Ipea confirma que câmbio e pandemia causaram elevação dos preços agrícolas

O câmbio e a pandemia são os fatores que mais influenciaram os preços dos produtos agropecuários no Brasil, de acordo com análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no primeiro trimestre deste ano. A desvalorização do real diante do dólar, combinada com a demanda externa e o movimento geral de aumento das cotações internacionais, mantiveram as commodities em alta no período, mas também pressionaram os custos das cadeias das proteínas animais.

Por outro lado, a intensificação das medidas restritivas nos horários de funcionamento do food service de janeiro a março, com agravamento da crise sanitária no país, reduziram a demanda interna por alguns alimentos, que ficaram mais baratos na comparação com o fim de 2020.

É o caso de arroz, leite, carnes suína e de frango e algumas frutas e hortaliças. Restrições de disponibilidade de produtos no mercado doméstico devem continuar a impulsionar os preços do milho, do café, do etanol, dos bovinos e dos ovos nos próximos três meses, analisou o instituto.

Mesmo com quedas nas cotações de alguns itens em relação ao fim do ano passado, todos os produtos agropecuários analisados pelo Ipea apresentam alta de preços na comparação com o primeiro trimestre de 2020. O destaque vai para os grãos, que alcançaram elevações superiores a 50%, e seus impactos como insumos sobre os custos de produção da pecuária. O indicativo reforça ao cenário de mudança de patamar das commodities, como tem comentado a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que prevê uma estabilização, mas não retorno aos índices pré-pandemia.

No caso da soja, a cotação subiu 94,2% entre o primeiro trimestre de 2020 e 2021, mas apenas 4,7% em relação ao período de outubro a dezembro do ano passado. De acordo com o Ipea, o aumento da produção da oleaginosa é fundamental para a definição do nível de estoque desde o ano passado e contribuiu “para um melhor ajuste do quadro de oferta e demanda nacional em 2021”. Com estimativa de produção de 136 milhões de toneladas e exportação de 85,6 milhões, o estoque inicial e final desta safra no Brasil deve ficar em torno de 20,7 milhões.

“Mesmo com produção de soja recorde no Brasil, a demanda internacional aquecida, que favorece as exportações americanas e brasileiras, e as incertezas sobre a produção argentina devem manter os preços em patamar elevado no Brasil”, diz a Nota de Conjuntura Mercados e Preços Agropecuários publicada hoje. O instituto considera que não há espaço para quedas importantes nas cotações da oleaginosa.

A alta do milho, que atingiu maior valor da história do Indicador Esalq/BM&FBovespa em março, é atrelada à não disposição dos vendedores em negociar os preços diante dos baixos estoques no primeiro semestre e ao atraso no plantio da segunda safra. As cotações de janeiro a março deste ano ficaram 61,7% maiores que no mesmo período de 2020.

Incertezas climáticas para a colheita das lavouras que estão implantadas devem manter a valorização do cereal, que deve terminar o ano com estoque maior, de 13 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que participa da publicação.

Vilão da inflação

Vilão das prateleiras no ano passado, o arroz começou o ano com preços 76,5% maiores que em 2020, mas 13,6% abaixo dos registrados no último trimestre do ano passado. Com vendas aquém do esperado nos primeiros meses do ano, a demanda pelo cereal pode aumentar no segundo trimestre, diz o Ipea, mas a existência de estoques no atacado e varejo pode limitar esse aumento da procura.

Listado em programas de segurança alimentar de países do Oriente Médio desde o ano passado, quando houve o “boom” nos preços, o arroz pode reviver este cenário no mercado mundial. “A nova alta observada no mesmo período em 2021 deve estar refletindo a reposição dos estoques e certa ansiedade do mercado pelo papel estratégico do arroz na segurança alimentar”, relata o Ipea.

A publicação também faz alertas para os mercados de proteína animal. No caso do boi gordo, diz o instituto, “o preço elevado da arroba não significa alta rentabilidade no campo”. Segundo o Ipea, o encarecimento dos insumos pecuários, como os animais de reposição e os grãos, “pode limitar e até mesmo comprometer a margem do produtor”. A margem também é apertada para os frigoríficos que trabalham com o mercado doméstico.

“Para buscar uma margem positiva, os pecuaristas precisam, além de avaliar com cautela o movimento dos valores dos insumos, usar de modo eficaz ferramentas de gestão de seus custos de produção”, diz a nota.

A limitação do funcionamento de bares e restaurantes e as medidas de isolamento social voltaram a impactar a venda da carne de frango. O preço da carne suína caiu 17,5% em relação ao último trimestre de 2020, em função da menor demanda doméstica.

O enfraquecimento do consumo foi o principal fator que pressionou o preço do leite no campo, diz o Ipea, devido à queda na renda real de muitas famílias e à incerteza quanto às medidas de isolamento social. “A queda no consumo, em especial em bares e restaurantes em razão da pandemia, aumentou a pressão dos canais de distribuição para obter preços mais baixos nas negociações de derivados junto às indústrias de laticínios”. Mesmo com alta de 42,5% em relação ao período de janeiro a março de 2020, os preços dos lácteos caíram 6,6% na comparação com o último trimestre do ano passado.

Data: 30/04/2021
Fonte: Valor Econômico

Últimas notícias