Arroz

Possibilidades em terras baixas e SOB PIVÔ

Já são 4 mil hectares de arroz irrigados por aspersão via pivô central (2019/20) no Rio Grande do Sul. Mas quais são as vantagens, as limitações e, sobretudo, o manejo e outros cuidados para cultivar o cereal com esse método?

Engenheiros-agrônomos Cleiton José Ramão, responsável pela coordenadoria da Regional Fronteira-Oeste e Estação Regional de Pesquisa do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), Uruguaiana/RS; e Élio Marcolin, pesquisador da Estação Experimental do Arroz do Irga, Cachoeirinha/RS

O arroz irrigado é o cereal mais cultivado na Metade Sul do Rio Grande do Sul – na safra 2019/20, a área foi de aproximadamente 940 mil hectares (Instituto Rio Grandense do Arroz – Irga, 2020). O produto é fundamental para o desenvolvimento socioeconômico das regiões onde é cultivado. Comparando-se com outras culturas anuais, o arroz irrigado utiliza maior volume de água, por permanecer a maior parte de seu ciclo com lâmina de água livre na superfície do solo. Em função da grande necessidade de água que os seres vivos necessitam para a sobrevivência, deve-se buscar alternativas para racionalizar o uso da água, sem interferir nos desenvolvimentos agrícola, industrial e humano. Embora, no Rio Grande do Sul, ocorra precipitação pluvial média anual de 1.572 milímetros (Berlato et al., 1995), essa não é bem distribuída durante o ano, e pode ocorrer escassez de água, principalmente em janeiro e fevereiro, meses que, geralmente, apresentam temperaturas elevadas e baixa umidade relativa do ar. Em razão disso, todos os seres vivos demandam maiores volumes de água, o que pode causar conflitos entre os usuários. Já existem regiões do estado onde ocorrem conflitos pelo uso da água, principalmente na Região Metropolitana de Porto Alegre, e algumas áreas específicas com grande demanda por irrigação. Desse modo, todos devem se sensibilizar e achar alternativas para alavancar a produção de grãos de forma sustentável.

Lavoura, a maior usuária de água

Entre os segmentos lavoura, indústria, uso humano e dessedentação animal, a lavoura irrigada é a maior usuária de água, pois se acredita que aproximadamente 89% da água captada dos mananciais no Rio Grande do Sul é utilizada na produção de alimentos. E a cultura de arroz é a que mais usa água, em função de ter a maior área irrigada e, também, devido ao método de irrigação adotado – por inundação contínua –, que, quando o manejo não é adequado, favorece a baixa eficiência de uso de água. Além do método de irrigação, podese utilizar o de irrigação por aspersão, que, apesar de ser um investimento inicial maior ao orizicultor, pode ser usado para irrigar a lavoura do cereal. Esse método usa menor volume de água e com ele é possível obter produtividades de grãos de arroz similares ao método de irrigação por inundação, desde que sejam supridas todas as necessidades de nutrientes para as plantas e os controles eficientes de plantas daninhas, insetos-pragas e doenças. Dessa maneira, o objetivo deste artigo técnico é caracterizar a atual situação da irrigação de arroz por aspersão na região da Fronteira-Oeste do RS.

Terras baixas na Fronteira-Oeste

O Rio Grande do Sul é responsável por 70% da produção nacional de arroz, sendo a região da Fronteira-Oeste a maior produtora do estado (Irga, 2017) e também a pioneira no uso da irrigação por aspersão em arroz sob pivô central. Em 2004, iniciou-se, em fase experimental, o uso do primeiro equipamento em Uruguaiana. A partir daquele momento, começou um novo ciclo de dúvidas, questionamentos e desafios, associados a quase que nenhum conhecimento prático e científico sobre arroz irrigado em terras baixas, em solos com características peculiares destinadas à irrigação por inundação.

Os solos de terras baixas no RS, principalmente na região da Fronteira -Oeste, têm como principais características baixa capacidade de infiltração de água (de seis a oito milímetros por hora). Portanto são solos com baixa porosidade e domínio de microporos, o que dificulta a infiltração da água e a drenagem no perfil do solo. Em razão disso, muitas vezes, a produtividade nas áreas irrigadas por pivô central é menor que na irrigação por inundação, pois os pivôs ainda têm um valor muito alto para a aquisição e nem sempre são eficazes, devido ao seu tamanho e à área que irrigam.

Geralmente, os orizicultores, para reduzir o custo do pivô central por hectare irrigado, acabam adquirindo pivôs que irrigam, aproximadamente, 100 hectares cada. Porém, como a infiltração é muito lenta (de 6 a 8 mm/hora) da água aspergida, acontece escorrimento superficial da água, fazendo com que as plantas de arroz não recebam o volume necessário de água para expressar seu potencial produtivo. Ou seja, praticamente 50% da área das plantas sofrem com estresse hídrico, e, assim, a área irrigada com pivô central tem menor produtividade que áreas irrigadas por inundação. Para resolver esse problema, deveria se utilizar pivôs menores, com capacidade máxima de irrigação de cerca de 50 hectares. Porém, nesse caso, o custo-benefício do equipamento por hectare é mais elevado, e, na maioria das vezes, esse custo a lavoura de arroz não suporta pagar.

Azevém como forrageira de cobertura/pastejo

Aproximadamente 4 mil hectares, distribuídos em 44 equipamentos, estão sendo ocupados por sistema pivô central (safra 2019/20), onde a água é direcionada até a cultura por aspersão. Essa área recebe as culturas de arroz e de soja como principais cultivos de verão, e, no inverno, o azevém é utilizado como forrageira de cobertura/pastejo.

Entre as culturas de verão, o arroz ocupa 41% do total; a soja, 52%; e o restante da área é usado com milho e pastagem de verão (Figura 1). A cultura da soja se caracteriza por ser muito sensível à saturação do solo, recomendando- se a utilização de cultivares mais tolerantes, além de estratégias que auxiliam na drenagem superficial do solo, visando à retirada do excesso de água depositado pela chuva. No inverno, o azevém é a cultura que domina as áreas, devido ao seu potencial forrageiro e também por ser mais tolerante ao excesso hídrico, ocasionado por outonos e invernos mais chuvosos.

Para o uso de pivô central, as cultivares de arroz devem ter certas características para se adequarem melhor a esse método de irrigação. Entre as principais características estão alto vigor inicial, boa capacidade de perfilhamento e resistência às principais doenças, como a brusone. A cultivar que, até o momento, mais se adaptou à irrigação por aspersão é a IRGA 424 RI, que domina a área semeada, com 75% da área total (safra 2019/20) (Figura 2), mantendo suas características de estabilidade produtiva, alta capacidade de perfilhamento e rendimento industrial (porcentagem de grãos inteiros). Já para a soja, o produtor utiliza diversas cultivares, com preferência às que possuem maior tolerância ao excesso hídrico e resistência a doenças de solo.

O manejo do pivô central

A utilização do pivô central pode-se dizer que é praticamente específica, ou seja, somente para a irrigação. Há casos em que técnicos que desconhecem o princípio do funcionamento do pivô central que recomendam e agricultores utilizam o equipamento para aplicação de fertilizantes e defensivos agrícolas no arroz. Quanto ao uso para aplicar fertilizantes, os produtos são, na sua maioria, ácidos, salinos e não dissolvem rápida e completamente na água; portanto, tornam-se abrasivos, o que faz com que ocorra corrosão nas peças do equipamento.

No caso de defensivos, somente herbicidas pré-emergentes poderiam ser aplicados via pivô central. No entanto, por causarem mais problemas do que benefícios, é melhor aplicar de outra forma, e não via pivô central. Os demais defensivos – como herbicidas pós-emergentes, inseticidas, fungicidas e acaricidas – jamais devem ser aplicados via pivô central, pois se tornam completamente ineficazes e ineficientes aos objetivos que se deseja alcançar.

Pesquisa e conhecimento

O arroz semeado na região da Fronteira- Oeste se caracteriza por ser irrigado por inundação e segue os manejos descritos no manual de recomendações técnicas para a cultura do arroz irrigado. Já o arroz semeado sob pivô central adota um manejo muito semelhante ao irrigado por inundação, seguido de uma boa dose de conhecimento adquirido pelos próprios agricultores sobre o sistema, pois há poucos estudos sobre o comportamento da cultura irrigada por aspersão em terras baixas.

Devido a isso, o Irga adquiriu quatro equipamentos, com capacidade de irrigar dois hectares cada, distribuídos em regiões estratégicas no estado, visando atender à demanda em pesquisa nessa área. As regiões que os pivôs irrigam estão divididas de modo que um hectare é cultivado com arroz e o outro hectare, com soja, com estratégia de rotação entre arroz e soja, com objetivo de gerar dados em ambas as culturas.

O Irga está conduzindo diversos experimentos sob pivôs próprios e também em equipamentos de agricultores, acelerando o processo de gerar e difundir conhecimento entre os agricultores em relação ao manejo mais eficiente a ser adotado com pivô central. As linhas de pesquisa demandadas por parte dos produtores são inúmeras, e destas foram selecionadas as de maior impacto num curto espaço de tempo – destaque ao manejo de irrigação simulando lâminas de água com maior e menor volumes, volume de água utilizado em cada tratamento e ajuste no fracionamento de nitrogênio em cobertura. Com isso, a demanda é crescente por pesquisa, seguida de um aumento da área irrigada ano a ano por esse novo sistema de irrigação em terras baixas.

Os 4 mil hectares de pivô na Fronteira Oeste irrigam arroz e soja como principais cultivos de verão, e azevém como forrageira de cobertura/pastejo no inverno