O Segredo de Quem Faz

“O AGRONEGÓCIO É A SOLUÇÃO PARA A AMAZÔNIA”

Leandro Mariani Mittmann [email protected]

O Pará produz menos de 600 mil hectares de soja, uma cultura que chegou ao estado apenas em 2003 – e, em algumas regiões produtoras, não tem uma década de presença. Mas o potencial de expansão é gigantesco, garante o presidente da Associação dos Produtores de Soja do Pará (Aprosoja/PA), Vanderlei Ataídes, originário de uma das capitais da soja, Rio Verde/GO, com passagens pelas cidades também tradicionais no cultivo Canarana e Água Boa, no Mato Grosso, e que chegou ao estado nortista em 1998. Nesta entrevista, ele aborda o quanto a soja pode crescer no Pará, pela disponibilidade de terras (baratas) e proximidade de portos, o quanto a cultura melhora os locais em que se instala e por que o agronegócio paraense faz bem à Amazônia. “Temos um agronegócio responsável, que não agride a floresta, e temos leis que nos amparam, um Código Florestal que nos dá direito a usar a terra”, lembra.

A Granja – Como é a produção de soja no Pará? Qual é a área e qual é o perfil dos produtores?

Vanderlei Ataídes – O Pará plantou 600 mil hectares em três polos, sendo Paragominas responsável pela região Nordeste, que é o maior polo, em torno de 400 mil hectares. Santarém, que o polo da BR-163, tem, aproximadamente, 100 mil hectares. E o restante no polo de Santana do Araguaia até Redenção, de 150 mil a 170 mil hectares. A maioria dos produtores são vindos de outros estados ou regiões. Do Rio Grande do Sul há muitos em Paragominas, tem muita gente do Paraná, de Mato Grosso. A área média do produtor aqui é de 1,5 mil a 2 mil hectares. A maioria dos produtores é de mil hectares, poucos abaixo. A expectativa é que, neste ano, teremos um acréscimo de 10%. Tem muita gente abrindo pastagem e plantando. Somente no Sul, que é uma região aberta há muito tempo, não tem muito a questão ambiental. Na época de plantio, como é um estado continental, temos semeaduras diferentes, o vazio sanitário diferente. As regiões de Santana do Araguaia e da BR- 163 até Castelo dos Sonhos e Novo Progresso são plantadas na mesma época de Mato Grosso, em setembro/ outubro. As regiões de Paragominas até Rondon do Pará Abel Figueiredo, que é o polo Paragominas, e Santarém são plantadas em dezembro e janeiro. Já plantamos até em fevereiro. As chuvas começam mais tarde. No Sul do Pará, BR-163 até Novo Progresso, se planta em setembro/outubro.

A Granja – E como é a questão logística? Estradas para chegar insumos, escoamento da safra, proximidade com portos...

Ataídes – O Pará é uma das principais fronteiras com a logística que atende muito bem à nossa região. Por exemplo, no polo de Paragominas, temos três portos em Barcarena, os mesmos que transportam a soja da metade do Mato Grosso para cima, de Sorriso/MT e Lucas do Rio Verde/MT para cima, que sai da BR-163 para o porto de Miritituba (em Itaituba/ PA), e vai de barcaça para Barcarena. Paragominas está a 280 quilômetros do porto, e há cidades aqui a 180 quilômetros do porto produzindo soja, como Tailândia/ PA, que está no complexo Paragominas. Então quem produz no polo Paragominas está próximo a Barcarena, uma logística muito boa. Alguns gargalos ainda são de rodovias, que precisam de melhoramentos. De Paragominas para chegar, via rodoviária, no porto de Vila do Conde (em Barcarena) tem uma balsa na cidade do Acará/PA. Mas, na semana passada (meados de outubro), Paragominas já começou a operar com a hidrovia no rio Capim, que fica a 40 quilômetros de Paragominas, então tem mais essa opção de transporte hidroviário. Já em Santarém, tem um porto da Cargill que atende os produtores com lavouras muito próximas, e no eixo da BR-163 até Novo Progresso/PA também tem a rodovia agora pavimentada. A logística melhorou muito, e aquela região vai crescer bastante, de Cachoeira da Serra, município de Altamira/PA, na BR-163, Novo Progresso/PA, Castelo dos Sonhos (distrito de Altamira) e outras cidades da BR-230, a famosa Transamazônica, cidade de Uruará/PA, região de Miritituba. E no Sul do Pará a logística é a BR-158, que integra em Barcarena e também sai pelo Tocantins, pela ferrovia Norte-Sul, levando a soja até o Porto de Itaqui, no Maranhão. Ou seja, o estado do Pará está contemplado por várias condições de escoar a sua produção.

A Granja – E quais os fatores limitantes para a produção e a expansão de soja no Pará, como, por exemplo, a questão ambiental, afinal, o Pará está na Amazônia?

Ataídes – Realmente, é o gargalo que temos hoje aqui no nosso estado do Pará. A regularização fundiária é um problema, ainda temos terras sem documentos, área do Estado. E a questão ambiental. Estamos na Amazônia, e no Pará, hoje, embora seja um estado gigante, produzimos pouca soja, mas somos muito taxados pelo povo que faz aqueles discursos do meio ambiente, do desmatamento, dos desmatadores e tal. Mas vou dar um número que prova que isso não é verdade, porque, em um estado que tem quase 125 milhões de hectares, ainda não produzimos nem meio por cento do território paraense. Em 2020, 0,47% da área do estado é com lavouras plantadas com soja. É muito pouco, nem meio por cento. Então temos muito que crescer, tem muita área para crescer, muitas áreas abertas. Mas, realmente, na questão ambiental tem gargalo, é muita lenta a ação do Estado, o licenciamento ambiental, tudo o que se envolva nas áreas ambiental e fundiária. São os nossos limitantes que, realmente, temos que batalhar para se desenrolar em uma velocidade mais rápida. É um estado rico, muito rico, e, ao mesmo tempo, muito pobre. Pois se sabe que, onde chega a agricultura, a locomotiva do desenvolvimento chega atrás. Mas, para isso, tem que ter a regularização, tem que ser tudo certinho.

A Granja – E quais são as potencialidades para a expansão da soja no estado? Poderia uma ideia a quem pensa em investir na agricultura do Pará?

Ataídes – Realmente temos muito o que crescer no nosso estado. Temos muita área aberta, uma questão de se achar as regiões com aptidão agrícola ou na pecuária, e já temos uma pecuária muito forte aqui na região do Pará. E, como eu disse, de 125 milhões de hectares, não plantamos nem meio por cento. E temos o objetivo de levar a nossa agricultura, em breve, para acima de 2 milhões de hectares. Planejamos, em 20 anos, estar bem além disso. Temos terras, ainda há muita área que pode virar agricultura sem agredir a floresta, sem ter desmatamento. Dentro da regularidade do Código Florestal há muito o que crescer no nosso estado. A região do Sul do Pará, aberta há mais tempo, está em pleno desenvolvimento da agricultura. Então acredito que o Pará é um bom local para se iniciar, para quem está interessado em sair dos seus estados já saturados pela questão de áreas, por não ter mais espaço. Um bom estado para se iniciar um novo ciclo em suas vidas.

A Granja – O que você diria ao produtor de outras regiões do País interessado em adquirir terras no Pará?

Ataídes – Tem se elevado o valor da terra aqui no Pará. Com terra pronta são poucos os negócios que saem. Geralmente, o pessoal está “fazendo as terras”. É uma região nova, estamos falando de 23 anos de agricultura. Na soja, não chegamos a isso, pois começamos a valer de 2003 para cá. No Sul do Pará, não tem nem dez anos de soja. Hoje, os valores de terras no Sul são de R$ 10 mil por hectare. O preço depende muito da localidade, da capacidade produtiva da área. Áreas abandonadas de pastagem que estão meio sem investimento se compra mais barato, bem mais barato, por R$ 20 mil o alqueire (R$ 4.132,00/hectare, pois, no Pará, o alqueire é 4,84 hectares). Um pouco mais afastada das rodovias se encontra. Áreas da região de Dom Eliseu/PA, que está bem consolidada, e em Rondon do Pará/ PA, nas margens da rodovia, estão mais caras, comercializadas por até R$ 30 mil/ hectare. Em estados como Goiás é muito mais... No Paraná ou em Mato Grosso, que é vizinho, também. E os nossos preços de soja estão até melhores que em algumas cidades de Mato Grosso e Goiás. É uma questão de chegar, comprar, corrigir o solo e preparar bem as terras. Acredito que o investidor que vier para o Pará vai acertar. Temos gargalos? Temos. Mas isso, aos poucos, vamos sanando. Ninguém que chegou no Mato Grosso nos anos 1970 –conheço Água Boa/ MT e Canarana/MT, morei nas duas cidades – chegou lá e pegou pronto. Teve uma luta, gente que chegou e morou debaixo de barraco de plástico de lona preta por muito tempo para fazer a sua estrutura. Aqui não é diferente, mas vai pegar (um ambiente) bem mais prático, bem mais fácil, já vai chegar sabendo a cultivar que produz, o que fazer para ter uma produção boa, o que não fazer, em que pode acertar. Hoje é muito mais fácil que antigamente.

A Granja – O que mais você gostaria de ressaltar sobre a agricultura paraense?

Ataídes – Gostaria de agradecer o espaço para mostrar um pouco do nosso estado, da nossa agricultura aqui no Pará. E é o seguinte: vim de Goiás, de uma região consolidada que é Rio Verde, morei em Água Boa e Canarana, ambas inseridas no agronegócio, e sabemos que onde entra a agricultura a cidade muda de cara, a sociedade muda de cara, chega a renda, o desenvolvimento, o emprego, e a própria população é muito beneficiada, porque os municípios começam a ter recursos oriundos de impostos do movimento na cidade devido ao grão. E aí começa uma vida nova para todo mundo, com melhor educação, melhor saúde, na infraestrutura das cidades e em tudo. Toca a economia, né? Paragominas, hoje, é uma das melhores cidades do estado do Pará para se morar devido a esse agro. Temos quase 2 milhões de hectares (potenciais para o agro) nessa cidade e chegamos a quase 200 mil (trabalhados). Tem muito para crescer aqui ainda, mesmo com os problemas ambientais. A região é consolidada em 50%, e não estamos usando toda a área do município. Então é preciso pensar na Amazônia com muita responsabilidade, pois este pouco agro que geramos no Pará, destes 600 mil hectares, “jogamos” aqui uma receita bruta nos municípios de mais de R$ 2 bilhões nas empresas. Isso gera um movimento bom, gera receita para o município, para o estado. E gera emprego. Não adianta ter o estado rico e ser pobre ao mesmo tempo. Vim de uma região que a infraestrutura era melhor do que aqui. Aqui, você vai nos municípios que não têm o agro ou o agro está recém -implantado e vê muita rede de esgoto nas ruas, uma pobreza absoluta, chega a dar pena da população de algumas regiões. Em Belém mesmo, chamada de Portal da Amazônia, esgoto a céu aberto, violência, uma truculência na sociedade, mortes e mortes, porque não tem pacto de trabalho nem geração de renda e emprego. Então temos muito o que crescer neste estado, e o agricultor é o parceiro disso. A soja não é inimiga, é amiga. Onde chega a agricultura, você eleva a qualidade de vida, o IDH, a renda per capita, o PIB dos municípios. O pessoal tem uma mania de falar da Amazônia, e, geralmente, quando se fala da Amazônia, a culpa cai sobre o Pará, parece que somente o Pará que é a Amazônia no Brasil. Não é assim, somos mais estados. Só no Pará há quase 9 milhões de habitantes, e temos que gerar emprego para esse povo, senão vamos ter um problema de desmatamento sempre. Se não gerar emprego para esse povo, não tem como manter uma floresta em pé. O Governo trouxe este pessoal no passado para cá. Na Amazônia, há 25 milhões de pessoas. Não se pode condenar esse pessoal a viver na sorte. Não adianta uns terem e a maioria não ter. Vendo a política do Governo Federal e até mesmo do ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, ele está certinho quando fala que tem que cuidar da Amazônia e dos povos da Amazônia. Aqui tem um povo, são irmãos brasileiros que merecem todo o amparo do Brasil, não podem ser largados à própria sorte. Temos um grande índice de violência na nossa região, na própria capital e em outros municípios, porque não tem progresso, não tem políticas públicas, porque o Estado não dá conta, não tem receita, não tem atividade econômica na região. Temos que olhar, hoje, de uma forma diferente. O pessoal critica alguma coisa da Amazônia, o agronegócio, mas o agronegócio é a solução para a Amazônia. Temos um agronegócio responsável, que não agride a floresta, e temos leis que nos amparam, um Código Florestal que nos dá direito a usar a terra. E mesmo sendo absurdo usar os 20%, nem isso estão querendo. Estamos num grande estado, temos muitas terras. A região que está protegida, esta não tem risco de entrar a agricultura por lá. Não tem logística, está isolada naquele canto. Não precisa ter esta preocupação. Ninguém, hoje, vai plantar soja no nada, de onde não tem condições de tirar, de sair, de armazenar, onde não tem rede de energia, não tem estrutura nenhuma. Então estamos aqui na região consolidada que as rotas da BR-163 e da BR-158, e a Transamazônica tem muita reserva aqui, muitas áreas protegidas. E, para completar, tem 144 municípios no nosso estado. Nos principais municípios que produzem soja hoje, quem sabe não são nem dez. Os principais são cinco aqui no polo de Paragominas, três no Sul do Pará, então são oito, com mais três em Santarém e mais dois na BR-163. Exatamente, de 144 municípios, são 14 com soja. Veja onde podemos chegar, e muitos desses (sem soja) têm aptidão para a agricultura e, hoje, estão em pecuária. Um potencial gigantesco.