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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Arroz

Menos área e mais preocupação

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A fraqueza das cotações (queda de 20% em um ano, e sem perspectivas de reação), em vista do incremento da produção doméstica aliado ao aumento das importações a preços agressivos, levará o País a reduzir a área do arroz em 5,2% em 2017/18. Só o Rio Grande do Sul, principal produtor, vai perder mais de 50 mil hectares

Rodrigo Ramos
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A média semestral (janeiro/ junho de 2017) de preços verificada no mercado gaúcho foi de R$ 43,17 por saca de arroz de 50 quilos, superando a de igual período de 2016 (R$ 41,62/ saca) em 3,7%. Essa elevação, no entanto, é puxada pelas cotações do Aires Mariga/Epagri primeiro bimestre (janeiro/fevereiro), período em que as cotações ainda estavam sob a regência dos fundamentos da temporada 2016/17, quando o excesso de chuva trazido pelo fenômeno El Niño resultou em quebra significativa da safra do Brasil e dos parceiros do Mercosul. Assim, no primeiro bimestre de 2017, a média ficou em R$ 49,27/ saca, superando a de igual momento de 2016 (R$ 40,43/saca) em 21,8%.

No primeiro quadrimestre da temporada 2017/18 (março/junho de 2017), o mercado recebeu o ingresso de uma safra de mais de 12 milhões de toneladas. “A concentração desse ingresso da safra nacional, potencializada pela entrada de bons volumes importados, obrigou o mercado nacional a se ajustar para os níveis de mercado internacional”, pondera o analista de Safras & Mercado Élcio Bento. Assim, a média dos três meses recuou para R$ 40,12/saca, valor 5% inferior ao verificado no mesmo momento de 2016 (R$ 42,22/saca).

Segundo Bento, é importante também olhar para o impacto cambial sobre a formação de preços. No primeiro semestre 2016, a moeda norte-americana apresentou uma cotação média de R$ 3,56. Em 2017, recuou para R$ 3,14 (-10,8%). Isso significa que, no padrão monetário norte-americano, o arroz gaúcho se elevou de US$ 11,75/saca nos seis primeiros meses de 2016 para US$ 13,59/saca em 2017 (+15,7%). “Com preços em dólar mais altos, o arroz brasileiro perde competitividade externa e o mercado doméstico se torna atrativo às importações”, lamenta.

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Esse movimento já se verifica nos números do comércio internacional. As exportações de arroz (base casca) no acumulado do primeiro quadrimestre do ano comercial (março-junho 2017) estavam em 204,221 mil toneladas, recuo de 52,9% frente às 433,159 mil toneladas embarcadas no ciclo anterior. As importações somavam 466,665 mil toneladas, elevação de 50,2% em relação ao mesmo período da temporada anterior. Com esses números, no saldo acumulado do primeiro quadrimestre da temporada 2017, as importações superam as exportações em 251,445 mil toneladas. No mesmo período do ciclo comercial anterior, o superávit era de 229,134 mil toneladas.

Temporada 2017/18: estoques baixos — Olhando-se para os fundamentos, a temporada 2017/18 iniciou com apenas 399 mil toneladas em estoques, que somados aos 12,285 milhões de toneladas estimados de produção, geram uma oferta interna de 12,684 milhões de toneladas. Na temporada passada, os estoques eram de 1,488 milhão de toneladas e a produção, de 10,535 milhões de toneladas, resultando em 12,023 milhões de toneladas de oferta nacional. “Isso mostra que os baixos volumes de estoques fazem com que, mesmo com a produção se elevando em 1,75 milhão de toneladas, a oferta nacional avance apenas 661 mil toneladas”, frisa.

Quando se analizam os impactos atuais do comércio internacional, a elevação da oferta na atual temporada ganha força. No ciclo 2016/17, o País escoou via exportação um volume 229 mil toneladas superior ao que comprou no mercado externo. Assim, a oferta interna no período foi de 11,794 milhões de toneladas. Na temporada atual, as importações são superiores às exportações em 251 mil toneladas. “Ou seja, a oferta interna se eleva para 12,935 milhões de toneladas”, pondera Élcio Bento. Com 1,141 milhão de toneladas a mais que a oferta disponibilizada no mesmo período do ano passado, o normal é que as cotações estejam em níveis inferiores no atual ciclo comercial em relação ao exterior. “A média mais alta no primeiro semestre de 2017 em relação à de 2016 só se verifica em função dos preços praticados nos últimos meses da temporada 2016/17 (janeiro/fevereiro de 2017)”, ressalta.

Mercado sem força para preços — O mercado brasileiro de arroz encerrou julho de 2017 sem dar sinais de que possui forças para engatar uma tendência de alta no curto prazo. Na média do Rio Grande do Sul, a saca do grão em casca era cotada levemente acima de R$ 40 no dia 31 de julho, queda de cerca de 20% em comparação à igual momento do ano anterior. Em junho de 2017, a cotação média do mercado gaúcho rompeu a resistência de R$ 40 a saca. “Esse rompimento foi possível depois da finalização do ingresso da safra nacional, que veio acompanhada com uma desvalorização do real em relação ao dólar e com uma forte elevação das cotações no mercado norte-americano. Essa combinação de fatores reduziu a pressão de oferta e abriu a possibilidade de colocar excedentes no mercado internacional”, explica o analista de Safras & Mercado. Porém, com o padrão monetário brasileiro voltando a ganhar espaço em relação ao dólar, a competitividade externa reduziu.

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A decisão do Governo Federal em atender ao pedido do setor produtivo e postergar os vencimentos de custeio de produtores gaúchos e catarinenses de julho e agosto para setembro e outubro, com possibilidade de nova postergação se os preços seguirem sem reação, pode dar algum combustível de alta. “Sem vencimentos imediatos, os produtores podem retardar as vendas”, explica. Para que os preços se recuperem, no entanto, é necessário que a indústria retorne ao mercado para recompor estoques. Além disso, os preços domésticos ficam limitados pela paridade de importação, ponto a partir do qual se torna interessante a aquisição de produto importado.

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Margem pequena para elevação das cotações — A fraqueza das cotações deve-se basicamente ao aumento da produção doméstica e a um maior ingresso de produto importado a preços agressivos. “A pergunta que se faz neste momento é se existe espaço para recuperações expressivas nos últimos meses desta uma elevação significativa das cotações internacionais. Na Bolsa de Chicago, o arroz em casca acumulava ganhos de 17,4% em 21 de julho em relação ao mesmo momento do ano anterior, subindo de US$ 11,46/saca para US$ 13,26/ saca. Nos três maiores exportadores globais – Índia, Tailândia e Vietnã – os ganhos no produto beneficiado são de 6,45%, 6,49% e 10,08%, respectivamente.

Convertendo-se para reais, é possível vislumbrar qual o efeito do câmbio para a competitividade do Brasil. Nesse caso, a alta em Chicago é de 13,3%; na Índia, de 2,76%; na Tailândia, de 2,73%; e no Vietnã, de 6,2%. Esses números mostram que o comportamento da moeda brasileira em relação à norte-americana reduziu, mas não anulou a melhor competitividade do arroz brasileiro em relação aos demais exportadores. Apesar disso, o saldo comercial acumulado nos primeiros quatro meses da atual temporada é de 251,4 mil toneladas (base casca).

Se, em uma situação hipotética, esse saldo fosse mantido, os estoques finais se elevariam das 399 mil toneladas do ciclo comercial 2016/17 para 935 mil toneladas no 2017/18. Em dias de consumo de 12 para 28. Apesar da recuperação, os estoques ainda continuariam baixos, considerando que, na média dos cinco anos comerciais anteriores, atenderiam 56 dias de consumo. “Isso prova que o quadro fundamental não é de folga no abastecimento, o que deixa margem para alguma recuperação de preços nos últimos meses desse ano”, prevê Bento. Essa margem, no entanto, não é muito grande diante dos níveis de paridades atuais.

Além disso, medidas como a postergação dos vencimentos de custeios, adotadas pelo Governo, podem ser um paliativo contra uma maior pressão sobre as cotações neste momento, mas não suficiente para mudar os patamares de preços significantemente. “Se tomarmos o gasto estimado pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) para produzir uma saca (R$ 44,75/ saca), a grande maioria dos produtores não conseguirá negociar a produção com valores superiores a esse custo”, lembra. “Essa é uma situação que não se verifica apenas no Rio Grande do Sul e deve desestimular os produtores no plantio da próxima safra”, completa.

Área 5,2% inferior — De acordo com o primeiro levantamento de intenção de plantio realizado por Safras & Mercado, datado de 21 de julho de 2017, a área a ser plantada com o cereal no Brasil na temporada 2017/18 deve ser de 1,875 milhão de hectares, decréscimo de 5,2% em relação à da safra anterior. Conforme o analista de Safras & Mercado, com essa área o potencial de produção brasileiro é de 11,720 milhão de toneladas, 4,3% inferior aos 12,248 milhões de toneladas da safra 2016/17. “Os preços baixos recebidos pelos produtores nos primeiros meses da comercialização da safra 2016/17, os altos custos de produção e o endividamento dos produtores foram apontados como os principais fatores que levarão a essa queda da área a ser plantada com arroz”, pondera.

Os recuos mais expressivos tendem a ocorrer em estados que cultivam o arroz sequeiro (- 9,68%). “Com dificuldade de abrir novas áreas e com os preços pouco atrativos, esse tipo de cultivo do cereal tende a perder espaço para outras culturas”, lembra Bento. Em termos absolutos, a queda da área de arroz sequeiro será de 521,10 mil para 470,65 mil hectares (-50,5 mil), com destaque para a redução de 19,3 mil hectares no Mato Grosso, 10 mil no Piauí e 8,2 mil no Maranhão.

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Na Bolsa de Chicago, o arroz em casca acumulava ganhos de 17,4% em 21 de julho em relação ao mesmo momento do ano anterior, subindo de US$ 11,46/ saca para US$ 13,26/saca

As áreas cobertas com arroz irrigado serão 3,54% menores, recuando de 1,454 milhão para 1,404 milhão de hectares (-51,6 mil hectares). “Com terras preparadas para esse cultivo, a migração para outras culturas tende a ser menor”, comenta o analista. O destaque fica por conta da retração de 50,7 mil hectares na intenção de plantio por parte dos produtores gaúchos, de 1,101 milhão de hectares para 1,050 milhão de hectares. A soja na várzea segue sendo apontada como uma alternativa. Em Santa Catarina, a estimativa aponta para uma queda de 1,6%, para 145 mil hectares. “As áreas plantadas com arroz irrigado pelos catarinenses são consolidadas e não costumam apresentar grandes oscilações”, completa Bento. O terceiro maior estado produtor de arroz irrigado, Tocantins, deve elevar a área cultivada em 2%, para 107 mil hectares.