Reportagem de Capa

Lavoura protegida com PRECISÃO

Cada vez mais presentes nas diversas operações realizadas nas propriedades, as ferramentas digitais são importantes auxiliares na busca de rentabilidade e sustentabilidade da produção. Tecnologias inteligentes facilitam a tomada de decisão e indicam o melhor momento e o local adequado para a aplicação de insumos, itens de grande impacto nos custos da lavoura. E, no momento decisivo de prevenir ou combater os inimigos da produtividade, as experiências têm comprovado que a maior precisão favorece a economia de recursos, a redução de impactos ambientais e os resultados acima da média

Denise Saueressig
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Reconhecido pela fartura de recursos ambientais e pelo arrojo de seus produtores, o Brasil agrícola também é cenário de uma revolução tecnológica que ajuda a sustentar as posições de liderança do País em diferentes cadeias produtivas. As ferramentas digitais foram incorporadas com velocidade impressionante no campo e conferem uma precisão essencial em direção à rentabilidade e à sustentabilidade do negócio.

Uma pesquisa realizada neste ano pela Embrapa, pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelou indicadores interessantes sobre o uso dessas inovações. Foram ouvidos 750 participantes, entre produtores, empresas e prestadores de serviços. Dos 504 agricultores entrevistados em todas as regiões, 84% afirmaram utilizar pelo menos uma tecnologia digital no processo produtivo. A curiosidade por mais informações sobre essas ferramentas foi manifestada por 95% do total.

Entre os produtores que declararam o uso de ferramentas digitais, 70,4% utilizam a internet para atividades gerais na propriedade. A adoção de redes como WhatsApp e Facebook para comercialização foi indicada por 57,5%. Outros 22,2% usam aplicativos ou programas para a gestão da fazenda; 20,4% contam com o auxílio de GPS; 17,5% têm como recursos imagens de satélite, avião ou drone; e 16,3% têm sensores instalados no campo.

Existe um grande potencial para a ampliação do uso de drones na agropecuária brasileira, destaca o pesquisador Lúcio André de Castro Jorge, da Embrapa Instrumentação. E essa projeção é ainda mais relevante se forem considerados os equipamentos para a aplicação de defensivos. A estimativa é de que apenas 20% dos drones em uso no campo sejam utilizados para pulverização e controle biológico, sendo que a maior parte dessas ferramentas presta apoio a atividades de monitoramento. “Na pulverização, o processo é mais recente. Para se ter uma ideia, a China tem mais de 20 mil drones em utilização para esse tipo de operação. No Brasil, é possível estimar o potencial de 180 mil equipamentos apenas para pulverização. Nos próximos dois anos, acredito que chegaremos a 30 mil unidades”, cita.

Soluções complementares

A projeção do especialista está ancorada na demanda manifestada pelas empresas que atuam no setor e pelas possibilidades de utilização da ferramenta. “O drone ajuda a chegar a locais de difícil acesso em determinadas lavouras, como é o caso do café, por exemplo. Há situações que são complicadas, inclusive para operadores de costais. A gota despejada pelo drone normalmente é ultrapequena, tem menos água, a calda é mais concentrada. O equipamento voa bem próximo à copa das plantas, em geral, entre dois e três metros, um conjunto de fatores que diminui a ocorrência de deriva e, consequentemente, o impacto ambiental”, detalha Jorge.

Na opinião do pesquisador, o drone deve aparecer, cada vez mais, como um complemento às tradicionais práticas de pulverização, inclusive em áreas planas de grandes culturas. No algodão, por exemplo, os resultados são positivos no manejo de aplicação variável de regulador de crescimento.

Uma das dificuldades para a maior adoção entre os produtores é o valor do investimento. Enquanto equipamentos de monitoramento podem ser encontrados com preços abaixo de R$ 10 mil, um drone específico para a pulverização custa em torno de R$ 200 mil. “Ainda é caro, mas a tendência é que fique mais barato nos próximos anos com a maior atuação de empresas nacionais. Ao mesmo tempo, dependendo da cultura e do tamanho da propriedade, é um investimento que se paga em uma safra de operação”, constata Jorge.

A Embrapa vem testando, inclusive, o uso da chamada inteligência de “enxame” em áreas experimentais. A demanda é grande pela tecnologia, especialmente pela possibilidade do trabalho com equipamentos menores, com capacidade de até 20 litros. A legislação ainda precisa ser adaptada para este tipo de uso, e vem sendo debatida na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) a liberação para alguns casos, como a pulverização. Até julho do ano passado, a Anac contabilizava quase 80 mil drones registrados para os mais diversos usos. Agora, o número praticamente dobrou. O mercado mundial, até 2020, é avaliado em US$ 127 bilhões, sendo que cerca de US$ 2 bilhões são representados pelo Brasil. A agricultura responde por 26% da aplicação desses equipamentos. “Hoje, é comum, especialmente nas fazendas médias e grandes, o produtor ter um drone, nem que seja só para inspecionar sua área. Pequenos e médios também têm a oportunidade de acesso à ferramenta por meio de empresas prestadoras de serviços e cooperativas”, afirma Jorge. Um dos desafios da tecnologia, acrescenta o especialista, é a necessidade de treinamento para a interpretação e a utilização adequada das informações fornecidas pelos equipamentos. “A tomada de decisão demanda maior conhecimento. E, nesse caso, surgem as oportunidades para as startups e iniciativas de desenvolvimento de softwares que possam auxiliar nesse processo”, conclui.

Assistente do MIP

Experimento realizado por três unidades da Embrapa – Soja, Meio Ambiente e Informática Agropecuária – em parceria com a cooperativa Cocamar comprovou que as tecnologias digitais aumentam a eficácia do manejo integrado de pragas (MIP). Na safra 2019/2020, em lavouras de soja no Paraná, foram utilizadas geotecnologias para racionalizar a aplicação de inseticidas no controle de percevejos. O levantamento georreferenciado da praga foi feito por meio do Agrotag, um aplicativo desenvolvido pela Embrapa.

A conjugação de conhecimentos digitais e agronômicos é utilizada para criar mapas de distribuição espacial de percevejos e orientar os pulverizadores para a aplicação apenas em áreas indicadas. A pesquisa revelou uma redução de até 45% no uso de defensivos quando o MIP é associado à aplicação localizada. Quando apenas o MIP é utilizado, a diminuição no emprego de inseticidas é de 33%, sendo que os dois números são relativos à comparação com um sistema tradicional, de uso em área total.

Desafios para a adoção de tecnologias

O valor de equipamentos, máquinas e aplicativos é o principal gargalo para a adoção de tecnologias digitais, na opinião de 67,1% dos produtores que participaram da pesquisa realizada de forma virtual entre abril e junho deste ano pela Embrapa, pelo Sebrae e pelo Inpe. Problemas ou falta de acesso à internet foram apontados por 47,8% dos entrevistados; 44% ainda indicaram o valor para a contratação de prestadores de serviços especializados; e 40,9% revelaram a dificuldade em saber quais tecnologias são mais apropriadas. Quando perguntados sobre as principais aplicações das ferramentas digitais, os produtores citaram: 66,1% usam para obter informações e planejar a atividade; 43,3% aplicam na gestão da propriedade; 40,5% utilizam para a compra de insumos e venda da produção; 32,7% fazem o mapeamento e planejam o uso da terra; e 30,2% se informam sobre os riscos climáticos.

O líder do projeto, pesquisador Samuel Roggia, da Embrapa Soja, revela que, além da economia com os insumos, o manejo associado revelou maior qualidade na colheita, com menos grãos picados por percevejos. De acordo com o especialista, como o levantamento de pragas ainda é baseado no pano de batida, os ganhos econômicos são pequenos, pois a demanda por mão de obra é considerável. “No entanto, com a modernização dos métodos de amostragem, espera-se obter ganhos econômicos ainda mais expressivos. A aplicação do inseticida onde é necessário e a manutenção das áreas com nível de praga abaixo do nível de controle, sem aplicação, também contribuem para a preservação dos agentes de controle biológico nesses locais, o que pode favorecer a manutenção das pragas em níveis mais equilibrados, reduzindo os riscos para a lavoura e a demanda pelo uso de inseticidas e os riscos à saúde humana e ao meio ambiente associados a estes”, argumenta Roggia.

Manejo além da média

Promover ações que auxiliem os produtores na adesão às ferramentas digitais para uma melhor gestão das fazendas faz parte do projeto Propriedade do Futuro, lançado neste ano pela Cocamar Máquinas em conjunto com a equipe técnica da cooperativa. Segundo o gerente de Agricultura de Precisão da Cocamar Máquinas, Elizeu Vicente dos Santos, 370 agricultores que integram a iniciativa realizam alguma intervenção baseada em dados nas suas propriedades. “Quase a totalidade trabalha com correção de solo, o que é natural, já que existem mais soluções disponíveis no mercado para este manejo”, constata.

Um dos objetivos, para os próximos anos, é justamente avançar na aplicação localizada de defensivos, que respondem por cerca de 20% dos custos nas lavouras no Paraná. “Os produtores têm cada vez mais interesse em sair do processo de tratar o todo pela média, que, muitas vezes, significa aplicar insumos de mais em locais que não respondem ao manejo e insumos de menos em locais que podem responder mais. Ele faz as contas e percebe que vale a pena atentar para essa variabilidade natural que existe no talhão”, ressalta Santos. “Um dos produtores que trabalha conosco investiu R$ 400 mil na compra de equipamentos de agricultura digital. Em uma área de mil hectares, já na primeira safra, ele pode conseguir duas a três sacas a mais por hectare, um número muito mais significativo do que se ele fosse investir o mesmo valor na aquisição de terras”, complementa.

O produtor Anderson Fabrício Maestrello, de Cruzeiro do Sul, no Norte do estado, espera iniciar a aplicação localizada de defensivos na safra 2021/2022. O maquinário já está equipado para esse tipo de processo e faz parte dos investimentos que ele tem feito em agricultura de precisão nos últimos anos. “Já venho trabalhando com práticas como correção e estruturação de solo e adequação de cultivares. A agricultura de precisão chega para agregar, para que eu possa buscar o aumento da produção na mesma área”, relata Maestrello, que cultiva grãos em cerca de 850 hectares entre terras próprias e arrendadas no Paraná e em São Paulo.

Na safra que está sendo plantada agora, o produtor realizou mapeamento da condutividade elétrica do solo e dividiu a lavoura em zonas de manejo para adequar o volume de calcário a ser aplicado. O plantio também será com taxa variável de aplicação de fertilizantes. “Na colheita, teremos o mapa de produção e, assim, com dados na mão, vamos aprimorando os processos”, resume. Na última safra, a produtividade média da soja ficou em torno de 53 sacas por hectare, número que Maestrello esperava ser melhor, não fosse a falta de chuva. Agora, com a ajuda da tecnologia – e do clima, claro –, ele projeta um incremento entre 15% e 20% no rendimento das lavouras.

Prescrição detalhada

A equipe técnica da SLC Agrícola, uma das gigantes do agro brasileiro, colaborou com o estudo da Embrapa/ Cocamar fornecendo informações baseadas nos resultados obtidos nas 16 fazendas da empresa em seis estados. No manejo do controle sanitário, uma das tecnologias é a aplicação localizada, em que técnicos vão a campo equipados com aplicativos instalados em smartphones ou tablets. O GPS do próprio dispositivo permite o georreferenciamento de cada ponto percorrido. Assim, ao final de um dia de trabalho, o técnico terá gerado um mapa de calor que indica a presença de determinada praga

Com esses dados, o agrônomo define como será feita a aplicação localizada e elabora a prescrição com o auxílio de dois softwares. “Assim, é gerada uma recomendação especial por meio de um arquivo enviado para a máquina. Conseguimos informar onde o pulverizador deve aplicar e onde não precisa. É um processo consolidado que utilizamos em área total há dois anos, especialmente para o controle de pragas”, informa o coordenador de Agricultura Digital da SLC Agrícola, Ronei Sana.

A aplicação localizada também pode ser realizada por meio da utilização de imagens de satélites fornecidas por duas plataformas prestadoras de serviço. Nesse caso, existem algumas restrições quando há muitas nuvens ou em épocas de chuva. “Recebemos as imagens e conseguimos perceber algumas questões. O técnico vai a campo, identifica o problema e a sua possível correção. Da mesma forma, é gerado um arquivo que será enviado para a máquina”, detalha Sana, lembrando que a técnica é bastante utilizada para aplicação de regulador de crescimento, maturador e desfolhante na cultura do algodão.

Outra frente de trabalho empregada pela SLC é a aplicação seletiva, tecnologia em que sensores instalados nos pulverizadores são capazes de escanear a lavoura e mostrar, em tempo real, a presença de uma erva daninha. Também em tempo real, a máquina realiza a aplicação do herbicida apenas onde o produto é necessário, já que o sensor é capaz de diferenciar a soja de uma planta invasora.

Em algumas situações, os sensores são substituídos por drones que sobrevoam a área e também geram um mapa de ocorrência de daninhas que, posteriormente, é enviado ao pulverizador. “Nesse caso, os desafios ainda são o custo e o processo mais complexo. Temos feito contratações via demanda. No ano passado, utilizamos os serviços de terceiros em 20 mil hectares”, descreve Sana. Atualmente, todas as fazendas da empresa também contam com um drone de menor alcance, para trabalhos de inspeção.

Aumento de eficiência

Na safra 2019/2020, a SLC realizou mais de 8 mil horas de treinamento apenas em agricultura digital para mais de 1,3 mil colaboradores. As ferramentas representam uma redução de custos em torno de 3% quando são considerados os gastos com inseticidas. Em algumas áreas, essa economia chega a 10%. Na aplicação de herbicidas, a média de diminuição de custos é de 40%. “Outro benefício é a redução de impacto ambiental, algo que não pode ser medido, mas que sabemos que ocorre. Da mesma forma, algumas tecnologias não representam redução de custos, mas incrementam a produtividade, o que significa aumento de eficiência”, raciocina o executivo.

No manejo de doenças, o mais comum, na agricultura brasileira, é a aplicação preventiva. O que não significa que as tecnologias deixam de ser utilizadas. “Não há aplicação localizada ou seletiva para esse caso, mas trabalhamos com estações meteorológicas que nos fornecem informações sobre condições que possam favorecer o aparecimento de alguma doença e, assim, auxiliar na definição sobre a aplicação”, explica Sana.

Atualmente, sete fazendas e uma área equivalente a 100 mil hectares cultivados pela SLC estão conectadas com tecnologia própria. O plano é expandir o acesso para todas as propriedades da empresa, que, na safra 2019/2020, cultivou 449.162 hectares. Por enquanto, nas áreas em que não há conectividade, um profissional precisa levar as informações até a máquina via pen drive para a execução das operações.