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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Tabaco

Momento animador

Tabaco

Após queda drástica da colheita em razão do clima em 2015/16, a produção deu um salto na safra seguinte. Mesmo assim, o produtor conseguiu melhor rentabilidade na relação produtividade-custo-lucro. O Brasil exporta 90% do que produz

Thais D’Avila

A produção nacional de tabaco enfrentou dificuldades na safra 2015/16 e a colheita ficou em 525 mil toneladas. A queda da produção de 25% foi provocada por problemas climáticos que atingiram as principais regiões produtoras. Conforme o assessor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Jonas Jochims, o excesso de chuva no Paraná e no Norte do Rio Grande do Sul provocou a redução da quantidade colhida. Entretanto, afirma, “a menor oferta facilitou a negociação e garantiu bons preços”. O presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (Sinditabaco), Iro Schünke, afirma que o El Niño registrado durante a safra 2015/16 provocou a quebra, pois as chuvas em excesso chegaram bem no momento em que o tabaco era colhido. “Quando há muita chuva além do normal, a produtividade cai. A qualidade é até melhor, mas o rendimento por hectare fica bem abaixo”, descreve.

Já na safra 2016/17, os números foram bem diferentes. Houve crescimento na área plantada em 30 mil hectares, e alcançou quase 300 mil hectares, e a colheita será de 730 mil toneladas. Com uma oferta tão maior, há quem pense que a rentabilidade do produtor possa ter caído, já que os preços pagos ao produtor tiveram tendência de queda por conta da maior oferta. Mas a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) faz outra conta, que leva em consideração produtividade, custos e lucro. O presidente da entidade, Benício Werner, prefere dar um alento aos produtores e mostra que a análise contábil da safra foi positiva, melhor até do que o ciclo 2015/16. “Se olharmos o dinheiro que sobra para o produtor, o valor embolsado pelo fumicultor foi bem maior do que na safra passada”, comemora.

Em 2015/16, o preço médio do quilo de tabaco ficou em torno de R$ 10, e para 2017 a perspectiva é de fechar a conta em um valor médio de R$ 8,90 a R$ 9. A principal responsável pelo ganho de rentabilidade do produtor foi a produtividade. Enquanto na safra anterior o produtor colheu, em média, 1.938 quilos por hectare, na recente, o volume colhido chegou a quase 2.400 quilos. Ao final das contas, a safra 2016/17 registrou um faturamento de R$ 6,72 bilhões, enquanto a anterior fechou em R$ 5,23 bilhões.

O trabalho da Afubra para tranquilizar o produtor que estava descontente, temendo os resultados por conta da perspectiva de menor preço por quilo, foi realizado ao longo de 2017. “Tivemos oito reuniões nos três estados produtores (Região Sul). Sempre fizemos a demonstração do resultado. Apresentávamos a diferença e quanto o produtor ia ganhar”, explica Werner. “Aos poucos, ele foi vendo quanto sobrou para ele este ano e no ano passado. Ele foi ficando mais animado porque percebeu o resultado melhor”, comemora o presidente da Afubra.

Exportações — Na safra 2015/16, acompanhando a queda na produção, as exportações também recuaram. “Foram 30 mil toneladas a menos em relação à 2014/15”, afirma o presidente do Sinditabaco. O total exportado na safra 2015/16 foi de 483 mil toneladas e o faturamento fechou em US$ 2,12 bilhões. O Sindicato realiza um levantamento no segundo semestre em todas as indústrias com a consultoria PriceWaterhouse. Por isso, até que saia o estudo, o Sinditabaco prefere não arriscar números para as exportações na safra 2016/17. As vendas externas brasileiras representam 90% da produção. Conforme Schünke, o preço internacional está muito relacionado com o mercado como um todo e depende de como é a produção em outros países, por isso, a queda na safra brasileira não mexeu tanto com os valores. Mesmo com a redução significativa na produção, o preço, segundo Schünke, não reagiu. Ficou parecido com o do ano anterior.

Já a taxa de câmbio foi mais favorável para a exportação em 2016 no primeiro semestre, quando as empresas compram a matéria–prima dos produtores. “Nesse momento em que o dólar esteve mais valorizado, facilitou porque reduziu o custo em dólar”, afirma Schünke. Segundo ele, na primeira metade do ano, o dólar superou R$ 4, depois reduziu para R$ 3,60 a R$ 3,80 e, este ano, está em R$ 3,10 a R$ 3,20.

Longe da crise política — Os produtores – ainda que relutantes em função do preço médio – comemoram os resultados financeiros da safra 2016/17. E as indústrias também têm boas perspectivas. Tudo isso à revelia das condições política e econômica do Brasil. “É claro que o interessante seria que tivéssemos mais estabilidade”, afirma Schünke. “Isso por causa da visão que os países importadores têm de nós. Nossa garantia é que somos exportadores tradicionais de produtos de qualidade. Avançamos na questão da sustentabilidade e em outros setores, por isso, a parte política não está interferindo diretamente”, explica.

O dirigente só teme que, se esta instabilidade permanecer por muito tempo, possa ter algum impacto. “Talvez afete menos do que em alguns outros setores. Mas atinge mais mesmo os investimentos, que por enquanto se mantêm”, completa, informando que uma cigarreira vai instalar nova fábrica em Santa Cruz do Sul/RS e houve aumento na geração de empregos no segmento.

A dor de cabeça do setor fumageiro – há alguns anos – tem um nome: contrabando. A venda de cigarros ilegais no País gira em torno de 35% a 40% do consumo. O contrabando afeta os produtores, a economia e a saúde. “É um cigarro que não tem controle nenhum, como temos aqui, desde a parte da lavoura, até os tratamentos e a industrialização. O cigarro contrabandeado não passa pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), pela Receita Federal, não tem nenhum controle.” A carga tributária sobre o cigarro no Brasil chega a quase 80%, enquanto no Paraguai é inferior a 20%. O cigarro paraguaio chega no mercado ilegal brasileiro pela metade do preço do produto legal, nacional.

A revisão da Resolução 4.584/2017 do Conselho Monetário Nacional mudou a política de crédito ao produtor de tabaco e deve provocar repercussões positivas já para a safra 2017/18. A resolução volta atrás em uma definição que vinha preocupando o setor. Até a publicação da nova regra, para conseguir um financiamento do Pronaf, o produtor precisava comprovar que pelo menos 20% da receita vinha de outras culturas, que não o tabaco, e esse percentual cresceria ano a ano. Para Jonas Jochims, da CNA, a nova medida demonstra outro entendimento do Governo e agrada os produtores. “Antes, o Governo queria forçar a diversificação. Mas essa diversificação precisa gerar resultados financeiros. E você não pode substituir o fumo por outra cultura que o produtor não tem conhecimento e nem as ferramentas adequadas. Era uma imposição muito radical do Governo e ela foi retirada agora. Depois de quatro safras consecutivas que vínhamos pleiteando isso, finalmente conseguimos”, comemora.