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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Feijão

Tranquila estabilidade

A saca de feijão-carioca que chegou a valer R$ 450 em 2016 passou a R$ 150/200 em 2017, o que caracteriza uma situação normal. A crise econômica não influencia o setor, que sofre mesmo é pela falta de organização

Leonardo Gottems

Após atingir um patamar histórico de valorização em 2016, quando os preços chegaram a bater em impressionantes R$ 450 por saca do carioca em algumas praças do interior, em 2017, o feijão voltou à estabilidade. A temporada é caracterizada pelo equilíbrio entre oferta e demanda, o que tem resultado em preços relativamente estáveis em torno de R$ 150 a R$ 200 a saca do feijão tipo comercial carioca, e próximo a R$ 200 para o feijão tipo comercial preto. A produção brasileira é estimada em Divulgação 3,348 milhões de toneladas para 2017 pelo Levantamento Sistemático da Produção Agrícola do IBGE. O número representa um aumento de 30,2% sobre os 2,572 milhões de 2016. É esperada uma produtividade média de 1.086 quilos por hectare, alta de 8,6% sobre 2016. A área plantada deve ser de 3,083 milhões de hectares, expansão de 19,8% na mesma base de comparação.

Feijão

O ranking dos principais estados produtores manteve o Paraná na liderança em 2017, com 781,1 mil toneladas, o que significa uma participação de 23,3%. Logo em seguida Minas Gerais, que produz 546,9 mil toneladas e supre 16,3% do mercado. Em um patamar menor aparecem, na sequência, Goiás (327,9 mil t), Mato Grosso (300,7 mil t), Bahia (291,9 mil t) e São Paulo (262 mil t). De acordo com Alcido Elenor Wander, pesquisador e chefe-geral da Embrapa Arroz e Feijão, a demanda por feijão é relativamente estável no País. A oferta (que é resultado da produção interna e de importações, subtraídas as exportações) é que, ao longo do tempo, tem oscilado mais. A produção no ano agrícola 2016/ 2017 tem sido normal. “A motivação para os produtores plantarem feijão é a expectativa de retorno da atividade e, também guarda relação com as demais culturas, como a soja e o milho. Como o milho está com preço baixo e a soja também em padrões de normalidade, não são esperadas grandes surpresas para o feijão, se as condições climáticas continuarem sendo favoráveis”, projeta.

O engenheiro agrônomo Fábio Aurélio Dias Martins, pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais Sul (Epamig), acrescenta que o consumo do feijão não varia tanto em função da capacidade (que se mantém em razoável estabilidade), mas principalmente em função das variações de preço. “Dessa forma, não considero que o feijão seja diretamente afetado pelas variações da economia. Uma elevação de preços aguda (situação recorrente de tempos em tempos) pode gerar sim pressão inflacionária na cesta básica”, alerta. Ele lembra que o principal tipo de feijão consumido no País é o feijão-carioca, que é produzido e consumido apenas no Brasil, e dessa forma seus preços não se comportam como o das demais commodities, uma vez que não é possível exportar o excedente e nem importar quando em períodos de escassez de oferta. Ele aponta, porém, que há um “artificialismo na composição dos preços”, já que a Bolsa de Cereais de São Paulo (Bolsinha) dita as cotações para todo o País, em uma lógica que favorece muito mais os compradores que os produtores.

Ambos especialistas convergem apontando que a atual estabilidade no mercado do feijão só poderia ser afetada por intempéries climáticas (intensidade e distribuição de chuvas, temperaturas, etc.) que poderiam afetar a safra. Em se mantendo esse cenário de normalidade, a próxima safra 2017/2018 não deve trazer grandes surpresas. “Preços de aproximadamente R$ 150 pela saca de 60 quilos de feijão-carioca são normais. Pode haver diferenças entre regiões produtoras, o que também é normal, devido aos custos logísticos de se levar a produção para centros consumidores. Já o feijão-preto pode se manter em patamares um pouco acima: entre R$ 190 e R$ 200, similares aos que já são praticados atualmente.

Feijão

Cadeia mal organizada — Questionado sobre os entraves enfrentados pelo setor, Dias Martins aponta a falta de organização da cadeia produtiva, apesar de ser uma das “mais simples do agronegócio”, além do artificialismo na formação das cotações e a dependência das cultivares do tipo carioca. Wander, da Embrapa, acrescenta a essas ameaças a variabilidade climática, que tem sido desafiadora para os produtores nos últimos anos, além de aspectos fitossanitários, que “têm tirado o sono de técnicos e produtores”. Ele menciona ainda que faltam políticas efetivas de incentivo à produção nas formas e quantidades desejáveis, bem como a oferta de mais informações sobre mercado, a fim de embasar melhor a tomada de decisão dos produtores.

Como medida para minimizar esses desafios, o chefe-geral da Embrapa Arroz e Feijão aconselha os produtores a estarem atentos aos sinais de mercado na hora de decidir o que e como plantar. Na questão dos problemas fitossanitários, orienta a acompanhar de perto o desenvolvimento das lavouras, implementando o manejo integrado de pragas para não onerar demasiadamente seu custo de produção nem colocar em risco a sua atividade. “A implementação efetiva da produção integrada do feijão é importante, uma vez que a norma técnica específica já está aprovada e publicada desde o final de 2016. Agora é partir para a implementação, o que pode contribuir para a abertura de novos mercados para o feijão, principalmente, para os grãos com apelo para exportação”, projeta Martins, visando a um futuro de longo prazo para a cultura.

O técnico da Epamig também vê na introdução de variedades com potencial para exportação, trabalhando sua aceitação no mercado interno, uma saída para buscar ao longo do tempo a substituição do monopólio do feijão-carioca. Por fim, a mensagem é de incentivo a uma maior organização entre os produtores visando possibilitar estratégias mais reais de formação do preço.