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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Hortaliças

Muito a evoluir

Segmento da horticultura, que propicia trabalho a milhares, é carente de estatísticas e também de representatividade. Uma parceria entre entidades vai mapear esse universo no Brasil

Thais D’Avila

A característica de produção em pequenas áreas, espalhadas em diferentes regiões, e o grande número de culturas de hortaliças no País faz da falta de números precisos do setor uma dificuldade para a solução de gargalos. Mais do que isso, dificulta a representatividade em diversos assuntos. O novo presidente do Instituto Brasileiro de Hortaliças (Ibrahort), Stefan Adriaan Coppelmans, que assumiu a entidade em agosto de 2017, aposta na união de esforços para ganhar espaço junto a importantes questões que envolvem políticas para o setor. “É um setor grande, que tem uma boa movimentação financeira, de empregos e de agricultura familiar. Mas sem representatividade não temos voz e estamos à mercê do que os outros acham sobre o nosso setor. Isso não é bom, pois podem sair leis que contradizem nosso trabalho”, afirma.

HORTALIÇAS

Para solucionar parte do problema, o Ibrahort, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Associação Brasileira de Comércio de Sementes e Mudas (ABCSem) contratou a empresa Markestrat para produzir o mapeamento e a quantificação de hortaliças no País. Conforme o assessor técnico da CNA, Eduardo Brandão Costa, trata-se de “um estudo completo e inovador sobre o segmento de hortaliças no Brasil”, define. “Não temos nada com o nível de detalhamento e profundidade que esse material deverá trazer sobre o setor”, revela.

A preocupação de Coppelmans sobre falta de representatividade fica mais evidente quando saem publicações na imprensa falando sobre presença de agrotóxicos em hortaliças, por exemplo. “São meia-verdades e, avaliadas por alguém que não tem entendimento claro do que acontece, acaba colocando de uma forma que pode ser malinterpretada”, lamenta. “É preciso ter voz e a sociedade deve ter onde falar com a gente. Quando um repórter precisa de uma informação geral sobre o segmento, vai falar com quem?”, acrescenta.

Ainda que não existam números precisos, há um sentimento em quem trabalha no setor. O diretor setorial da ABCSem, Alécio Schiavon, conta que o sentimento de quem produz hortaliças foi de desencanto a partir de novembro de 2016 até abril seguinte. “Os preços ao produtor, de um modo geral, estavam muito baixos. Não foram poucas as notícias de produtores descartando a produção devido à baixa remuneração”. Os principais afetados, segundo Schiavon, foram melancia, tomate, feijão-vagem e os pimentões de uma maneira geral. O descarte, conforme ele, não é um ato de protesto para mostrar que o mercado não está pagando. Mais do que isso, “é o produtor descartando na própria lavoura por não compensar colher, colocar na embalagem, na caixa e realizar o transporte”.

Gargalo e novas alternativas — Um gargalo para as hortaliças é a legislação e a normatização para o setor. “Tem vários pontos que a lei não nos vê”, afirma Coppelmans. Além da tradicional briga por mais agilidade na liberação de produtos para controle de pragas e doenças em diferentes culturas, um novo problema surge com a tendência de mais produtos embalados e processados para consumo imediato. A questão de conveniência, explica o presidente do Ibrahort, é uma demanda da sociedade, que quer mais saudabilidade associada à praticidade no consumo. Segundo ele, as indústrias nesse segmento estão crescendo muito e a legislação que regula a forma de higienizar e trabalhar o produto industrialmente, foi elaborada há décadas. “Na época, as exigências faziam sentido, mas hoje, do ponto de vista industrial, tem tecnologias muito mais eficazes que não podem ser usadas, pois a legislação não as levava em conta”, explica.

Aliás, essa tendência de produtos beneficiados e embalados, com praticidade para o consumo tem criado uma terceira via para quem vive de hortaliças e não faz parte de uma grande empresa. Antes, conforme Coppelmanss, o produtor vendia para os grandes atacados ou supermercadistas. Hoje já existem indústrias processadoras de saladas prontas, que fazem muitos contratos com os produtores. “É uma alternativa interessante, com regras e demandas diferentes, que representa constância de vendas e menor oscilação de preços. Isso transfere ao produtor uma maior estabilidade financeira e dá mais previsibilidade de ganho ao produtor, que não fica dependendo dos ‘leilões’ das Ceasas”, ressalta. Esse segmento também não possui estatísticas oficiais, mas o presidente do Ibrahort, que é do segmento industrial, revela que entre empresas parceiras o setor vinha crescendo 20% ao ano. “Nos últimos dois anos, com a crise econômica do País, o setor reduziu o crescimento, mas ainda evolui de 5% a 10% ao ano”.

Corte de verbas — Quem trabalha na pesquisa pública também sentiu o amargo gosto da crise. O chefe geral da Embrapa Hortaliças, Warley Nascimento, revela que a instituição teve um corte linear de recursos na ordem de 30% este ano. “Isso afeta os projetos de pesquisa. Este ano foi um ano quase morto, um ano triste. Se você tem uma descontinuidade, prejudica o andamento de pesquisas que iriam começar, das que já estão em fase final e em execução. No geral, um ano complicado. Afetou não só a parte quantitativa, mas qualitativa”. A unidade sofre também com a redução na mão de obra. O trabalho com hortaliças, conforme Nascimento, exige muito esforço físico, e muitos pesquisadores, técnicos e assistentes já estão com idade avançada e não podem realizar determinadas atividades.

Mesmo assim, alguns projetos vêm dando frutos importantes. Um exemplo, conforme o pesquisador, é o tomate BRS Nagai, apelidado de super-tomate. Ele tem de 18 a 20 características de resistência para determinadas doenças fúngicas, viróticas, bacterianas e de nematoides. Além disso, vem produzindo bem nas cinco regiões brasileiras, e dando bom retorno com a redução de custos ao produtor, pois exige menos defensivos. “Reduz o custo, mas também as contaminações ambientais, e produz um material de melhor qualidade para o consumidor”, descreve. Ele revela que estão sendo desenvolvidos os “irmãos do Nagai”, já que os pesquisadores sempre trabalham em resistências para novas doenças em diferentes regiões.

Outro exemplo é o tomate tipo grape – nova tendência no consumo. A unidade desenvolveu um híbrido, chamado BRS Zamir, com grande número de genes de resistência às principais doenças e com um diferencial de ter sabor e doçura intensos. “Ele é um tomate muito doce e gostoso, e mais rico em licopeno – tem quatro vezes mais do que as variedades que estão no mercado”, explica Nascimento.

Sementes piratas preocupa — O setor de sementes vem percebendo desde 2015 o crescimento do uso de sementes piratas no cultivo de hortaliças. Para Alécio Schiavon, da ABCSem, o agricultor, quando compra uma semente dessas, não sabe a procedência nem tem garantias de qualidade fisiológica, germinação e vigor. “Esse produtor não tem informação sobre a sanidade da semente e existem diversas doenças que são transmitidas por ela e podem contaminar toda a área”, alerta. Além dos problemas que a semente pirata causa ao produtor, o consumidor também pode sentir os efeitos do uso de material não certificado.

Segundo Schiavon, “o produtor faz a colheita de uma melancia, por exemplo, manda para a rede de supermercado e essa fruta pode chegar para a pessoa com uma casca mais fina, a polpa menos doce, ter mais fibras, sementes grandes e uma durabilidade pós-colheita menor”. A semente representa apenas 8% no custo de produção de hortaliças. “É uma questão de conscientização. A semente não tem um custo alto. É um valor baixo com todos os benefícios que estão envolvidos. Começar com uma semente boa é todo o segredo do negócio. Não adianta você pegar uma semente sem procedência e colocar uma irrigação de última geração. Não pode começar errado e terminar certo”, lembra Schiavon.