfrentadas pelos produtores de feijão e que precisam ser corrigidas para que a cultura se torne competitiva não só dentro do próprio País, como também para o exterior. Como o Brasil é o maior produtor e, ao mesmo tempo, o maior consumidor da oleaginosa, o mercado externo do produto é praticamente inexistente. “Alguns produtores também estão buscando alternativas para melhorar a rentabilidade por meio de variedades de grãos especiais. O mercado de grãos especiais é promissor, mas ainda não está consolidado. A predominância do plantio do feijão carioca impede o surgimento de alternativas mais rentáveis e de um excedente para a exportação”, explica.

Nesse cenário, o presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e dos Pulses (Ibrafe), Marcelo Lüders, critica a falta de incentivo do Poder Público para com o setor de feijão, já que, segundo ele, o Governo exagera na burocracia, o que, somado ao preço do frete e dos insumos, torna o custo de produção muito alto e acaba desestimulando o produtor que pensa em vender para mais longe. Além disso, cita outros fatores, como a pirataria de sementes, que atrapalha o investimento privado no setor. “O Ministério da Agricultura alega que não tem servidores suficientes para fiscalizar e, ao mesmo tempo, não evolui em parcerias com o setor privado para cuidar desse tema. Sem segurança de retorno financeiro ninguém investe, e, agora, com o Estado brasileiro depauperado, não vemos um cenário promissor se não houver uma forte mudança nesse setor”, critica Lüders.

Mais organização e mais exportação — Quando indagados sobre as soluções apontadas para difundir e melhor a cadeia produtiva do feijão brasileiro, os especialistas não hesitaram em citar uma melhor organização e mais incentivo à exportação. Sarmento chega a falar que é necessário um “urgente investimento em marketing visando ao consumidor, além de uma valorização do setor agropecuário e necessidade de indicadores de preços”.

Além desses fatores, Martins, da Epamig Sul, esclarece ser preciso que os produtores estejam “antenados” com as perspectivas dos mercados interno e externo, e, assim, conseguirão gerar sistemas de produção eficientes para feijões voltados à exportação. Atualmente, 70% da produção brasileira é do feijão carioca, o que acaba dificultando a venda para outros países devido à falta de diversidade. “O produtor precisa entender que, se não temos apoio público, temos que resolver entre nós, e isso implica em ele também contribuir, junto com os demais elos da cadeia, para criar as condições que acelerem a pesquisa e o crescimento do consumo e da exportação”, completa Lüders.

Somando as três safras anuais de feijão, o Paraná é o maior produtor da cultura desde 2006. Motivado pelo clima propício, com chuvas regulares e em bons volumes o ano todo, o estado estima produzir aproximadamente 700 mil toneladas em quase 450 mil hectares, com uma produtividade média de 1,5 tonelada por hectare em 2018. Em 2017, o Paraná produziu 781,1 mil toneladas, o que significa uma participação de 23,3% na safra nacional. Na sequência, Minas Gerais (546,9 mil toneladas), Goiás (327,9 mil), Mato Grosso (300,7 mil), Bahia (291,9 mil) e São Paulo (262 mil toneladas).