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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Trigo

 

Salvo pelo Governo

Os sucessivos leilões da Conab foram os responsáveis por movimentar o mercado do trigo no primeiro semestre. Os últimos anos para os triticultores têm sido de baixa de liquidez, cotações aquém dos custos de produção e inexistência de uma política governamental de longo prazo. A esperança recente é a reação no mercado internacional visto o clima adverso em algumas regiões do mundo

Juliana Winge - [email protected]

A temporada de trigo 2011/12 começou com uma novidade que deve se manter como tendência pelo menos para a próxima temporada. O Rio Grande do Sul superou a produção do Paraná, que enfrentou geadas durante o desenvolvimento das lavouras, e colheu o recorde de 2,416 milhões de toneladas do cereal. Em 2010, o estado havia produzido 2,132 milhões, o que representa um aumento de 13,3%. O recorde anterior era da safra de 2004, quando o estado gaúcho colheu 2,395 milhões de toneladas, com uma produtividade média de 2.253 quilos por hectare. A área cultivada com o trigo no estado passou de 795.580 hectares em 2010 para 880.205 hectares em 2011, um incremento de 10,64%. Porém, o aumento da área não foi o único responsável pela elevação da produção; a produtividade também teve alta de 25,62%, chegando a 2.746 quilos. O aumento na produtividade deve-se a dois fatores: pesquisa e adoção de novas tecnologias por parte dos produtores.

O primeiro semestre de 2012 não foi de longe o que o produtor brasileiro de trigo esperava, tanto em termos de preço quanto de liquidez. Quando o ano começou, o mercado estava totalmente dependente dos leilões de Prêmio para Escoamento de Produto (PEP) e Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro) da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No mercado internacional, as baixas cotações, que oscilavam entre US$ 6,50 e US$ 7 por bushel na Bolsa de Chicago, combinadas com um dólar a R$ 1,85, facilitavam as importações de trigo do Mercosul, em detrimento do produto nacional. As ações do Governo, através dos leilões de PEP e Pepro, foram as principais responsáveis pela movimentação do mercado brasileiro da temporada 2011/12. Ao todo, foram dez leilões de ambas as modalidades, entre novembro de 2011 e março de 2012. O valor total das operações chegou a R$ 200 mil.

Nas operações de PEP, foram ofertadas 3,355 milhões de toneladas de trigo, das quais 2,204 milhões negociadas, o que representa 65,68%. O valor das operações chegou a R$ 193 mil. O estado que mais teve demanda para o produto foi o Rio Grande do Sul, que negociou 79,68% do total ofertado. O mês de janeiro apresentou maior volume de negócios, com a operação do dia 20 chegando a 98,09% de comercialização. Quando as operações se aproximaram do final, no dia 29 de março, a demanda já estava bastante reduzida, não chegando a 20% do ofertado. Nas operações de Pepro, foram negociadas 173 mil toneladas do total de 375 mil ofertadas. Este volume corresponde a 46,15% do total. O valor das operações chegou a R$ 7,098 milhões em São Paulo, o estado que teve maior comercialização, com 66,13% do volume ofertado. Janeiro também foi o mês em que houve mais negociações nesta modalidade, com as operações do dia 20 chegando a 91,87%.

A novidade do trigo da temporada 2011/12 foi o Rio Grande do Sul superando o Paraná como maior produtor, com área destinada ao cereal de quase 800 mil hectares

Sem as operações do Governo, o mercado passou a apresentar apenas negócios pontuais. Com os moinhos abastecidos e os preços desagradando produtores, o ritmo lento tomou conta do mercado. Então, a Conab voltou a trazer alguma liquidez através de leilões de venda. Estas operações se tornaram os principais negócios com trigo no Brasil, uma vez que a escassez de cereal de boa qualidade limitou também as movimentações. As últimas temporadas comerciais não agradaram em nada os produtores de trigo do Brasil. Baixa de liquidez, preços abaixo do custo de produção e falta de uma política governamental de longo prazo são apenas alguns dos problemas enfrentados pelo triticultor brasileiro nos últimos anos.

Migração no PR, reação internacional — O desânimo foi tanto que refletiu na área dedicada ao cereal no, até então, principal produtor do país, o Paraná. Em 2012 houve uma migração em massa para outras culturas de inverno, sobretudo o milho safrinha, causando uma redução de mais de 20% na área dedicada ao trigo. Por outro lado, no Rio Grande do Sul ocorreu uma leve elevação na área plantada, pois, nesse estado, os produtores não têm opção de plantar milho no inverno, por razões climáticas, e acabaram apostando no trigo como forma de amenizar as perdas causadas pela estiagem durante o verão.

Tudo indicava que a situação descrita acima se repetiria em 2012/ 13, mas, a partir do início de junho, o mercado internacional engatou uma forte trajetória de alta que parece ter força para se manter nos próximos meses. Tudo começou com rumores de que o clima não favoreceria a safra da região dos países pertencentes à antiga URSS, como Rússia, Ucrânia e Cazaquistão. Conforme o tempo foi passando, outros grandes exportadores mundiais, como a Austrália, também passaram a apresentar problemas em relação ao clima, o que levou o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) a realizar sucessivos cortes na sua estimativa de produção mundial para o próximo ano comercial. Em seu relatório de julho, estimou a safra mundial de trigo em 665,33 milhões de toneladas, abaixo da estimativa de junho, de 672,06 milhões. Os estoques finais mundiais em 2012/13 estão estimados em 182,44 milhões de toneladas, contra 185,76 milhões do mês anterior, e o consumo global, em 680,06 milhões de toneladas.

Logo que as notícias de clima desfavorável começaram a surgir, o mercado internacional, referenciado pelas bolsas norte-americanas de mercadorias, engatou um vertiginoso movimento de alta, que ocorreu justamente no período do ano em que grande parte da safra mundial ingressa no mercado. Esse movimento atípico intensificou-se recentemente com o agravamento da estiagem combinada com altas temperaturas nas principais regiões produtoras dos Estados Unidos, que vem castigando as lavouras de soja e milho. Em relação ao milho, a situação é ainda mais grave, uma vez que a cultura vem de uma temporada com baixos estoques, o que a torna mais vulnerável em relação a uma redução na produção. Como o trigo é substituto do milho na fabricação de ração animal, uma possível quebra na safra de milho nos EUA, necessariamente, elevará a demanda mundial por trigo, com necessária elevação nas cotações. No momento, o primeiro contrato de trigo na Bolsa de Chicago já rompeu a barreira dos US$ 9 por bushel, valor mais alto desde junho de 2010. Portanto, o cenário internacional aponta para uma temporada de bons preços para o trigo, o que, via paridade de importação, acabará se refletindo no mercado doméstico.

Esse cenário de alta já se reflete no mercado do Mercosul, que apresentou seguidas elevações nos seus referenciais de preços, trabalhando com valores acima dos US$ 300 em alguns portos da região. Na Argentina, no porto de Upriver, a referência de compra encontra-se em US$ 315, o que representa uma elevação mensal de 23% e anual de 3,3%. No Uruguai, a indicação de compra está em US$ 320, valor 29,3% maior do que aquele verificado há um mês e 14,3% mais alto do que se encontrava no mesmo período do ano anterior. Afora esse cenário de alta no mercado mundial, vale destacar que tivemos uma redução de cerca de 20% na área plantada no principal produtor de trigo do bloco, a Argentina, o que levará a uma redução da oferta de trigo de boa qualidade na América do Sul nos próximos meses em comparação com os anos anteriores.

Dada essa conjuntura internacional de preços firmes nos próximos meses, pode-se inferir que a temporada comercial 2012/13 será muito mais atrativa para os produtores brasileiros de trigo que eles poderiam imaginar na época em que planejaram sua produção de inverno. Aqueles que insistiram no trigo provavelmente terão um retorno em termos de liquidez e preço que, apesar de não ser aquilo que o produtor almeja, certamente será melhor do que ele vinha tendo com a cultura do trigo. Agora é torcer para que o clima continue colaborando com o desenvolvimento das plantas, efetuar um manejo adequado dos trigais e acompanhar o desenrolar da safra do Hemisfério Norte para aproveitar o momento favorável pelo qual o trigo atravessa em termos de preços.

De acordo com a estimativa do analista de Safras & Mercado Michael Fávero, a safra 2012/13 do Mercosul deve ser de 20,035 milhões de toneladas, abaixo das 22,556 milhões de toneladas produzidas em 2011/12. A área cultivada está prevista em 7,091 milhões de hectares, contra 7,775 milhões de hectares da temporada anterior. O consumo do bloco está previsto em 16,942 milhões de toneladas, praticamente estável em relação ao ano anterior. As importações devem passar de 6,6 milhões de toneladas em 2011/12 para 6,9 milhões de toneladas em 2012/13. As exportações devem cair para 8,88 milhões de toneladas. Os estoques finais do Mercosul estão estimados em 2,695 milhões de toneladas, contra 2,966 milhões de toneladas em 2011/12. Tanto a Argentina quanto o Brasil devem apresentar redução da área cultivada na temporada 2012/13. Na Argentina, a área deve cair de 4,6 milhões de hectares para 4,048 milhões de hectares. No Brasil, passar de 2,225 milhões de hectares para 2,133 milhões de hectares.

As cotações internacionais começaram a reagir com o anúncio de quebras causadas pelo clima em países como Rússia, Ucrânia, Cazaquistão, Austrália e Estados Unidos