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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Leite

Incerteza é a cor do momento

As cotações do litro de leite pago ao produtor estavam em média 33 centavos de real mais altas em comparação há dois anos, mas a recuperação da produção derrubou os preços de abril a julho – 36 centavos. Agora, a esperança é na recuperação da economia para incrementar o consumo

Leonardo Gottems

O ano de 2017 iniciou com ótimas perspectivas para o mercado do leite no Brasil, com os preços pagos ao produtor em franca recuperação. No primeiro semestre, o valor chegou a R$ 1,35 por litro, representando aumento de R$ 0,33 sobre o ano de 2015, para uma produção que se manteve estável em 35 milhões de litros nesse mesmo período de comparação. A valorização foi resultado de uma redução gradativa da captação de matériaprima nos últimos anos. Para se ter uma ideia, em 2016 foram recebidos 23,169 milhões de litros, o que significou uma redução de 3,66% sobre o captado em 2015 (24,049 milhões) e de 6,35% sobre 2014, quando houve o recorde de recebimento de leite no País, com 24,740 milhões de litros.

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Completando esse cenário positivo, foi registrada ainda uma redução dos custos de produção, ainda que em percentuais modestos de 8,6% no acumulado dos últimos 12 meses. Rodrigo Alvim, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) lembra que isso ocorreu em função das quedas nas cotações de milho (45% menor em relação a junho/ 2016) e farelo de soja (queda de 21% comparando-se com o mesmo período do ano passado), componentes fundamentais da ração concentrada que representa de 30% a 40% do custo da atividade leiteira.

Já para o início do segundo semestre de 2017, a situação se inverteu. E o principal fator responsável foi o aumento na oferta de leite, aponta Jorge Rubez, presidente da Associação Leite Brasil. Indicadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) sinalizam que já em junho a captação cresceu significativamente (6,81%), principalmente em função da melhoria do clima nos principais estados produtores e do barateamento dos principais alimentos para o gado leiteiro.

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Na avaliação do dirigente, grande parte do que acontece hoje é reflexo do momento que a produção nacional de leite enfrentou entre os anos de 2015 e 2016, quando a queda na produção gerou instabilidade. Em 2015, a má remuneração dos produtores e a elevação dos custos estimularam a venda de vacas para o abate, o que acarretou uma defasagem de animais e, por conseguinte, de volume de leite. Como resultado, as indústrias inflacionaram os preços nas principais bacias leiteiras do País em 2016.

Mais produção e mais importação — Para os próximos 12 meses é projetada uma retomada do crescimento na produção nacional. No curto prazo, o cenário que se desenha é o de fim das altas nos preços ofertados ao produtor, fato balizado pelas sucessivas quedas nas cotações de leite spot (comercializado entre indústrias). De abril até a segunda quinzena de julho, a desvalorização foi de R$ 0,36 por litro na média nacional. A tendência é de menor procura pela matéria-prima e queda nos preços ofertados ao produtor. Reforça essa previsão o aumento percebido na captação direta das indústrias. No acumulado até maio, o índice de captação de leite estava 3% maior que no mesmo período de 2016. Dessa forma, o preço recebido pelo litro de leite irá limitar o investimento dos produtores. A expectativa é de que o ano se encerre com alta no volume total de leite produzido.

Outro fator de pressão nos preços tem se materializado pelo crescimento nas importações de lácteos, tanto em 2016 como no primeiro semestre de 2017, de acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Leite Longa Vida (ABLV). No ano passado, foi importado 1,845 milhão de equivalente litros de leite, um espantoso aumento de 74,55% sobre 2015. Enquanto isso, nesse mesmo período de comparação foram exportados 274 milhões de equivalente litros de leite, o que representa queda de 41,7%.

Por outro lado, Jorge Rubez prevê que o crescimento da produção de leite provocará uma redução nas importações, até mesmo porque as cotações do dólar não parecem favoráveis. “Para este segundo semestre, ainda que a economia como um todo não tenha uma grande recuperação, espero uma melhoria no consumo em função principalmente do reequilíbrio nos preços dos lácteos. Com os preços apertados ao produtor, acredito que a oferta pode se reduzir e os reflexos virão no primeiro semestre do próximo ano, quando minhas previsões são de repetir o comportamento deste ano”, projeta.

Nesse sentido, Alvim destaca que, em âmbito internacional, os preços dos produtos lácteos se recuperam. Em meados de julho de 2016, tanto a Oceania como a Europa trabalhavam com preços médios de leite em pó integral entre US$ 2.100 e US$ 2.325 a tonelada. Com a redução dos estoques mundiais, os preços médios estão acima dos US$ 3.100 a tonelada. No entanto, a perspectiva é de que a produção, principalmente na União Europeia e a Nova Zelândia, aumente em 2017.

Derivados e laticínios — De acordo com Rodrigo Alvim, internamente o mercado de derivados enfrenta percalços. O preço do leite UHT segue sem muitas oscilações ao longo do ano e as empresas estão com dificuldade nas vendas em função da menor demanda. Um maior volume de leite tem sido direcionado à indústria de queijos, de forma a contornar a baixa demanda por leite UHT. Já o leite em pó integral passa por redução nas cotações devido ao aumento do estoque. A exceção é a manteiga. Como o Brasil está produzindo uma menor quantidade de leite em pó desnatado, a gordura que viria desse processo deixa de fomentar a produção de manteiga, o que resulta no aumento dos preços, em função da baixa oferta.

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A mesma análise faz o presidente do Sindilat, Alexandre Guerra, segundo o qual o Brasil vive um momento econômico incerto no mercado de laticínios. “O segundo semestre promete ser de muitas dificuldades, quando indústria e produtores terão que fazer mais com menos. Mas acredito que precisamos ser otimistas. A economia brasileira deve melhorar e, com isso, deveremos ter um incremento de consumo que, sem dúvida, trará reflexo direto na demanda por lácteos. Por outro lado, o setor lácteo brasileiro precisa urgentemente ganhar competitividade. A questão dos resultados financeiros está diretamente relacionada à necessidade de ganhar escala e produtividade de ponta a ponta do processo. Por isso, também defendemos em Brasília um projeto de desoneração fiscal que permita um maior desenvolvimento da produção. Para sermos mais competitivos, precisamos de escala e essa expansão só virá com redução da carga tributária que recai sobre o segmento”, defende.

De acordo com Guerra, um dos fatores que vem influenciando diretamente o mercado é a entrada de leite importado. Ele reconhece que fechar essa porta é algo muito complexo e, por isso, defende a importância de trabalhar com competitividade: “Para fazer frente à demanda internacional que já abocanha boa parte do mercado nacional, recentemente, uma das propostas levadas pelo Sindilat ao Ministério da Agricultura foi a tentativa de acordo comercial para exportação de leite em pó ao México. O país é um grande importador dos Estados Unidos e podem vir a se tornar um parceiro relevante do setor lácteo brasileiro”.

O dirigente sustenta ainda que é preciso mostrar aos consumidores a verdade sobre a relação entre leite e a saúde. “Atualmente, é comum se falar em intolerância à lactose e alergia à proteína do leite como se fossem a mesma coisa, ou responsabilizar o leite por qualquer problema gastrointestinal. Isso é um mito. O leite é uma das mais ricas fontes de cálcio e nutrientes e é essencial para a saúde humana. Isso não é a indústria que diz. É a própria comunidade médica. O que vemos hoje é uma febre de blogueiros e consumidores falando do leite totalmente sem base científica”.

Ele concorda, porém, que intolerância à lactose e a alergia à proteína do leite são problemas sérios e que precisam ser diagnosticados devidamente. Pensando nisso, as indústrias já têm desenvolvido produtos diferenciados para esses consumidores. É o caso do leite sem lactose, um processo industrial que retira a lactose do leite. Com relação à alergia à proteína do leite, as empresas estão estudando um novo tipo de leite que não produz essa reação. É o que chamamos de A2A2, um leite oriundo de animais de uma linhagem genética que não gera o problema.

Olhando para o futuro, é unânime a ideia de que o Brasil precisa abrir sua produção para o mundo, fabricando produtos que possam ser exportados e escoados quando o mercado interno estiver saturado. O consumidor está cada vez mais atento às questões nutricionais e buscando fórmulas mais funcionais e enriquecidas. As indústrias brasileiras têm potencial, mas precisam tornar-se competitivas. Conquistar o mercado internacional exige avanços sanitários e para isso é preciso um trabalho conjunto para vencer os desafios que ainda se impõem.