Na Hora H

BRASIL FEZ A MAIOR “REVOLUÇÃO VERDE” QUE O MUNDO JÁ VIU

O Brasil, hoje, é, sem dúvida, a grande esperança para evitar a fome do mundo nos próximos 30 anos. A nossa agricultura tropical sustentável já foi reconhecida por todos os especialistas e, principalmente, pelos consumidores como sendo a única a garantir de fato a segurança alimentar tão desejada. A revolucionária tecnologia aqui desenvolvida é a maior garantia de que, no clima tropical, não perdemos em produtividade, em qualidade nem nos preços dos produtos que estamos oferecendo ao mundo. Aqui, já demonstramos que fazemos duas safras no mesmo ano, na mesma terra, com os mesmos homens e com a mesma infraestrutura, e a segunda safra é imbatível em preços e qualidade.

Podemos ainda afirmar que as tecnologias aqui desenvolvidas já nos dão garantias de produzir, especialmente acima do paralelo 23 e com a irrigação, três safras por ano. Fato absolutamente inédito na concepção de qualquer produtor das zonas temperadas que dominaram a alimentação no mundo por cerca de 4 mil anos. Esta evolução da tecnologia brasileira leva seguramente à certeza de que poderemos triplicar a nossa safra sem haver necessidade de acrescer um metro quadrado sequer em nossa atual área de produção, e ainda atender à constância de oferta nos mercados consumidores.

Ainda temos uma carta na manga de importância fundamental para ganhar o jogo: é a tecnologia da integração lavoura- pecuária-floresta. Com essa tecnologia, vamos tranquilamente, e a custos baixos, recuperar os 80/90 milhões de hectares de pastagens ainda degradadas e que, nesse sistema, serão recuperadas a baixíssimo custo e em rápida evolução, fazendo aumentar a produção de carne que, nessa tecnologia, já demonstrou ser de carbono zero. E ainda produzir na mesma área e no mesmo ano, além de carne, grãos, fibras e óleos, e a custos também competitivos. E também, no caso do uso da floresta, ter uma “caderneta de poupança”, que, hoje, de quatro até sete anos, dá uma compensação muito valorosa.

Esse foi o quadro que conseguiu o Brasil em menos de 40 anos. E alguns especialistas consideram a maior “revolução verde” que o mundo já viu. Isso teve de ser feito a curto prazo, pois, nas décadas de 1960 e 1970, o Brasil estava à beira do abismo – com o custo dos alimentos que importávamos e a crise do petróleo pela Opep, em 1973, que triplicou de imediato o petróleo –, e dependíamos 80% da importação para o nosso consumo.

Essa necessidade de resolver a curto prazo, via produção agrícola, o grande problema brasileiro obrigou o País a se aventurar no uso de terras inférteis, que, pela nossa tecnologia, passaram a ser as mais produtivas e competitivas do mundo, como no caso do bioma Cerrado.

Hoje, as estatísticas estão aí nos demonstrando que fomos capazes de fazer essa Revolução Verde com apenas 842 mil propriedades, ficando, de outro lado, 4,5 milhões de propriedades sem tecnologia, extrativas, sem repor os recursos naturais que usam, uma agricultura de subsistência, sem a geração de renda suficiente sequer para alimentação dos que ali vivem. Nestas propriedades, pela falta de conhecimento, educação formal ou informal, não tiveram condições de fazer a mudança necessária para usar tecnologia, fazer produção, gerenciar seu trabalho, chegar ao mercado e nem ter renda. Este é o grande drama. Não foi falta de estratégias nem de políticas públicas, pois, no Brasil, sempre se deu preferência ao produtor extrativista e de subsistência. O que ocorreu é que ele não teve condições de aproveitar as políticas públicas na época.

Foi criado também um serviço de geração de tecnologia e conhecimento, a Embrapa, como também um serviço de transferência para uso dessas tecnologias, a Embrater. O que é estranho é que a Embrapa sobreviveu, embora com dificuldades, mas continua prestando grandes e inestimáveis serviços à nação brasileira.

Esse é um fato que não pode ser esquecido. O Brasil jamais poderá ser considerado desenvolvido enquanto essa disparidade existir. Tenho fé, Deus parece ser brasileiro mesmo, pois, agora, abre-nos uma nova janela, e, se tivermos competência e estratégias, o novo mercado que se forma nos países ricos – Japão, EUA, toda a Europa, países populosos da África com alta renda, China, Índia, Coreia do Sul e outros países da Ásia – e em tantos outros cujos consumidores são ricos pode pagar preços altos e compensadores pelo novo alimento que deseja consumir. Especialmente após a pandemia, produtos que deverão ser de alta qualidade, o mais natural possível, nutritivos e, sobretudo, saudáveis. Esses alimentos ainda não podem ser produzidos em máquinas gigantes, e sim pelas mãos de produtores que, com dedicação, carinho e amor ao que fazem, transmitem a esses alimentos o status desejado pelos consumidores ricos.

Essa pode ser, sem dúvida, a nova janela que se abre ao Brasil, e compete a nós, com racionalidade e competência, fazer um grande esforço de incorporação destes 4,5 milhões de propriedades que podem atender claramente à nova demanda. Esse é o nosso desafio, e não podemos perdê-lo.

Engenheiro-agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura