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Trigo

A esperança como insumo

Trigo

O câmbio mais ameno facilita a importação de trigo dos vizinhos do Mercosul, concorrência que prejudica os triticultores brasileiros. Ainda não há um indicativo sobre o tamanho da nova safra. Porém, analista prevê cotações recuando no longo prazo, a menos que o clima prejudique a cultura e, assim, o grão se valorize

Gabriel Nascimento
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O mercado brasileiro de trigo iniciou a temporada 2016/17 dentro de um contexto de preços elevados, vindos de uma temporada atípica ao trigo, no ano comercial 2015/16. Segundo o analista de Safras & Mercado Jonathan Pinheiro, em 2016 houve um volume atípico também das exportações de milho, tendo em vista um preço mais atrativo no mercado internacional. A quebra considerável de safra resultou em um volume de estoques significativamente abaixo do necessário para atender a demanda interna. “Dessa forma, houve uma elevação acentuada dos preços do milho, trazendo para o trigo toda a demanda pelo cereal, sendo uma alternativa emergencial mais atrativa aos compradores, principalmente para ração animal. Tendo em vista esses fatores, o preço do trigo até então apresentava estabilidade, porém, abaixo das expectativas dos produtores, iniciou um forte movimento altista, que se manteve até o início da temporada seguinte”, explicou o analista. “Além disso, a instabilidade política no Brasil trazia grande volatilidade cambial e a baixa do petróleo reduziu custos para os negócios internacionais, possibilitando comércio com países mais distantes a preços ainda atrativos”.

O início da temporada 2016/17 apresentou uma expectativa favorável aos produtores do trigo, com preços atrativos. A safra se apresentava relativamente tranquila, considerando o clima favorável, que resultaria em uma produtividade acima da esperada pelos produtores. “Contudo, esse fator positivo foi o mesmo que acarretou em queda de preços, tendo em vista a expectativa de elevado volume produzido no País”. Além disso, conforme Pinheiro, os estoques internacionais tendem a permanecer elevados por mais algumas temporadas, “até que voltem a se ajustar”. O analista destaca, ainda, que a queda nos preços do petróleo foi positiva ao Brasil, visto que ampliou as possibilidades de negociação aos grandes exportadores mundiais, trazendo, também, grande vantagem à Argentina, que ganhou maior significância dentro das exportações mundiais. “Houve redução pontual do potencial de exportações ao Brasil, fator que não impediu a Argentina de ser, novamente, nosso principal fornecedor de trigo”.

Esses fatores e a queda do dólar frente ao real, após forte elevação, devido à instabilidade política, trouxeram ao mercado tritícola uma difícil competição, pelas paridades de importação do trigo nacional com os preços então praticados no mercado externo, tendo como destaque os vizinhos do Mercosul, a Argentina, o Paraguai, e uma menor parcela do Uruguai. “Grande parte dos compradores nacionais, mesmo com disponibilidade do cereal internamente, optou por buscar sua matéria-prima no mercado internacional, causando um acúmulo de oferta no âmbito doméstico, que não possibilitou uma recuperação das cotações, mesmo em momento de elevação cambial. Assim, somente no final da temporada, quando os excedentes exportáveis do mercado externo já não supriam mais a demanda interna, e boa parte do trigo interno já havia sido consumida, os preços voltaram a apresentar viés de alta”, analisa Pinheiro.

O analista considera, com base nos fatores apresentados, que essa temporada foi significativamente atípica para as importações, tendo em vista que foi o período com o maior volume importado na história, com um total, até o final de julho de 2017, faltando um mês para o encerramento do ano comercial, de 6,582 milhões de toneladas importados. “Ao final da temporada 2012/13, foram importadas mais de 7 milhões de toneladas, porém, se comparado ao mesmo período da temporada atual, haviam sido importados somente 6,337 milhões de toneladas”, observa o analista.

Pinheiro ressalta que a Argentina, como maior fornecedora de trigo ao Brasil, responde por 63,79% do volume importado na temporada, o equivalente a pouco menos de 4,2 milhões de toneladas. “Incluindo a Argentina, entre os cinco principais exportadores de trigo ao Brasil, três são vizinhos do Mercosul, enquanto os outros dois são países da América do Norte”, descreve. Os Estados Unidos, em segundo lugar em fornecimento ao Brasil, têm representatividade bem abaixo do primeiro colocado, ficando com 18,56%, ou o equivalente a 1,221 milhão de toneladas. Em terceiro lugar está o Paraguai, com pouco menos de 700 mil toneladas, ou 10,53%, enquanto o Uruguai fica com 4,67%, e o Canadá, com 2,43%. “Os demais países exportadores de trigo ao Brasil representam menos de 0,1% e somam pouco mais de 1,5 mil toneladas, sendo que a França, sexta colocada entre os exportadores, é responsável por mais de 1,4 mil toneladas”.

Exportação e menor qualidade — Considerando que os produtores nacionais sofreram com duas temporadas consecutivas com perdas representativas da produção ou queda de qualidade do cereal, grande parte desse volume adquirido ficou acumulado para o início desta temporada, já que esse trigo de menor qualidade não atende às exigências nacionais. “A alternativa foi enviar o grão de baixa qualidade ao mercado internacional a preços mais baixos, sendo escoado principalmente para países asiáticos, africanos e também para alguns vizinhos do Mercosul, que apresentam demanda para esse tipo de cereal”, explica o analista.

Nesta temporada 2016/17, foi escoado pouco menos de 1,3 milhão de toneladas, tendo esse movimento sido potencializado principalmente após o início de 2017, visto que em 2016 só foi registrada exportação em agosto. “Desde janeiro, todos os meses vêm apresentando exportações de trigo, indicando ainda estoques de trigo de baixa qualidade. Também há o trigo de boa qualidade que está indo para o mercado internacional, tendo em vista que os preços nacionais seguiram abaixo do mínimo estipulado por lei em boa parte da temporada. Assim, as vendas externas surgiram como alternativa para negócios, uma vez que a indústria nacional optava por se abastecer com trigo importado, com preços mais atrativos”.

O trigo escoado é principalmente do Rio Grande do Sul, que representa pouco menos de 88% do volume, enquanto o Paraná responde por apenas 12,11% das exportações. “Quanto ao destino desse trigo, quatro dos principais importadores do trigo brasileiro se encontram na Ásia, e somente um deles na América do Sul, a Colômbia, que não é grande produtora do grão”, nota Pinheiro. O principal destino do trigo nacional foi o Vietnã, com 25,12% das exportações, o equivalente a pouco menos de 325 mil toneladas. Em segundo lugar está a Coreia do Sul, com 19,42%, e em terceiro, as Filipinas, com 17,42%. “Dos demais países, nenhum alcançou 10% de representatividade, somando pouco mais de 490 mil toneladas importadas”.

Preços internos — Dentro desta conjuntura nacional, o Brasil encerra a temporada 2016/17 com preços levemente acima dos praticados ao longo da temporada. Pinheiro atribui a recuperação tanto ao momento de entressafra quanto ao reduzido volume de excedentes exportáveis dos fornecedores de trigo ao Brasil, que deve provocar uma redução gradual das importações brasileiras ao longo dos próximos meses. “Dessa forma, o início da temporada 2017/18 tende a apresentar um movimento de alta nas cotações, pelo menos em um primeiro momento, avaliando uma menor disponibilidade do produto, tanto no âmbito doméstico como no âmbito internacional”, analisa.

Trigo

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Contudo, o analista acredita que no longo prazo o mercado deve receber um volume de produção que até o momento tende a ficar dentro do esperado, mesmo que a área estimada tenha sido reduzida em comparação à temporada anterior. “A redução da superfície se deve, principalmente, aos desestímulos que os produtores vêm acumulando ao longo das últimas safras, seja por quebra na produtividade, seja por preços pouco atrativos. Assim, a tendência é de que os preços venham a recuar novamente, avaliando um período de ingresso de safra em um curto espaço de tempo, mesmo que esse volume não seja comercializado em sua totalidade naquele período, pois haverá disponibilidade, que deve exercer pressão sobre as cotações”, avalia.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) seguia em meados de 2017 indicando elevados volumes de estoques finais mundiais, mantendo forte pressão de oferta sobre as cotações internacionais, tendo como foco as bolsas norte-americanas. “Assim, o movimento de preços achatados nos fornecedores de trigo ao Brasil tende a se manter para a próxima temporada, trazendo como variávelchave aos preços nacionais, o câmbio, que balizará, pelas paridades de importação, a competitividade do cereal produzido no Brasil”. Contudo, Pinheiro ressalta que em julho de 2017 a cotação do dólar oscilava próxima a R$ 3,15, ficando abaixo do necessário para tornar o trigo nacional mais atrativo que o importado, que seria de pelo menos R$ 3,30.

Safra brasileira — Conforme o analista, o mercado ainda aguarda por definições na safra brasileira 2017. “Já há registro de perdas de produtividade em importantes regiões produtoras, podendo minimizar a pressão de oferta interna, caso as quebras sejam representativas ao quadro de oferta e demanda nacional, tendo em vista que a safra tem sido marcada por diversos problemas climáticos”, observava em julho de 2017. No início do plantio, as chuvas prejudicaram significativamente o andamento dos trabalhos, trazendo inclusive preocupação quanto à possibilidade de não encerrar os trabalhos dentro do período necessário. A seca e as geadas vinham afetando as lavouras, provocando danos, principalmente nas lavouras do Paraná, devido ao estágio de evolução da cultura.

De uma maneira geral, o mercado tendia a iniciar a temporada 2017/18 com possibilidade de elevações em um primeiro momento, para depois recuar com ingresso de safra mundial. “Entretanto, o clima traz grandes danos às lavouras, e possíveis quebras poderão representar um viés de alta aos preços. Por outro lado, os elevados estoques mundiais podem manter os preços sob pressão”, acrescenta o analista.