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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Boi Gordo

 

Mercado externo no alvo

A produção de 4,901 milhões de toneladas de carne bovina no primeiro semestre de 2013 foi a maior desde 2007. Apesar da maior oferta no mercado interno, houve alta no valor da arroba ao produtor, visto o incremento das exportações de mais de 20% ante o mesmo período do ano anterior

Arno Baasch
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O Brasil encerrou os primeiros seis meses de 2013 com um crescimento de 8,5% na produção de carne bovina frente ao mesmo período do ano passado. Segundo levantamento preliminar de Safras & Mercado, o País produziu 4,901 milhões de toneladas de carne bovina, volume que supera as 4,515 milhões de toneladas registradas no período janeiro-junho de 2012. O resultado é o maior desde o primeiro semestre de 2007, quando havia produzido 4,915 milhões de toneladas. O analista de Safras & Mercado Fernando Iglesias explica que esse resultado decorre do incremento dos abates, que alcançaram 18,305 milhões de Seagro cabeças no período janeiro a junho, segundo dados preliminares, contra 16,871 milhões de cabeças do mesmo período de 2012. "O número de abates registrados até a primeira metade deste ano é o maior dos últimos cinco anos. Em 2008, o País havia abatido 18,119 milhões de cabeças", destaca.

Apenas em junho o desempenho tanto dos abates quanto da produção de carne bovina foi negativo em relação ao mesmo período de 2012. Os abates recuaram 12,1%, de 2,861 milhões de cabeças para 2,514 milhões de cabeças, enquanto a produção decresceu 12,4%, de 764,996 mil toneladas para 670,385 mil toneladas. Isso ocorreu, segundo Iglesias, porque as pastagens tiveram boas condições de desenvolvimento neste ano, o que levou o pecuarista a reter o boi gordo no pasto por mais tempo, condição que obrigou os frigoríficos a abater volumes menores.

Iglesias ressalta que o desempenho do setor foi considerado muito bom, tanto interna quanto externamente, até a primeira metade do ano. "Mesmo com a maior oferta de carne bovina no mercado interno, houve considerável alta dos preços praticados entre janeiro e junho, o que foi possível devido ao incremento das exportações, em um ano em que não ocorreram grandes estímulos à demanda interna", explica. A análise dos preços da carne bovina no mercado interno apontou um quadro de desvalorização nos primeiros meses do ano, algo que, de acordo com Iglesias, não fugiu à lógica. "Após um período de valorização ocorrido no último trimestre de 2012, era natural que os preços recuassem, até mesmo pela necessidade de uma readequação do mercado ao perfil de demanda mais discreto do primeiro bimestre", avalia.

Do segundo bimestre em diante, os preços da carne bovina começaram a subir, algo incomum para o período, pois houve menor disponibilidade de oferta de boi gordo. "Normalmente nessa época do ano a safra está em pleno andamento e há maior oferta. Neste ano, entretanto, conforme foi mencionado anteriormente, o pecuarista decidiu manter o gado por mais tempo no campo, visto que o frio menos intenso no outono garantiu a continuidade das pastagens de qualidade", afirma. No terceiro bimestre, os preços do boi seguiram em elevação, atingindo uma forte alta no final de junho, período em que a escassez de oferta se mostrou mais efetiva. "A cotação em São Paulo ficou acima dos R$ 100 por arroba", disse.

O lado negativo para o setor foi que o custo de produção esteve bem elevado durante o primeiro semestre, decorrente da inflação registrada durante todo o ano passado no segmento de commodities agrícolas. "O pecuarista trabalhou sem lucratividade até abril, mesmo tendo havido uma elevação dos preços pagos pelo boi. De maio em diante, entretanto, com a maior oferta de grãos no País, houve uma queda nos custos de produção, garantindo maior rentabilidade", disse Iglesias. Por outro lado, a perspectiva é de que no segundo semestre de 2013 o custo de produção seja inferior aos seis primeiros meses, ficando abaixo também em relação ao período julhodezembro de 2012. "Neste ano o cenário global aponta para uma boa safra de grãos, ao contrário do que foi observado em 2012, quando houve quebra da safra norteamericana, a qual resultou na inflação das commodities agrícolas", analisa.

O Brasil deve confinar 4,095 milhões de bovinos entre julho e dezembro de 2013, volume que seria recorde e representaria um crescimento de 5,3% frente a 3,89 milhões de cabeças confinadas no ano passado

Exportações — O Brasil teve um desempenho muito bom nas exportações de carne bovina no primeiro semestre, embarcando 961,079 mil toneladas, volume 21,17% superior a 793,183 mil toneladas registradas nos seis primeiros meses do ano passado. A receita obtida, conforme levantamento de Safras & Mercado com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), ficou em US$ 2,849 bilhões, 14,88% à frente dos US$ 2,48 bilhões do primeiro semestre de 2012. O preço médio atingiu US$ 4.463 por tonelada, abaixo dos US$ 4.814 do período janeiro-junho do ano passado.

Para o analista, o setor de carne bovina apresentou um resultado muito animador, superando o das principais carnes concorrentes, como a de frango e a suína. "Isso se deve a dois motivos: a recuperação gradual da economia no mundo e a forte desvalorização do real frente ao dólar a partir do segundo bimestre", afirma. Conforme Iglesias, o real desvalorizado auferiu maior competitividade para a carne bovina brasileira. Devido ao crescimento da economia brasileira, muito discreto durante o ano de 2013, a perspectiva é que a indústria alimentícia volte seu foco para o mercado externo. "A perspectiva é que as exportações permaneçam em bom nível durante o restante de 2013", prospecta.

Confinamento — Após adquirir uma média de R$ 92,42 por arroba em todo o Brasil, a maior desde o primeiro semestre de 2011, a tendência é de que o preço do boi gordo acabe recuando durante o terceiro trimestre deste ano, por conta da boa disponibilidade de oferta de gado confinado no mercado interno. Segundo estimativa de Safras & Mercado, o Brasil deve confinar 4,095 milhões de bovinos entre julho e dezembro de 2013, volume que, se confirmado, será recorde, apontando um crescimento de 5,3% frente a 3,89 milhões de cabeças confinadas em 2012. Iglesias afirma que este avanço no confinamento, não apenas nesta safra, tende a ser contínuo, uma vez que, a cada ano, a área de pastagem vai sendo reduzida, com o pecuarista arrendando suas terras para o plantio de grãos. "O custo mais baixo dos grãos nesta safra talvez seja, entretanto, o maior motivo para esta boa elevação no confinamento", avalia.

expectativa é de que o Mato Grosso do Sul mantenha a liderança no ranking de confinamento, com 1,02 milhão de cabeças, à frente de São Paulo, com 817,5 mil cabeças, e de Goiás, com 792,3 mil cabeças. "Diante deste quadro, as exportações deverão assumir um papel fundamental para manter um equilíbrio entre a oferta e a demanda nos meses de julho, agosto e setembro", pontua. No que tange ao preço do boi magro, a média de preços registrada durante o primeiro semestre foi de R$ 1.214,47, subindo 5% em relação à média de preços nos seis primeiros meses do ano passado, de R$ 1.156,72. "O preço mais alto pago foi registrado em maio, R$ 1.249.18", comenta.

Em relação ao preço do bezerro, a média de valores pagos na primeira metade de 2013 ficou em R$ 731,36, o que representa um aumento de 9,19% frente ao valor registrado entre janeiro e junho do ano passado, de R$ 669,79 por animal. "O pico de preços neste ano foi registrado em junho, de R$ 750 por cabeça", informa. Para o último trimestre, a expectativa é de que o preço da carne bovina possa ficar bem aquecido, tendo em vista que este é período de maior demanda do ano. "Se o bom desempenho da exportação for mantido, o que é possível diante da atual realidade cambial, a perspectiva é de que ocorra uma boa alta de preços nos últimos meses do ano, sobretudo em novembro. Acreditamos que neste mês possa ser registrado o maior valor do ano para a arroba do boi, em torno de R$ 105 à vista. Com isso, a tendência é de que a média final de preço da arroba, mesmo com uma queda no terceiro trimestre, ainda acabe sendo maior que a do primeiro semestre, a exemplo do que vem ocorrendo nos anos anteriores", sinaliza.

Mercado externo — A perspectiva de Safras & Mercado para o segundo semestre indica que não haverá um grande crescimento no consumo de carne bovina no mercado interno, por conta da atual conjuntura da economia brasileira, que vem apresentando um discreto desempenho durante o ano. Conforme Iglesias, o crescimento do Produto Interno Bruto não deve superar 2,7% neste ano, segundo estimativa do Banco Central. A inflação, por outro lado, já supera a marca de 6% no ano, o que indica um resultado final acima do centro da meta de 4,5% estabelecido pelo Comitê de Política Monetária (Copom). "É por isso que durante o ano houve novo aumento da taxa de juros, na tentativa de controlar a inflação, o que acaba resultando em uma queda no potencial de crescimento, afetando, diretamente, o nível de emprego, relembrando o perigoso período de 'estagflação' que assombrou o Brasil na década de 80", analisa.

Diante deste cenário, Iglesias sinaliza que o grande foco de negócios do segmento de carne bovina estará direcionado ao mercado internacional nos próximos meses, a exemplo do que já ocorreu no primeiro semestre. "No período, o percentual das exportações cresceu em patamar bem superior se comparado ao aumento da oferta disponível para a demanda interna, que foi de 5,85%".