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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Açúcar e Etanol

Amargo superávit

Depois de dois anos com déficit de produção ante a demanda, a produção global de açúcar, em 2017/18, será maior que o consumo – o que é uma má notícia para as cotações. Em Ribeirão Preto/SP, referência nacional, a saca de açúcar cristal, que foi comercializada a R$ 100 no final de 2016, já estava menos de R$ 60 em julho de 2017

Fábio Rübenich
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Diz-se que uma mudança traz sempre efeitos positivos. Mas esse não é o caso do mercado internacional do açúcar. Após dois anos de déficit entre oferta e demanda, entre 2015/16 e 2016/17, tudo indica que a temporada 2017/18 — que inicia em outubro de 2017 — será de superávit. Já no início de 2017, consultorias internacionais, como a Platts Kingsman, Rabobank, entre outras, e até mesmo a Organização Internacional do Açúcar (OIA), já comentavam que a diferença entre a oferta e a demanda em favor da primeira deveria ser de pelo menos 3 milhões de toneladas em 2017/18, após um déficit de 1 milhão de toneladas na safra anterior. “É isso que está fazendo cair os preços no mercado internacional”, diz o analista de Safras & Mercado Maurício Muruci.

Açúcar

Em Nova York, os preços futuros fecharam o ano de 2016 a 18,65 centavos de dólar por libra-peso, mas foram caindo com força e de 2017, consultorias internacionais, como a Platts Kingsman, Rabobank, entre outras, e até mesmo a Organização Internacional do Açúcar (OIA), já comentavam que a diferença entre a oferta e a demanda em favor da primeira deveria ser de pelo menos 3 milhões de toneladas em 2017/18, após um déficit de 1 milhão de toneladas na safra anterior. “É isso que está fazendo cair os preços no mercado internacional”, diz o analista de Safras & Mercado Maurício Muruci.

Em Nova York, os preços futuros fecharam o ano de 2016 a 18,65 centavos de dólar por libra-peso, mas foram caindo com força e de forma constante a partir de fevereiro de 2017, estacionando próximo de 14 centavos no final do primeiro semestre, uma queda bastante expressiva de 25%. Para Muruci, o superávit está “inicialmente estimado na faixa de 3 milhões de toneladas, mas tende a ser ajustado gradativamente no decorrer do segundo semestre para até 5 milhões de toneladas, por conta da recuperação da safra da Índia e pelo avanço da safra do Brasil”.

Açúcar

Na Índia, chuvas de monção dentro da média dos últimos 50 anos proporcionarão uma recuperação expressiva para a cultura da cana no segundo maior produtor mundial de açúcar. No Brasil, líder mundial, nem mesmo as massas de ar polar que chegaram em julho/2017 trouxeram risco de geadas, e o clima na verdade foi favorável desde abril, o que tende a manter alta a qualidade industrial da cana, diz Muruci. “São basicamente esses dois fatores que indicam que o superávit global estimado para 2017/18 deve ser ajustado de 3 milhões para 5 milhões de toneladas”, aponta.

Enquanto o mercado trabalha com números conservadores, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) aposta que a sobreoferta no próximo ano será bem maior. Muruci aponta que os contratos com entrega em outubro/ 2018 do açúcar bruto estão operando perto de uma importante referência (a média móvel exponencial de 40 dias), “mas quando alcança esse nível, se depara com muitas ordens de vendas programadas, os stops de fundos e especuladores”, diz.

Outra influência negativa do momento nos futuros do açúcar é a nova política de preços de combustíveis da Petrobras. Segundo Muruci, as mudanças diárias fazem as usinas produzirem mais açúcar. “Maior volatilidade e incerteza levam as usinas a produzirem mais açúcar, aumentando a oferta, pressionando os preços da commodity e oferecendo sustentação para o etanol. Por exemplo, na segunda quinzena de junho/2017 e nas primeiras duas semanas de julho, a safra foi mais açucareira, com mix de mais de 50% destinados ao açúcar, contrastando com as características das últimas três ou quatro safras”, coloca. É por isso que o mercado futuro encontra dificuldades para superar a marca de 14,5 centavos de dólar por librapeso, que se transformou em uma resistência “natural e psicológica”. Esse ponto já foi testado outras vezes e se tornou um parâmetro, já que é próximo de 15 centavos, um número “inteiro e redondo”.

No cenário doméstico, onde a referência é a saca de 50 quilos de açúcar cristal com até 150 Icumsa, em Ribeirão Preto/SP, o viés é de baixa devido ao aumento da produção no Centro-Sul, que contrasta com a queda na moagem da cana. Dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) compilados até 15 de julho/2017 apontaram que foram processados 246,5 milhões de toneladas de cana na safra 2017/18, queda de 6% no comparativo anual. A produção de açúcar, no entanto, cresceu 2%, para 14,15 milhões de toneladas. O preço do açúcar cristal, que chegou a bater em R$ 100 por saca no final de 2016, ficou abaixo de R$ 60 em julho de 2017, uma queda de 41%. “As usinas estão muito focadas no atendimento de contratos de exportação. Há uma cota mensal. A cana que ‘sobra’ é toda direcionada para a produção de açúcar”, descreve Muruci.

Etanol com cenário incerto — Segundo Muruci, as usinas estão mais focadas no açúcar também porque o cenário do etanol é incerto. Com aumento estimado de 400% nas importações em 2017, a questão do momento do mercado é a cobrança de imposto sobre as compras, principalmente junto aos Estados Unidos. Enquanto o Governo acena para os usineiros a aplicação de uma tarifa de 17% sobre as importações, o pedido inicial era de uma taxa de até 28%. As usinas negam protecionismo, afirmando que a taxa serviria para “equiparar custos internos de produção”.

O fato é que está mais caro para as usinas do Nordeste comprarem etanol no Centro-Sul, devido ao alto custo logístico. “O etanol doméstico chega no Nordeste de caminhão, não em dutos. Com isso, vale muito mais a pena encomendar um navio”, aponta. Ultimamente, com o aumento do PIS/Cofins sobre a gasolina e uma revisão desses impostos sobre o etanol, surgiu uma luz no fim do túnel, com os usineiros talvez chegando perto de obterem o prêmio ambiental que tanto almejam. No entanto, a Unica disse que a redução da alíquota do PIS/Cofins do etanol pelo Governo se deu por conta de um erro de cálculo sobre o limite máximo permitido por lei e que não está relacionada à demanda do setor por uma política de valorização dos biocombustíveis.

A entidade ressaltou que o aumento de preço após a aplicação da alíquota não pode ultrapassar 9,25% do preço médio de venda no varejo nos últimos 12 meses, e no caso do etanol, o aumento foi de 12,5%. Por isso, para adequar a alíquota à legislação tributária, o Governo precisou rever o aumento para o etanol. No cálculo revisado, a redução será de aproximadamente R$ 0,085 para o distribuidor, enquanto a taxa anterior para o produtor não será alterada. Dessa forma, o reajuste na cadeia será de R$ 0,24 em vez de R$ 0,32, como vinha sendo aplicado. A Unica enfatizou que essa redução de alíquota não guarda nenhuma relação com uma política pública para viabilizar o consumo de combustíveis renováveis. “Se houvesse, o etanol teria ficado fora desse aumento de tributos”, disse a entidade.

Mundo — A produção mundial de açúcar em 2017/18 deverá totalizar 179,636 milhões de toneladas, crescendo 5,16% no comparativo anual, de acordo com o Usda. Na temporada 2016/17, a produção ficou em 170,814 milhões de toneladas. Conforme o Usda, o consumo total de açúcar deverá atingir 171,559 milhões de toneladas em 2017/18, contra os 171,867 milhões de toneladas estimados para 2016/17, praticamente estável. A produção prevista para 2018 é recorde, impulsionada por crescimentos no Brasil, na China, na União Europeia, na Índia e na Tailândia.

Apesar do recorde na produção, os estoques cairão 2%, para 38 milhões de toneladas, uma vez que quedas na China e no México mais do que compensam crescimento no Paquistão. Haverá, então, segundo o Usda, um superávit de oferta de 8,077 milhões de toneladas na temporada 2017/18, após déficit de 1,053 milhão de toneladas em 2016/ 17. Para o Brasil, o Usda estima a produção de 2017/18 em 39,65 milhões de toneladas (novo recorde), contra 39,150 milhões de toneladas em 2016/17, por conta de um clima favorável e maior porcentagem de cana sendo convertida em açúcar em detrimento do etanol. O Brasil permanecerá líder de produção e exportação, com embarques previstos em 28,69 milhões de toneladas, alta de 540 mil toneladas.

A produção de açúcar da Índia deve se recuperar após a pior safra dos últimos sete anos com chuvas de monção acima da média, impulsionando a produtividade dos canaviais que começarão a ser colhidos em outubro. A produção doméstica de açúcar deve aumentar pela primeira vez em três anos, para 25 milhões de toneladas, de acordo com a média de estimativas de sete traders, analistas e participantes da indústria ouvidos pela Bloomberg. Esse volume se compara com a produção de 20,3 milhões de toneladas observada em 2016/17, conforme projeção da Associação das Usinas de Açúcar da Índia, que ainda não divulgou estimativa para a temporada 2017/18.

Uma recuperação na produção da Índia irá se adicionar a um esperado superávit global de oferta em 2017/18, pressionando ainda mais as cotações futuras em Nova York, que caíram mais de 30% em 2016 e estão operando próximas dos níveis mais baixos em 16 meses. Enquanto o crescimento do consumo na Índia é estável, o Usda aponta que a demanda global deve diminuir pela primeira vez em duas décadas em meio a cobrança de impostos sobre refrigerantes, preocupações com a saúde e redução nos gastos em países em desenvolvimento. As estimativas de produção para a Índia obtidas pela Bloomberg oscilam entre 24,5 milhões e 26 milhões de toneladas. Já os estoques caíram de 7,7 milhões de toneladas para 3,4 milhões de toneladas, segundo a pesquisa.

Açúcar

Dados da Unica, compilados até 15 de julho/2017, apontaram que foram processados 246,5 milhões de toneladas de cana na safra 2017/18, queda de 6% no comparativo anual