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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Açúcar e Etanol

 

Etanol é prioridade

O volume produzido do biocombustível nesta safra teve alta expressiva de 18,77%, procura que se explica pelo aumento na gasolina de 20% para 25%. Já quanto ao açúcar haverá um aumento do excedente recorde na temporada

Fábio Rübenich
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A safra 2012/13 de cana-deaçúcar, açúcar e etanol do Centro-Sul registrou queda em quase todos os seus produtos na comparação com a temporada precedente, mas a recuperação prevista para 2013/14 está se confirmando, apesar de algumas interrupções na colheita por conta de períodos de chuva. Em 2012/13, segundo a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), a colheita total somou 532,758 Case milhões de toneladas no Centro-Sul, crescendo 8% em relação aos números de 2011/12 (493,1 milhões de toneladas). A produção de açúcar aumentou 9%, para 34,09 milhões de toneladas.

Já a geração de etanol total aumentou 4%, para 21,362 bilhões de litros, sendo que esse crescimento foi possível apenas pelo incremento de 17% na safra de etanol anidro, que é misturado à gasolina, já que na realidade a produção de etanol hidratado caiu 3,4% no ano passado, para 12,6 bilhões de litros. Os principais fatores responsáveis pelos ganhos de produtividade da cana em 2012 foram a redução da idade média dos canaviais, por conta da renovação de áreas e as condições climáticas mais favoráveis para o desenvolvimento da planta, em comparação ao panorama visto em 2011, quando houve estiagem prolongada nos meses de inverno e, ainda, registro de geadas e florescimento.

Segundo a Unica, imagens de satélite da região Centro-Sul feitas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Canasat- Inpe) indicam uma expansão de 6,5% na área de cana disponível para a colheita na safra 2013/ 2014. Além da maior área disponível para colheita, a expectativa é de um aumento significativo da produtividade agrícola. Este aumento decorre, principalmente, da redução da idade da lavoura e da melhor condição climática observada nos últimos meses, que favoreceu o crescimento da planta. O elevado índice de renovação do canavial, que atingiu 20,49% da área total, diminuiu a idade média da lavoura que está sendo colhida na safra 2013/2014.

Como reflexo desse maior índice, estima-se um aumento de 3,1% na produtividade. Esse é o chamado efeito tombamento, que relaciona a idade do canavial à produtividade agrícola média da área. Também as condições climáticas favoráveis e demais variáveis que influenciam o rendimento agrícola (incidência de florescimento, probabilidade de geada, índice de infestação de pragas e doenças, etc.) devem resultar em um crescimento adicional projetado de 4,57% na produtividade. Como resultado final, o rendimento de 74,3 toneladas de cana por hectare registrado na safra 2012/ 2013 na região Centro-Sul deverá alcançar 80 toneladas por hectare na atual safra, expressiva alta de 7,67%.

Chuvas atrapalham — O último relatório de acompanhamento de safra disponível trazia dados atualizados até a data de 15 de julho de 2013. O volume de cana moída na safra 2013/14 cresceu 31,22% na comparação com o mesmo período do ano passado, atingindo 223,822 milhões de toneladas. Já a produção de açúcar cresceu 21%, totalizando 11,3 milhões de toneladas. A produção de etanol total cresceu 46,26%, atingindo 9,393 bilhões de litros, contra 6,422 bilhões de litros no mesmo período do ano passado, enquanto a produção de anidro cresceu 77%, para 3,77 bilhões de litros, e a de hidratado aumentou 31%, atingindo 3,933 bilhões de litros. Mas, o volume de colheita de cana na primeira quinzena de julho foi de 42,66 milhões de toneladas, alta de apenas 1,1% sobre a quantidade registrada na mesma quinzena de 2012 (42,2 milhões de toneladas), reflexo das chuvas que ocasionam interrupções temporárias nos trabalhos de moagem.

nos trabalhos de moagem. Já com cerca de quatro meses de safra transcorridos no Centro-Sul, a preferência pelas usinas em relação ao etanol se torna mais evidente a cada quinzena. Na primeira metade de julho, a proporção de matéria-prima direcionada à fabricação de açúcar apresentou redução significativa, alcançando 45,43%, contra 50,24% no mesmo período da safra 2012/2013.

Apesar da estimativa oficial da Unica – elaborada no final de abril – apontar que a produção de açúcar crescerá 4,11%, a preferência pelo etanol deve fazer com que, no final das contas, a produção de açúcar fique muito parecida em termos de volume àquela obtida no ano passado. O volume produzido de etanol deverá atingir 25,37 bilhões de litros, expressiva alta de 18,77% quando comparado à produção da última safra, de 21,36 bilhões de litros. Destes 25,37 bilhões de litros, 14,17 bilhões de litros referem-se ao etanol hidratado –aumento de 12,18% em relação aos 12,63 bilhões de litros produzidos na safra anterior. O restante, 11,2 bilhões de litros, será representado pelo etanol anidro – considerável alta de 28,29% comparativamente ao volume observado no último ano.

A maior produção de etanol anidro projetada para a safra 2013/2014 se justifica pelo aumento do nível de mistura do produto na gasolina a partir de maio, quando o índice passou de 20% para 25%. O aumento do preço da gasolina no início deste ano, o maior teor de etanol anidro na gasolina e a desoneração do PIS/Cofins sobre o etanol, aliado ao superávit no mercado mundial de açúcar, tornaram a produção do biocombustível mais atrativa para o produtor. Isto explica a safra mais alcooleira esperada para esse ano.

Açúcar lá embaixo — Ao longo do primeiro semestre de 2013, as cotações internacionais do açúcar – com a referência dos contratos futuros negociados na Bolsa de Nova York – caíram mais de 15%, mas buscaram uma recuperação no final de julho, pois os investidores começaram a perceber que a safra brasileira está mais alcooleira, e também refletindo os atrasos provocados pelas chuvas. Durante alguns pregões de julho, as cotações do açúcar bruto chegaram ficar abaixo de 16 centavos de dólar por libra-peso na ICE Futures US, o que não acontecia há três anos, diante do excesso de oferta disponível em termos mundiais.

O último levantamento da Organização Internacional do Açúcar (OIA) apontou que haverá um excedente recorde na temporada 2012/ 13 do mercado mundial, que será encerrada em setembro, de cerca de 10 milhões de toneladas. A produção mundial de açúcar em 2013/14 deverá totalizar 174,853 milhões de toneladas, elevação modesta de 0,22% em comparação com o ciclo anterior, quando a safra atingira 174,468 milhões de toneladas, mas, mesmo assim, estabelecendo um recorde, de acordo com relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

Conforme o USDA, o consumo total de açúcar deverá atingir 167,347 milhões de toneladas em 2013/14, aumentando 3,744 milhões de toneladas em números absolutos, ou 2,3%, em comparação as 163,603 milhões de toneladas de 2012/13. Haverá, então, segundo o USDA, um superávit de oferta de 7,506 milhões de toneladas na temporada 2013/14. Os estoques finais do ciclo 2013/14 estão estimados em 38,227 milhões de toneladas, diminuindo 179 mil toneladas.

Os ganhos de produtividade da cana em 2012 foram consequência da redução da idade média dos canaviais visto a renovação de áreas e as condições climáticas mais favoráveis para o desenvolvimento da planta

De acordo com análise do USDA, o crescimento das produções do Brasil e da Tailândia "mais do que compensa a forte redução esperada para a Índia" em 2013/14. Os preços internacionais do açúcar bruto caíram para níveis que não eram vistos em quase três anos. Os preços, hoje, estão valendo menos da metade em relação ao pico atingido em fevereiro de 2011. Esses preços baixos deverão estimular o consumo global e as exportações, que devem crescer 4% e atingir 59 milhões de toneladas. A safra brasileira deverá crescer 1,8 milhão de toneladas em 2013/14, atingindo um volume recorde de 40,4 milhões de toneladas, resultado de um clima favorável e de adequados níveis de renovação de canaviais.

Pacotão — Em abril de 2013, o Governo Federal anunciou medidas para estimular a produção do etanol, que se somaram à elevação da adição de etanol anidro na gasolina. O setor recebeu uma desoneração da cobrança do PIS/Cofins, medida que melhora a competitividade do etanol hidratado frente à gasolina, em percentuais que Leandro Mariani Mittmann Os ganhos de produtividade da cana em 2012 foram consequência da redução da idade média dos canaviais visto a renovação de áreas e as condições climáticas mais favoráveis para o desenvolvimento da planta variam de estado para estado devido aos níveis diferentes de cobrança de ICMS e outros fatores que impactam o preço final para o consumidor, segundo avaliação da Unica.

O Governo manteve a oferta de crédito para renovação de canaviais no ProRenova com uma taxa de juros mais atrativa para os produtores, com queda estimada de 3 a 4 pontos percentuais no juro final. A medida tende a estimular a manutenção dos índices de renovação e a expansão dos canaviais registrados na última safra, que já foram significativamente superiores à média histórica do setor. O Governo voltou a oferecer uma linha de crédito para a estocagem de etanol ao longo da safra (warrantagem), garantindo estoques durante a entressafra, pelo menos na teoria. A estocagem tende a reduzir oscilações acentuadas de preço típicas de períodos de safra e entressafra.

Contudo, conforme o analista de Safras & Mercado Maurício Muruci, as usinas estão enfrentando muitas dificuldades agora no pico da safra, pois a produção é abundante. Sem espaço ou acesso aos recursos para a estocagem, as usinas não encontram outra alternativa que não a desova da oferta, o que tem reduzido os preços, principalmente do etanol hidratado, desde julho. Uma boa parte das empresas do setor sucroenergético – cerca de 30% – tem dificuldades para acesso tanto ao credito à estocagem quanto aos recursos do ProRenova, conforme dados da Unica, pois possuem níveis de endividamento elevados demais para superar as restrições impostas pelos bancos.