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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Ovinos/Caprinos

Ainda no campo do otimismo

Não existem estatísticas confiáveis para avaliar o tamanho e a potencialidade do mercado de carne ovina no Brasil, até porque muitos abates são clandestinos. Mas é certo que há um enorme potencial para consumo dessa carne – e, por consequência, para a produção

Jorge Correa

Avanço e expansão. As duas palvras definem o otimismo de especialistas com o momento da ovinocultura no Brasil. Para o pesquisador da área de Socioeconomia e Sistemas de Produção da Embrapa Caprinos e Ovinos, o Embrapa Pecuária Sul engenheiro agrônomo Espedito Cezário Martins, no segmento de produção é observado um aumento de 5,93% no rebanho ovino no período entre 2010 e 2015. O especialista cita também que o mercado de carne ovina no Brasil tem crescido, pois o País tem aumentando constantemente suas importações de carne ovina.

Ovinos/Caprinos

As perspectivas para os próximos 12 meses são de crescimento, na medida em que o mercado de carnes no Brasil como um todo tende a se expandir, inclusive no segmento do produto ovino. Martins admite que, nos últimos anos, a oferta de carne ovina no Brasil não tem acompanhado o mesmo ritmo de crescimento da procura. “Mas observamos uma demanda reprimida, que é suprida com a importação, principalmente do Uruguai”, ressalva.

Doutor em Economia Aplicadas da USP, Martins defende o desenvolvimento de ações que impactem todos os elos da cadeia produtiva, fazendo com que os produtores de carne ovina do Brasil conscientizem-se de que o mercado é promissor e aumentem a oferta do produto no mercado. Na sua avalição, existe mercado interno garantido e um promissor mercado externo ainda não explorado pelos produtores brasileiros. O mesmo otimismo não é adotado em relação ao mercado de lã, pois não existem demandas internas expressivas e, no mercado externo, o Brasil não tem se mostrado competitivo. Diante desse cenário, o pesquisador diz que as raças que mais se destacam no Brasil são a Santa Inês e a Dorper.

Assim como as demais cadeias agrícolas, a ovinocultura enfrenta vários desafios e necessidades, como políticas públicas desarticuladas, descumprimento da legislação que rege o abate, assessoria técnica desqualificada para o setor, dificuldade de inserção de produtores em novos mercados de abate inspecionado, elevada informalidade do mercado e falta de constância na oferta, entre outros. No Brasil, as estatísticas sobre o consumo de carne ovina são extremamente deficientes. Martins diz que a grande maioria dos abates de ovinos ainda acontece de forma clandestina. O número de frigoríficos especializados no abate de ovinos ainda é considerado muito pequeno. Esses fatores, enfatiza o pesquisador, não permitem que possam ser realizadas estimativas confiáveis sobre o tamanho real do mercado de carne ovina.

Martins revela que existem entraves que precisam ser solucionados buscando-se harmonizar as políticas para o setor. Para tanto, todos os elos da cadeia produtiva precisam engajar-se e desenvolver políticas que tenham uma parcela de contribuição de todos. “Com relação ao segmento pesquisa, a Embrapa Caprinos e Ovinos tem como compromissos a superação dos desafios científicos e tecnológicos, concentrando seus esforços na viabilização de soluções de pesquisa, desenvolvimento e inovação para a sustentabilidade da ovinocultura, paralelamente à caprinocultura”, destaca.

Seu colega do Núcleo Regional Centro-Oeste da Embrapa Caprinos e Ovinos, pesquisador Fernando Alvarenga Reis, concorda que a ovinocultura de corte tem mostrado evolução e profissionalismo na região onde atua, especialmente no Mato Grosso do Sul. “Porém, essa realidade é restrita a poucos criadores ‘perseverantes’ e que têm conseguido comercializar de maneira mais formalizada, encaminhando seus produtos, basicamente cordeiros, para abatedouros com serviço de inspeção oficial”, ressalta, observando que grande parte da produção ainda é direcionada para o mercado informal.

São números de difícil levantamento e quantificação, onde se constata a falta de estatísticas confiáveis e, acima de tudo, conclusivas. Reis confronta dados do rebanho do IBGE com os de abate do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), de 2010 a 2015 (último disponível). “Nota-se a severa diminuição no número de animais abatidos nesse período, tanto no Brasil, no Mato Grosso do Sul ou no Rio Grande do Sul, estado com maior rebanho e abate oficial. Diante desses números, somos ‘induzidos’ a pensar que a ovinocultura está sucumbindo”, ressalta Reis.

O consumo de carne ovina ainda é baixo no País, principalmente se for comparado com outras proteínas animais. Segundo a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), o consumo per capita atualmente é de cerca de 400 gramas anuais, enquanto que o brasileiro come no período em média cerca de 44 quilos de carne de frango, 38 quilos de carne bovina e 14 quilos de suínos. “Essa realidade mostra um potencial enorme para o aumento da produção e da comercialização, com a possibilidade de chegar a públicos que hoje não têm hábito de consumir esse tipo de carne. Percebe-se um aumento na demanda por carne ovina, especialmente de cordeiro, entre consumidores urbanos e em cardápios de restaurantes mais refinados”, destaca o pesquisador Marcos Borba, da Embrapa Pecuária Sul.

O especialista recorda que o Rio Grande do Sul produziu 13 milhões de cabeças de ovinos nos anos 1980 e hoje oscila entre 3,6 milhões e 4 milhões de cabeças. O Brasil se mantém estacionado em 17 milhões de cabeças, graças ao crescimento da atividade no Nordeste. “Não faltam esforços e políticas em torno de ovinos. Existe potencial, mas é preciso ter mais ‘cuidado’. Mais do que com a tecnologia”, observa. Hoje, segundo Borba, a eficiência reprodutiva dos ovinos gaúchos é de 60%. No Estado, existem pouco mais de 2 milhões de fêmeas em reprodução e cerca de 1,5 milhão de cordeiros. O potencial, segundo ele, é de 100 ovelhas para produzir 70 cordeiros. “Podemos inverter isso, mas é preciso cuidado no lado de dentro da porteira”, pondera.

Caprinos: “carne do futuro” — O mercado de carne caprina é praticamente restrito ao Nordeste, onde são criados cerca de 93% do rebanho. Segundo o pesquisador Espedito Cezário Martins, da Embrapa Caprinos e Ovinos, nas demais regiões, tal mercado ainda é muito incipiente. “No entanto, o potencial de crescimento de consumo da carne caprina é grande. Pode ser considerada uma das ‘carnes do futuro’, pois a globalização possibilita a conquista de novos nichos de mercado”, atesta.

Ele ressalta que na União Europeia a taxa de crescimento anual médio do consumo per capita do produto é substancialmente maior que as demais carnes (2,54% ao ano contra uma queda de 0,73% da carne bovina). Considera ainda relevante o consumo dos principais importadores – Estados Unidos, China, Emirados Árabes, Arábia Saudita, Barein, Kuwait e Hong Kong –, que absorvem em torno de 75% da carne caprina transacionada no mercado internacional. O pesquisador destaca, ainda, que o leite de cabra também apresenta um significativo potencial de crescimento no Brasil. “Mas não para consumo in natura, e sim na forma de derivados, como queijos finos, iogurte, doces e na indústria de cosméticos”.