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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Trigo

 

Cotações recordes e firmes

Quebra da safra mundial (leia-se Rússia, Ucrânia e Cazaquistão) em mais de 40 milhões de toneladas na temporada passada e a consequente redução dos estoques mundiais explicam a melhora nos preços

Juliana Winge
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O mercado brasileiro de trigo encerrou a temporada 2012/ 13 com altas recordes nos patamares de preços. Com a previsão de ingresso de safra nova no Brasil e no Paraguai apenas na segunda quinzena de agosto e com os estoques públicos se esvaindo nos leilões da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a firmeza das cotações nas regiões produtoras deve persistir, podendo apenas ser atenuada por uma eventual Divulgação manutenção das retrações apresentadas nas cotações internacionais. "O quadro de dificuldade de abastecimento para o final da temporada anterior já não é mais novidade. Por isso, o momento é de se analisar os números que darão o norte para a formação de preços no próximo ciclo comercial", explica o analista de Safras & Mercado Elcio Bento. Uma forma de se fazer isso é comparar o cenário que deu sustentação para a atual escalada de preços com o esperado para a temporada vindoura.

O fator base para a elevação das cotações no mercado brasileiro na temporada 2012/13 foi a quebra da produção mundial, que reduziu de 697 milhões de toneladas no ano comercial 2011/12 para 656 milhões no 2012/13. O encolhimento do montante do cereal produzido ocorreu principalmente pela quebra da safra nos países da ex- URSS, de 115 milhões para 77 milhões de toneladas. Em anos de safra cheia, os grandes produtores desta região (Rússia, Ucrânia e Cazaquistão), juntos, possuem um saldo exportável superior ao dos Estados Unidos. Na outra ponta, apesar de uma redução significativa do consumo para ração animal, de 146 milhões de toneladas para 130 milhões de toneladas (diferença de 16 milhões de toneladas), o consumo industrial se elevou de 542 milhões de toneladas para 550 milhões de toneladas. O resultado é que o consumo total apresentou uma redução de apenas 8 milhões de toneladas. Com isso, e com o comércio internacional, os estoques globais de trigo recuaram de 199 milhões para 180 milhões de toneladas. A relação estoque consumo caiu de 29% para 26,5%. Tem-se nestes números a explicação, sob a ótica fundamentalista para a elevação das cotações internacionais.

O Brasil está comprando o cereal no Hemisfério Norte, que, apesar da isenção da TEC de 10%, é onerada pela Taxa de Renovação da Marinha Mercante (25% sobre o frete) e, ainda, é dificultada pela logística

A temporada 2012/13 contou com uma produção na Argentina, no Paraguai e no Uruguai de 11,9 milhões de toneladas e um consumo de 6,510 milhões (um superávit de 5,340 milhões de toneladas). O saldo exportável ficou em 6,5 milhões de toneladas, fazendo com que os estoques recuassem de 1,932 milhão de toneladas para 807 mil toneladas. "Vale lembrar que esta redução do montante exportado afeta diretamente os compradores brasileiros, destino de grande parte dos excedentes na Argentina, no Paraguai e no Uruguai", destaca o analista. Para compensar essa queda, o Brasil está comprando no Hemisfério Norte, que, apesar da isenção da Tarifa Externa Comum (TEC) de 10%, ainda é onerada pela cobrança da Taxa de Renovação da Marinha Mercante (25% sobre o frete) e é dificultada pela logística nacional.

No acumulado do ano comercial 2012/13 (entre agosto de 2012 e junho de 2013), as importações totalizam 6,338 milhões de toneladas, o que corresponde a um aumento de 17,86% em relação ao volume adquirido no mesmo momento do ano comercial passado. A principal origem é a Argentina, com 4,589 milhões de toneladas, seguida por Paraguai, com 801,838 mil toneladas; Estados Unidos, com 465,157 mil toneladas; Uruguai, com 411,664 mil; Canadá, com 69,375 mil - e 26 toneladas de outros países. O montante de farinha importada no acumulado do ano comercial atual é de 387,5 mil toneladas (equivalente grão), contra 627 mil toneladas do ano comercial anterior. Em pré-mistura, foram adquiridas 145 mil toneladas (equivalente grão) contra 91 mil da temporada anterior.

O total adquirido em grão, farinha e pré-mistura (os últimos dois em números equivalente grão) chega a 6,999 milhões de toneladas, contra 6,304 milhões do ano comercial anterior. Com os moinhos aproveitando a isenção da TEC e os preços em queda no Hemisfério Norte, a tendência é que o total comprado no exterior se aproxime da estimativa de 7,5 milhões de toneladas. Este montante, somado aos estoques iniciais de 1,503 milhão de toneladas e à produção de 4,297 milhões, gera uma oferta de 13,3 milhões. A demanda estimada é de 12,350 milhões de toneladas, sendo 10,3 milhões de consumo interno para farinha, 500 mil toneladas para ração e semente e 1,55 milhão para exportação. Estes números sugerem estoques de passagem de 950 mil toneladas ao final de julho de 2013.

No ano comercial 2012/13, o Brasil iniciou com 1,503 milhão de toneladas em estoques (público e privados). A produção, com a quebra ocorrida nas lavouras gaúchas, recuou 1,359 milhão de toneladas, para 4,297 milhões de toneladas. Deste volume, 500 mil toneladas foram destinadas para ração e semente. Foram escoadas para o mercado internacional mais 1,55 milhão de toneladas. Isso significa que para a indústria doméstica restaram apenas 2,247 milhões de toneladas da safra 2012/13, que somadas aos estoques de passagem geraram um montante de 3,75 milhões. Para atender o consumo (para farinha) de 10,3 milhões, as importações devem alcançar 7,4 milhões e, mesmo assim, os estoques finais ficarão em 850 mil, contra 1,503 milhão do ciclo anterior.

Após a entrada da safra brasileira e do Mercosul no mercado, o cereal passou a operar em ritmo moroso no País. Foi preciso que a Conab realizasse leilões de Prêmio para o Escoamento (PEP) e Pepro para que o trigo tivesse mais movimentações. A demanda, que começou boa, foi arrefecendo, devido à elevação dos preços (reflexo da alta internacional), demonstrando uma queda no interesse por parte dos agentes de mercado. A saída da Conab da ponta no mercado em 2013 ocorreu um pouco depois do que se verifica na média dos últimos anos. Em temporadas típicas, o Governo permanece comprando até meados de fevereiro, mas em 2013 o preço de mercado demorou até o fim de março para ficar acima do preço mínimo, determinando esse "tempo extra" de leilões de PEP e Pepro.

Desde o início das operações (no final de 2011) até março, foram negociados 2,204 milhões de toneladas do total de 3,355 milhões toneladas ofertas nas operações de PEP. Esse dado corresponde a 65,68%. Nos leilões de Pepro, 173 mil toneladas das 375 mil ofertadas foram negociadas, o equivalente a 46,15%. A novidade ficou por conta do anúncio de novas intervenções do Governo no mercado, desta vez com a venda dos seus estoques. Com a operação do dia 25 de julho, a Conab concluiu esta etapa de atendimento, que teve o objetivo de abastecer as indústrias moageiras que vêm sofrendo com a falta do produto em razão das adversidades climáticas. De março a julho, a Companhia colocou à venda mais de 480 mil toneladas de trigo. A partir de agosto, a estatal vai atuar para recompor seus estoques

Em 2011/12, o trigo teve preço médio de R$ 487 por tonelada no Paraná e subiu para R$ 741 em 2012/13, o que representa um ganho de 52%, enquanto no RS passou de R$ 447 para R$ 649 (+45%)

Mundo - De acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o mundo produzirá 701,099 milhões de toneladas de trigo no ciclo comercial 2013/14, superando em 45,462 milhões volume produzido no anterior. Destaque para a elevação nos países da ex-URSS em 29,878 milhões, na União Europeia em 6,709 milhões, no Oriente Médio em 5,167 milhões e nos países do Mercosul em 3,170 milhões. Esta elevação do montante produzido no planeta é suficiente para cobrir o rombo de 19,3 milhões de toneladas dos estoques de passagem e elevar a oferta global em 24,6 milhões de toneladas. Para a demanda global, o USDA projeta uma elevação de 18,4 milhões de toneladas. Com isso, os estoques finais se elevariam em 6,2 milhões. Tomando como base este números e olhando-se pela ótica fundamental, o espaço para recuo dos preços internacionais é limitado. Mesmo porque a relação estoque/consumo permanece praticamente estável, indo de 26,5% na temporada 2012/13 para 26,9% na 2013/14.

Para o Mercosul, de acordo com projeções de Safras & Mercado, os três fornecedores (Argentina, Paraguai e Uruguai) devem elevar a produção na temporada 2013/14 em 3,3 milhões de toneladas, para 15,2 milhões. Com isso, cobrem a redução dos estoques iniciais (1,125 milhão) e elevam a oferta total em 2,155 milhões. As exportações subiriam em 2,15 milhões, para 8,65 milhões de toneladas. Ainda é um volume pequeno quando comparado a 13,78 milhões exportados no ciclo 2011/12. Mesmo assim, é uma situação menos apertada que a da temporada 2012/13, quando o saldo exportável nos três países era de 6,5 milhões de toneladas e a necessidade brasileira, de 7,5 milhões. No próximo ciclo comercial (2013/ 14), o Brasil terá que adquirir 6,5 milhões no mercado internacional, abaixo do saldo exportável nos parceiros intrabloco.

No Brasil, a produção estimada é de 5,053 milhões de toneladas, com elevação de 756 mil em relação ao ano anterior. A recuperação leva em consideração uma safra cheia no País, sem eventuais quebras por intempéries climáticas. Com isso, mesmo reduzindo as importações em 1 milhão de toneladas, o País atenderia sua demanda e fecharia a temporada 2013/14 com 1,228 milhão de toneladas, contra 975 mil toneladas da anterior.