Herbert & Marie Bartz

MEMÓRIAS DE BARTZ: VIAGENS DA JUVENTUDE – FRONTEIRAS AO NORTE (V)

Herbert

E continuamos relatando os contos de Herbert Bartz com seu amigo Jürgen em sua juventude, na viagem pelos países nórdicos, em especial pelos inúmeros lagos da Finlândia. Nesta edição, Bartz relata a tão esperada estadia na casa de verão da família de uma das moças com as quais ele e seu amigo dançaram a noite toda na viagem de ferry-boat da Suécia para a Finlândia, no início desta grande aventura...

Herbert Bartz: “As casas de verão, distribuídas entre as pequenas ilhas em meio aos inúmeros lagos da Finlândia, podiam ser desde pequenos chalés até casas grandes completas, mas, em geral, nenhuma tinha energia elétrica. No entanto, todas eram obrigatoriamente equipadas com uma sauna. Essa fantástica ‘instituição’ dos países nórdicos tinha como coração um forno com pedras de granito que eram aquecidas com lenha. Ao se derramar água sobre as pedras, o vapor aquecia o ambiente até 80ºC. O truque da sauna era que, após algum tempo ficando no vapor, pulava-se na água fria/gelada dos lagos, ou, se era inverno, usava-se a neve. Os praticantes da sauna rolavam o corpo na neve. Esse era considerado o máximo em prazer e benefício para a saúde.

Com alguma dificuldade, conseguimos, finalmente, chegar à ilha da família da moça que havíamos conhecido no ferry-boat. A família era o pai, a mãe, os quatro filhos, a avó de quase 80 anos e a amiga alemã da filha, que vivia perto de minha casa na Rhenânia e com as quais dançamos a noite toda no ferry- boat, e estavam todos nos esperando. Logo no jantar, meu amigo e eu ficamos surpreendidos com a riqueza da mesa. A diversidade de carnes era enorme, mas fiquei mais pasmo ainda com a meia dúzia de diferentes peixes fritos, cozidos, assados ou defumados, todos pescados no lago em volta da ilha.

A noite era curta (de quatro a cinco horas), e dormimos em camas muito confortáveis. Acordamos somente horas após o alvorecer. Passamos o dia comendo, pescando e nadando. E fomos avisados que, antes do jantar, éramos convidados a fazer uma sauna com a família toda, inclusive a avó. Jürgen e eu ficamos um pouco sem jeito, porque todo mundo ficou ‘como Deus os criou’ (nus). Já havíamos percebido antes que os finlandeses tomavam banho em público sem roupa. Sabíamos que receber um convite para sauna em família era algo honroso e ficamos preocupados em corresponder à altura para essa manifestação de confiança. A sauna era espaçosa e havia três níveis (bancos/degraus), e apenas os mais corajosos subiam para o degrau mais alto, pois lá as temperaturas chegavam até quase 90ºC. Eram usados galhos (Birkenzweige) para bater nas costas com o objetivo de incentivar a circulação do sangue.

Em pouco tempo, ficamos pingando de suor. A avó pegou, então, a minha mão e me puxou para ir com ela para fora. Fomos andando em cima de uma passarela de tábuas (Laufsteg) até um lugar de águas profundas. Então a velha senhora soltou minha mão, tapou o nariz com a mão esquerda e, com a mão direita no ar, pulou com os joelhos no peito, caindo como uma bomba na água. E eu a segui, claro. Ainda nos dias de hoje tenho, na minha memória, a silhueta dessa senhora, contra o céu da noite, com a lua à nossa frente, dando esse pulo na água. Eu não medi a temperatura da água naquela noite, mas, da temperatura da sauna – a mais de 80ºC – para os 15ºC a 20ºC, são mais ou menos 60ºC de diferença. Posso assegurar que não senti nada além de um agradável formigamento (Knibbeln) e um pleno bem-estar no corpo inteiro. Eu repeti mais duas sessões na sauna.

Como consequência dessa experiência, quando estive de volta à minha casa na Alemanha, construí uma réplica dessa sauna. Essa família finlandesa nos visitou no ano seguinte, com exceção da Oma (a avó). Ficaram hospedados por três dias em nossa casa, a famosa Haus Busch, uma casa no mato baixo (capoeira) em Nikolausberg que meu pai havia construído em 1956 e que era assim chamada e identificada para as correspondências recebidas pelos correios”.

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo, pesquisadora na Universidade de Coimbra