A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Açucar e Etanol

 

Ano turbulento

Idade avançada dos canaviais, estiagem e geadas prejudicaram em muito a safra na Região Centro-Sul. Em São Paulo, principal região produtora de cana, açúcar e etanol, a produtividade foi a menor dos últimos 20 anos. E o problema agora é a chuva além da conta

Fábio Rübenich - [email protected]

A safra 2011/12 de cana, açúcar e etanol do Centro- Sul registrou queda em quase todos os seus produtos na comparação com a temporada precedente, e a recuperação prevista para 2012/13 está ameaçada por adversidades climáticas. Em 2011/12, segundo a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), a colheita total da gramínea somou 493,264 milhões de toneladas, queda de mais de 11% em relação aos números de 2010/11 (557 milhões de toneladas). A produção de açúcar caiu 6,5%, para 31,3 milhões de toneladas. E a de etanol total caiu 19%, para 20,54 bilhões de litros, sendo que esse recuo foi acentuado pela diminuição de 27% na safra de etanol hidratado. A única exceção positiva da safra 2011/12 no Centro-Sul foi o etanol anidro, cuja produção aumentou 0,7%, para 7,446 bilhões de litros.

Os principais fatores responsáveis pela queda na produtividade agrícola da cana em 2011 no Centro-Sul foram a idade média avançada do canavial — principalmente em São Paulo, onde os índices de renovação são baixos — e as condições climáticas desfavoráveis para o desenvolvimento da planta. Houve estiagem prolongada nos meses de inverno nas últimas duas safras e, ainda, registro de geada e florescimento na temporada 2011/12. Segundo a Unica, a menor produtividade no ano passado também esteve relacionada com a ampliação da mecanização do plantio e da colheita em áreas não sistematizadas e com a incidência de novas doenças (como a ferrugem laranja) e o aumento do nível de infestação de algumas pragas.

Produtividade desastrosa — Em São Paulo, principal região produtora de cana, açúcar e etanol do Brasil, a produtividade agrícola foi a menor dos últimos 20 anos. Foram moídas 304,2 milhões de toneladas em 2011/12, ante as 359,5 milhões de toneladas de 2010/11, retração de 15%. A primeira estimativa da Unica para a safra 2012/13 apontou que a moagem total do Centro-Sul será de 509 milhões de toneladas, apontando para crescimento de 3,2% sobre as 493,2 milhões de toneladas de 2011/ 12. Em 20 de julho, a consultoria Safras & Mercado apresentou sua segunda sondagem para a safra 2012/ 13: para o Centro-Sul a expectativa é de uma safra de 520 milhões de toneladas, representando crescimento de 4% sobre os números da estimativa anterior, divulgados em dezembro, que apontavam uma produção de 500 milhões de toneladas.

O analista de Safras & Mercado para o setor de açúcar e etanol, Maurício Lima Muruci, destaca que o excesso de chuvas ocorridas sobre as mais importantes regiões produtoras do Centro-Sul, principalmente em maio, junho e também na primeira semana de julho, embora tenham provocado a interrupção da colheita durante vários dias, proporcionam em contrapartida um maior desenvolvimento para os canaviais. O resultado prático disso será um incremento do volume de cana disponível no final da safra, mas com menos qualidade.

Segundo o representante do escritório da Unica em Ribeirão Preto/SP, Sérgio Prado, os resultados da moagem até julho e comparações “período por período” realmente trazem elementos para suscitar uma preocupação no mercado. “Mas é preciso salientar as condições de colheita estão diferentes em 2012, em primeiro lugar em função das chuvas, e também pelo fato dos trabalhos de moagem terem iniciado mais tarde em comparação às datas de 2011. Ainda assim, temos uma estimativa de safra de cana 3% maior em 2012 para o Centro-Sul. Agora, se as chuvas se prolongarem ou se intensificarem nos próximos meses, poderemos refazer nossa projeção”, destacou.

Os prognósticos meteorológicos apontam que o segundo semestre contará com o retorno do fenômeno climático El Niño. Logo, os riscos de que os próximos meses também sejam chuvosos no Brasil são consideráveis, e as usinas poderão continuar enfrentando dificuldades para colher e processar a cana. As chuvas diminuem o teor de açúcar na cana, mas, em contrapartida, favorecem o crescimento da planta. Assim, haverá mais cana por hectare na etapa final da colheita, pois a produtividade agrícola será maior, o que compensará a queda de qualidade. “Esta moeda tem dois lados. Essa cana que recebe toda essa chuva agora se beneficiará no final da safra. Apesar de perder sacarose, ela cresce mais”, salientou Prado, que descarta, por ora, o risco de uma repetição do que ocorreu em 2009. Naquele ano, choveu praticamente durante todo o inverno, e as usinas foram forçadas a estenderem os trabalhos de colheita e de moagem até o início do ano seguinte, o que resultou também em um grande volume de cana bisada (não colhida).

Em São Paulo, foram moídas 304,2 milhões de toneladas de cana em 2011/12, ante 359,5 milhões de toneladas de 2010/11, uma retração de 15%

Açúcar em elevação — A produção mundial de açúcar em 2012/13 deverá totalizar 174,453 milhões de toneladas, elevação de 2% em comparação com o ciclo anterior, quando a safra atingira 170,967 milhões de toneladas, de acordo com o relatório semestral do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Conforme o USDA, o consumo total de açúcar deverá atingir 163,761 milhões de toneladas em 2012/13, aumentando 2,796 milhões de toneladas, enquanto que os estoques finais do ciclo 2012/13 estão estimados em 33,082 milhões de toneladas, alta de 1,471 milhão de toneladas, e as exportações em 58,326 milhões de toneladas, aumentando 507 mil toneladas. O consumo mundial de açúcar deve alcançar uma marca recorde em 2012/13, puxado principalmente pelos também recordes de demanda na Índia e na China.

De acordo com análise do USDA, a produção de açúcar está com estimativa de crescimento nos principais países. No Brasil, as usinas devem direcionar mais cana para a produção de açúcar, já que o etanol está menos lucrativo. Além disso, a produtividade dos canaviais deve ser maior em relação aos níveis de 2011/12. Na Índia, espera-se incremento na área cultivada, pois há previsão de melhor renda em relação a outras culturas, como o milho e o trigo. Nos Estados Unidos, uma área de beterraba maior será o principal fator a impulsionar a produção de açúcar, enquanto que na União Europeia a queda na produtividade da matéria-prima deve reduzir a produção de açúcar.

Segundo o USDA, o Brasil e a Tailândia serão os principais beneficiados pela queda na disponibilidade de açúcar para exportação na União Europeia. Para o Brasil, a estimativa de exportações de 2012/13 é de 25,25 milhões de toneladas, contra 24,65 milhões de toneladas em 2011/12, enquanto a Tailândia está com as exportações estimadas em 9,3 milhões de toneladas, 300 mil toneladas a mais que em 2011/12.

Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o volume das exportações totais de açúcar (bruto + refinado) caiu 33% em junho, somando 1,6 milhão de toneladas, ante as 2,5 milhões de toneladas do mesmo mês de 2011. As exportações acumuladas do primeiro semestre de 2012 atingiram 7,2 milhões de toneladas, volume 23% menor que o embarcado no período correspondente de 2011 (9,9 milhões de toneladas). As perdas da exportação de açúcar em termos de receita foram de 37% no mês de junho (US$ 881 milhões), contra o mesmo mês do ano passado (US$ 1,4 bilhão), e de 20,6% no primeiro Niels Andreas/Unica semestre de 2012 (US$ 4,3 bilhões) em relação aos primeiros seis meses de 2011 (US$ 5,4 bilhões).

Etanol apenas aditivo?— Já o gestor de riscos e diretor da Archer Consulting, empresa especializada em gestão de riscos para o agronegócio, Arnaldo Corrêa, está preocupado com a atual conjuntura do mercado de etanol brasileiro. O biocombustível vem perdendo mercado para a gasolina devido aos preços mais atrativos do combustível fóssil. Segundo Corrêa, em um verdadeiro “beco sem saída”, se não houver incentivo para a produção e a comercialização do etanol, o produto deixará de ser um combustível propriamente dito no Brasil, tornandose apenas um aditivo para a gasolina. “É evidente que estamos em um beco sem saída. Não havendo investimentos, nós certamente estamos fadados a transformar o etanol simplesmente num aditivo para a gasolina e não mais em um combustível. Ou seja, vamos produzir apenas anidro e deixar de produzir o hidratado”, destacou.

Segundo dados do Departamento de Energia dos Estados Unidos, a produção de etanol americana diminuiu 0,74% — para 796 mil barris diários — na semana encerrada em 20 de julho, na comparação com os 802 mil barris diários da semana anterior (encerrada em 13 de julho). A produção diária de etanol da semana de 20 de julho de 2012 é a menor da série histórica iniciada em junho de 2010 pela U.S Energy Information Administration, órgão ligado ao Departamento de Energia. Já os estoques de etanol dos Estados Unidos diminuíram de 19,556 milhões para 19,005 milhões de barris entre 13 e 20 de julho, queda de 2,81%. A indústria de etanol dos Estados Unidos está reduzindo a produção de etanol em resposta às condições desfavoráveis do mercado. A escalada dos preços do milho está derrubando a lucratividade das empresas.

O biocombustível etanol vem perdendo mercado para a gasolina devido aos preços mais atrativos do combustível de petróleo