A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Milho

Tudo encolheu. Até o ânimo

Milho

Produção e produtividade recordes e, assim, oferta elevada, depreciação das cotações, sobretudo em comparação ao ano anterior, e exportações travadas no primeiro semestre de 2017. Eis o cenário do momento do milho no Brasil, que levará à redução drástica na área 2017/18, algo superior a um quarto do terreno apenas na safra verão – e, consequentemente, produção inferior

Arno Baasch a
[email protected]

O mercado brasileiro de milho ingressou em agosto de 2017 com um quadro de oferta bastante elevado, fruto de uma produção recorde na safra 2016/17, fator que acaba trazendo depreciação Jacto às cotações, especialmente no comparativo ao mesmo período do ano passado, quando o País registrava um quadro de escassez de milho. De acordo com o analista de Safras & Mercado Paulo Molinari, diante de uma movimentação praticamente travada das exportações de milho no primeiro semestre, a queda nas cotações do cereal no Brasil acabou acontecendo de forma natural. Ela somente não é mais efetiva por conta das incertezas climáticas para o desenvolvimento da safra norte-americana 2017/18, em razão dos problemas de estiagem enfrentados em diversos estados produtores daquele país.

Molinari ressalta que a safra 2016/ 17 brasileira vem apresentando resultados surpreendentes em muitos aspectos, a começar pela área da safra de verão, que ocupou 5,295 milhões de hectares, incremento de 35,7% ante os 3,902 milhões de hectares cultivados na temporada anterior (2015/16). Esse aumento na área está relacionado aos excepcionais preços alcançados pelo cereal em 2016, fator que motivou os produtores a investir no cultivo na primeira safra. Outro ponto favorável foi a ausência de problemas climáticos no verão, apesar dos indicativos de ocorrência do fenômeno La Niña no período. “O clima surpreendeu e foi praticamente perfeito, garantindo uma produção de milho de 33,56 milhões de toneladas, volume 47,8% maior na comparação com os 22,701 milhões de toneladas colhidos no ano passado. Essa foi puxada pelo Rio Grande do Sul, seguida por Minas Gerais e Paraná”, destaca.

O volume colhido foi suficiente para atender as necessidades de consumo na primeira metade do ano, que ficaram em cerca de 30 milhões de toneladas. A produtividade média atingiu 6.325 quilos por hectares, superando em 9% o rendimento registrado na safra verão 2015/16, de 5.818 quilos por hectare. Molinari destaca que também houve uma recomposição do plantio do cereal nas Regiões Norte e Nordeste, onde a área cresceu 7,6% em relação à temporada 2015/16 e ocupou 1,661 milhão de hectares. As condições climáticas favoráveis fizeram com que a produtividade média nessas regiões tivesse um incremento de quase 100% frente aos 2.197 quilos por hectare obtidos na temporada anterior, para 4.374 quilos. “Esse cenário contribuiu para que a produção de milho nesses estados passasse de 3,393 milhões de toneladas para 7,267 milhões de toneladas”, pontua.

Safrinha em condições climáticas muito favoráveis — O analista afirma que as boas condições para a produção brasileira de milho não ficaram restritas à safra de verão e se estenderam também para a safrinha. Molinari salienta que o plantio ocorreu em uma ótima “janela”, entre os meses de janeiro e fevereiro, na maior parte das regiões produtoras. A área plantada na safrinha 2017 surpreendeu e cresceu 1,5%, alcançando 11,49 milhões de hectares, contrariando a expectativa inicial de que houvesse uma retração frente aos 11,319 milhões de hectares cultivados na segunda safra de 2016. Os grandes destaques ficaram com o Mato Grosso e o Paraná, que ampliaram as áreas plantadas em 7,7% e 6,2%, respectivamente, compensando a queda observada nos demais estados, que passaram a cultivar maiores áreas de sorgo.

O desenvolvimento da safrinha também ocorreu de forma muito satisfatória em praticamente todos os estados produtores, com ausências de geadas e bom emprego de tecnologia por parte dos produtores. As chuvas foram prolongadas até mesmo no Mato Grosso, o que garantiu condições climáticas muito favoráveis nas regiões. A exceção ficou apenas com o Leste de Goiás e em Minas Gerais, que registraram um período de 40 dias de estiagem e ataques de cigarrinha. Diante desse cenário, as produtividades da safrinha de milho vêm confirmando números recordes no Centro-Sul, superando os 6 mil quilos por hectare em quase todos os estados. A média final até agora, de acordo com o mais recente levantamento de Safras & Mercado, atinge 6.066 quilos/hectare, superando em mais de 57% o rendimento obtido na segunda safra 2016, de 3.945 quilos por hectare.

Molinari ressalta que a combinação de melhora na área plantada e a excepcional produtividade até o momento conduzem o Brasil para uma produção recorde de milho na safrinha, estimada em 69,701 milhões de toneladas, volume que supera em 56,7% os 44,659 milhões de toneladas colhidos na segunda safra de 2016. O Mato Grosso irá colher 26,974 milhões de toneladas, seguido pelo Paraná, com 15,923 milhões de toneladas.

Recordes de área, produção e produtividade — Os bons números observados na safra de verão e na safrinha encaminham uma produção recorde de milho na temporada 2016/ 17. O volume a ser colhido deve alcançar 110,528 milhões de toneladas, com um salto de 56,2% frente aos 70,752 milhões de toneladas registrados na safra 2015/ 16. A área cultivada sofreu um incremento de 10%, de 16,765 milhões para 18,458 milhões de hectares. Molinari entende que os investimentos em tecnologia empregados nesta safra e as condições de clima praticamente perfeitas contribuíram decisivamente para a colheita de uma supersafra, o que pode ser observado também no ganho de produtividade média. Esta deverá passar dos 4.220 quilos por hectare obtidos na temporada anterior para 5.988 quilos, incremento de 41,89%.

Milho

Investimentos em tecnologia empregados na safra 2016/17 e as condições de clima praticamente perfeitas contribuíram para a supersafra, com um ganho de produtividade média de 41,89% ante a safra anterior

Se por um lado a elevada produção de milho no Brasil na safra 2016/17 traz alento aos setores de proteína animal ao contribuir para uma queda nos custos de produção, por outro gera um cenário de grande incerteza no mercado com relação aos elevados volumes de estoques de passagem previstos para a próxima safra. Molinari ressalta que a oferta total de milho no mercado interno deverá ficar em 116,707 milhões de toneladas, bem além dos 77,984 milhões de toneladas disponibilizados na temporada 2015/16. Um ponto interessante é que as importações deverão ficar limitadas em 500 mil toneladas, bem diferente dos pouco mais de 3,3 milhões de toneladas adquiridos do Paraguai e da Argentina no ano passado.

consumo previsto para a temporada 2016/17 é de 96,436 milhões de toneladas, considerando uma demanda interna de 60,936 milhões de toneladas, distribuídas entre consumo humano (1,262 milhão), industrial (8,5 milhões), animal (49,992 milhões), semente/ perdas (1,182 milhão) e exportação (35,5 milhões). Na exportação, Molinari ressalta que os números de embarques no primeiro semestre de 2017 foram pouco expressivos na comparação com o mesmo período do ano passado. Levantamento de Safras & Mercado, com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), indicam que o Brasil embarcou 3,208 milhões de toneladas entre janeiro e junho, o que representa uma queda de 73,85% frente aos 12,267 milhões de toneladas exportados no primeiro semestre de 2016.

Ele lembra que um bom desempenho dos embarques é fundamental para evitar que haja um estoque final de passagem da safra 2016/17 tão elevado, estimado, até julho de 2017, de 20,271 milhões de toneladas. “O Brasil precisa esvaziar esses estoques internos. Quanto mais o Brasil atrasar as vendas na exportação, mais cedo terá problemas com tais excedentes. A meta de embarques mensal deverá ficar em no mínimo 5 milhões de toneladas para que o País consiga um bom escoamento da safra nacional até a chegada do ano comercial 2017/18”, avalia.

Comercialização inexpressiva — As vendas brasileiras de milho se mostram muito fracas em 2017. O Governo Federal até agiu no mercado criando mecanismos de apoio à comercialização visando socorrer estados que dispunham de elevados volumes, caso de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal. Os leilões de Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural e/ou Sua Cooperativa (Pepro), de Prêmio Para Escoamento de Produto (PEP) e de Contratos de Opção de Venda negociaram pouco mais de 6,7 milhões de toneladas de entre o início de maio e o encerramento de julho, mas esse volume ainda foi pouco representativo para trazer uma sustentação aos preços.

Em relação especificamente à safrinha, levantamento de Safras & Mercado aponta que a comercialização se mostra bem mais lenta em 2017 na comparação com o ano anterior. No mês de julho, foram comercializados 23,907 milhões de toneladas no Brasil, o que corresponde a 34,3% dos 69,701 milhões de toneladas previstos para serem colhidas. No mesmo período de 2016 haviam sido vendidos 28,581 milhões de toneladas, ou 64% dos 44,659 milhões de toneladas colhidos. O estado de Mato Grosso negociou 45% ou 12,138 milhões de toneladas dos 26,971 milhões de toneladas previstos a serem colhidos. Logo atrás aparecem Goiás e o Distrito Federal, com 44% ou 4,656 milhões de toneladas vendidos dos 10,583 milhões de toneladas estimados para serem colhidos.

Área no verão 2017/18: forte retração — O quadro de produção recorde registrado em 2017 também tem afetado os preços e os primeiros indicativos para a próxima safra sinalizam que pode haver uma forte retração na área cultivada com o cereal. Molinari elenca alguns indicadores que contribuem para essa tendência, entre os quais estão os seguintes: os elevados preços dos insumos para o cultivo de milho (especialmente de sementes); os altos custos para a realização do plantio; os poucos contratos a preços saudáveis para incentivar o produtor ao plantio; os elevados volumes de milho armazenados nos armazéns; o contraste com o perfil de preços da soja (que supera em quase três vezes os valores do cereal, tanto no mercado disponível quanto na safra nova); a maior liquidez nos contratos da safra nova de soja em contraste com o cereal; o menor dispêndio para a execução das lavouras de oleaginosa em relação ao cereal e o sentimento de que há poucas chances de preços altos do milho em 2018 – o que não compensaria o risco de plantio.

O analista entende que uma perda mais acentuada na produção de milho dos Estados Unidos em 2017 não será capaz de modificar o perfil de plantio no Brasil na próxima safra, uma vez que o fator cambial tem neutralizado as altas na Bolsa de Chicago. Há também o fato de o preço interno do cereal no Brasil estar péssimo até o início do segundo semestre de 2017. No que tange ao clima, a perspectiva para o verão é de uma sinalização neutra, sem a ocorrência dos fenômenos La Niña e El Niño, o que pode trazer uma incerteza adicional quanto ao regime de chuvas para a primeira safra 2017/18.

Milho

Molinari ressalta que fica difícil estipular uma cotação para o milho em 2018, pela necessidade de o Brasil ter de esvaziar seus estoques via exportação. “Sem que isso ocorra, não há chances de grandes melhorias nos preços do cereal mesmo com um corte de área. Uma boa exportação traria uma redução nos estoques de passagem e poderia estimular uma melhora no preço. No momento trabalhamos com uma expectativa média de preço de R$ 25,00 para a saca de milho, o que dependerá também do câmbio”, sinaliza. Diante desse cenário, a primeira intenção de plantio da safra de verão 2017/18 de Safras & Mercado indica que a área a ser cultivada poderá ter um declínio de 26,7% na comparação com a deste ano, ficando em 3,882 milhões de hectares. A maior retração, de 76,5%, poderia ocorrer no Mato Grosso, seguida pelo Mato Grosso do Sul, com 60,6%, e o Paraná, com 35,9%.

Os custos de produção para o cereal devem ser similares aos registrados em 2017, variando entre R$ 3 mil a R$ 4 mil por hectare. Molinari afirma, porém, que há um detalhe em aberto com relação ao plantio de verão, que leva em conta uma possível redução nos investimentos em tecnologia, por conta dos baixos preços do cereal. Esse fator fez com que a produtividade média fosse estimada em 6.255 quilos por hectare, 1,1% aquém ao registrado na safra verão 2017. A produção de milho verão poderia alcançar 24,285 milhões de toneladas, retração de 27,64% na comparação ao volume colhido neste ano. A estimativa aponta que haverá cortes na safra de milho das Regiões Norte e Nordeste. A área poderia sofrer uma retração de 18,3% frente a 2017, ficando em 1,356 milhão de hectares. Diante de uma produtividade média estimada de 4.300 quilos por hectare, aquém da obtida na safra 2016/17, a produção na região poderia chegar a 5,834 milhões de toneladas, volume 19,72% inferior ao obtido neste ano.

Milho

A primeira intenção de plantio da safra de verão 2017/18 de Safras & Mercado indica que a área poderá ter um declínio de 26,7%, para 3,882 milhões de hectares

Para a segunda safra, a estimativa de Safras é de área 11,111 milhões de hectares, que tende a ser 3,3% inferior frente a 2017. A maior retração poderia ocorrer no Paraná, de 6,9%, com 2,344 milhões de hectares; seguido por Minas Gerais, de 4,5%, e área de 520 mil hectares; e pelo Mato Grosso, de 4,2%, ocupando 4,31 milhões de hectares. A produtividade média da safrinha poderia atingir 5.733 quilos por hectare, recuo de 5,49%. Molinari estima que produção poderia atingir 63,696 milhões de toneladas, volume 8,61% inferior a 2017. O Mato Grosso lideraria a produção de segunda safra, com 23,705 milhões de toneladas. O Paraná viria em segundo lugar, com 14,067 milhões de toneladas. Logo atrás Goiás, com 10,86 milhões de toneladas.