Reportagem de Capa

ENERGIA QUE VEM DO SOL

A mesma fonte que é matéria-prima essencial para a produção agrícola vem modificando a paisagem em propriedades rurais no Brasil. Entre 2017 e 2020, a energia solar no campo apresentou crescimento de mais de 3.700% em potência instalada. São quase 20 mil unidades em funcionamento nas diferentes regiões. O avanço observado nos últimos anos é justificado por uma série de razões, mas, sobretudo, pelos resultados positivos obtidos por produtores que decidiram investir nos sistemas fotovoltaicos

Denise Saueressig [email protected]

O primeiro impacto é o visual. Ao lado de lavouras, rebanhos, máquinas e silos, os painéis de energia solar fotovoltaica impressionam pela imponência e estão cada vez mais presentes nos cenários do campo brasileiro. Se forem considerados dados até 1º de setembro, eram 19.514 sistemas instalados na área rural, responsáveis por uma potência instalada de 422,9 MW, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar). Essas quase 20 mil estruturas geram créditos para 28.504 pontos consumidores, o que significa que alguns desses sistemas são compensados em mais de uma unidade. À primeira vista, o número pode parecer pequeno quando comparado ao total de propriedades do País, que somam mais de 5 milhões de estabelecimentos, de acordo com o IBGE. No entanto, cabe lembrar que o setor recebeu regulamentação própria apenas em 2012. Entre 2017 e 2020, a energia solar no campo apresentou um incremento de mais de 3.700%, salienta a vice-presidente do Conselho da Absolar para Geração Distribuída, Bárbara Rubim. “O produtor busca uma maior previsibilidade para os seus custos”, justifica a executiva. E é justamente esse o fator de maior impacto da tecnologia. Bárbara ainda considera que o consumidor rural é o que tem acesso às melhores linhas de financiamento para gerar a própria energia. Entre as opções está o Inovagro, que, no Plano Safra 2020/2021, teve um acréscimo de 33,3% nos recursos – para R$ 2 bilhões – e redução na taxa de juros de 7% para 6% ao ano. Para os diferentes perfis de consumidores, a Absolar estima que existem mais de 70 opções de programas de crédito oferecidos por agentes públicos e privados.

Crescimento triplicado em um ano

Ambientalmente amigável, sem emitir poluentes durante a operação, a energia solar é mais uma opção para a diversificação da matriz elétrica brasileira, atualmente 60% dependente de recursos hídricos. Em 2019, o Brasil alcançou a marca de 1 GW de capacidade instalada em sistemas fotovoltaicos de geração distribuída (energia gerada no local de consumo ou próximo a ele). Um ano depois, o País já ultrapassou os 3,4 GW. “Triplicamos a capacidade do setor em um ano, e isso mostra o aumento do interesse por parte de usuários de todos os portes e de todos os tipos. Muito dessa demanda é motivado pela escalada tarifária que observamos no Brasil, especialmente desde 2015”, analisa Bárbara. Somando a geração centralizada (das grandes usinas), são mais de 6,4 GW operacionais desde 2012. Os sistemas instalados na área rural correspondem a 12,4% da potência total na geração distribuída. O setor comercial e de serviços lidera, com 39,3%. Os residenciais aparecem logo em seguida, com 38,1%; e a indústria responde por 8,8%. O restante é representado por usos do poder público. Minas Gerais ocupa a primeira posição no ranking de potência no campo. Na sequência estão Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso e Paraná. Nos diferentes estados, iniciativas de incentivo à adesão por produtores vêm favorecendo os investimentos. Em Minas, por exemplo, a Federação da Agricultura (Faemg) firmou parceria com uma empresa da área. Também é no estado, em Perdizes, que foi instalado o primeiro pivô do mundo totalmente movido por energia solar.

Compensação na cidade

No município de Manga, localizado no Norte de Minas e à margem esquerda do Rio São Francisco, o produtor Edvaldo Lôpo de Alkmim começou a se interessar pela energia solar em 2015, pensando na redução das contas com eletricidade. Entusiasmado com o que ouvia falar, foi atrás de informações e de empresas que pudessem concretizar o projeto que tinha em mente. Em abril de 2017, depois de 60 dias de montagem, entrou em operação a microusina instalada em um espaço de 600 m² próximo à casa da família na Fazenda Vista Alegre. Toda a energia gerada ali – que chega a 84 kWp (rendimento no pico) – é compensada na padaria dos Alkmim em Manga, onde são comercializados o leite e os derivados industrializados na propriedade. “Na época, o investimento era muito alto e não valia a pena para o campo, já que temos tarifa rural diferenciada. Então optamos pelo uso na cidade. Foi o primeiro sistema para autoconsumo remoto no nosso estado”, conta o agropecuarista. A possibilidade é prevista na regulamentação da Aneel, que permite que os créditos gerados sejam utilizados em outros locais de consumo, desde que estejam na área de abrangência da mesma concessionária e com uma validade de até cinco anos.

Aproveitamento dos recursos levado a sério

A instalação da usina teve um custo em torno de R$ 400 mil, valor que foi REPORTAGEM DE CAPA financiado por linha de crédito, com prazo de oito anos para pagamento. “Hoje, o preço está quase pela metade, mas não me arrependo. Pelo contrário, estou muito satisfeito com os resultados”, relata. Como a padaria foi ampliada e, consequentemente, o consumo de energia também aumentou, uma nova instalação foi feita no ano passado, no telhado do empreendimento. Com as duas estruturas de placas solares, o sistema está gerando créditos, e a economia na conta de luz é calculada em cerca de R$ 18 mil mensais. Agora, Alkmim estuda a implantação de um projeto para atender ao consumo na fazenda, onde a família trabalha com pecuária leiteira, piscicultura, suinocultura e lavoura destinada principalmente à alimentação do gado. “Tenho uma área de 70 hectares com irrigação, dos quais 50 hectares são de pastagem e o restante, de agricultura, onde cultivo milho, sorgo e faço rotação com feijão. Estou fazendo contas para uma usina que possa compensar o uso diurno na propriedade, já que, entre as 21h30min e as 6h, tenho descontos que variam de 73% a 90% por demanda contratada”, explica o produtor.

A utilização da energia solar faz parte de um projeto amplo que envolve diferentes práticas sustentáveis na fazenda. Quando é necessário esvaziar os tanques de criação de peixes, a água com resíduos orgânicos não volta para o rio, mas sim é aproveitada na irrigação. O funcionamento de biodigestores permite a utilização dos dejetos dos rebanhos bovino e suíno na fertirrigação da pastagem. Em breve, o composto orgânico também servirá de insumo para promover a melhoria do solo nos 20 hectares de culturas agrícolas. Já o soro resultante da industrialização do leite serve como alimento para o plantel suíno. “São iniciativas que favorecem o meio ambiente e a redução dos nossos custos em uma cadeia cada vez mais autossustentável”, resume Alkmim.

Particularidades devem ser avaliadas

A possibilidade da integração dos sistemas de energia solar com a produção agropecuária é outro fator que deve continuar colaborando para o incremento dos projetos no campo, avalia Bárbara, da Absolar. “É a agrofotovoltaica, que pode ser, por exemplo, com determinadas culturas que se beneficiam do sombreamento gerado pelas placas. Dependendo da forma como as estruturas são instaladas, a radiação chega, mas não é tão forte. É mais uma forma de aumentar a eficiência no uso da terra”, destaca. O recomendado, antes de definir um investimento, é avaliar as particularidades da propriedade. No caso dos irrigantes, existe a cobrança com descontos, então é preciso fazer as contas para concluir se vale a pena. “De forma geral, é importante que os produtores lembrem que a tarifa diferenciada para o consumidor rural está em processo de fim gradativo, com o término do desconto em 2023”, observa a executiva. O número de fornecedores que atuam na área também vem favorecendo a concorrência no setor e, consequentemente, a melhor escolha entre os consumidores. No ano passado eram cerca de 12 mil empresas, número que, em 2020, já é estimado em 17 mil. Em setembro, o Brasil ultrapassou as 300 mil conexões de geração distribuída solar fotovoltaica em mais de 5 mil municípios. Desde 2012, os investimentos superam os R$ 18 bilhões e a geração de empregos é calculada em 108 mil postos. Nos últimos 12 meses foram adicionados 162 mil novos sistemas, um avanço de 130% no período, segundo a Absolar. O Brasil é detentor de um dos melhores recursos solares do planeta, mas ainda é um mercado pequeno em geração distribuída. São mais de 84 milhões de consumidores de energia elétrica, mas apenas 0,4% fazem uso do sol para a produção. Países como Austrália, China, Japão e Estados Unidos ultrapassaram a marca de 2 milhões de sistemas. A Absolar considera importante o estabelecimento de um marco legal para o setor para que seja instituída uma maior segurança jurídica e regulatória no mercado. Da mesma forma, é fundamental o avanço da difusão de informações sobre o funcionamento da tecnologia, já que, naturalmente, ainda existe muito desconhecimento.

Inovação para acompanhar o crescimento

Sempre atento às novidades tecnológicas, o produtor Roberto Chioquetta pensou, há cinco anos, que poderia investir em um sistema diferenciado de geração de energia na Fazenda Santa Amélia, em Campo Novo do Parecis/ MT. Chegou a cogitar a eólica, conversou com o irmão engenheiro elétrico e acabou decidindo pela fotovoltaica. “Naquela época, não sabíamos de outro projeto em propriedades rurais no estado, apenas em estruturas na cidade, em cima de telhados. Então fomos estudar como fazer o suporte para a correta instalação”, recorda.

Em um primeiro momento, foram instaladas 1.152 placas com um custo de R$ 1,3 milhão, valor que o produtor calcula que está quase sendo quitado. Nos cinco anos de funcionamento, Chioquetta garante que não teve nenhum problema com a manutenção do sistema. Apenas precisa limpar com água os painéis quando fica muito tempo sem chover, pois isso provoca acúmulo de poeira sobre as estruturas. “Nesse caso, é necessário para que a geração das placas não seja prejudicada, mas é um trabalho que fazemos em um dia, com três pessoas”, descreve.

A estimativa é de que 85% do consumo da fazenda seja suprido pela energia solar. A usina atende a mais de 150 motores elétricos de diferentes potências funcionando na unidade de beneficiamento de sementes (UBS). A mesma geração é aproveitada para os equipamentos de ar-condicionado nas instalações dos 45 funcionários fixos da fazenda. “Da metade de janeiro até o final de março, que é época de beneficiamento e secagem, pagamos pela energia, porque o consumo é bem maior”, detalha o produtor, que acompanha todos os gráficos de geração e consumo por um aplicativo.

De 2015 até agora, Chioquetta percebe evolução no número de empresas fornecedoras, na eficiência dos equipamentos e nas linhas de crédito disponíveis. “Os preços também estão mais acessíveis. E é uma estrutura com garantia de mais de 20 anos e que pode produzir por mais de 30 anos. Neste ano, fiz uma ampliação na fazenda, com mais 200 placas sobre um telhado”, afirma.

E o investimento não vai parar por aí. Para o ano que vem, como pretende continuar ampliando a estrutura da propriedade e a produção de sementes, Chioquetta deve instalar entre 400 e 500 novos painéis. Hoje, a área de cultivo da fazenda é de 4,6 mil hectares. A soja ocupa toda a lavoura no verão, e, na segunda safra, 80% é plantada com milho e o restante, com feijão e girassol. A Santa Amélia serviu de modelo para outros produtores da região, que visitaram o projeto e acabaram realizando investimentos. “Tivemos eventos para mostrar como tudo funciona e, hoje, muitos já estão com seus sistemas funcionando. É uma tecnologia incrível, temos matéria-prima de graça”, reflete.

A utilização da energia do sol acompanha os valores que Chioquetta defende como produtor. Preocupado com a preservação dos recursos naturais, ele faz captação da água da chuva para uso na lavoura e tratamento biológico de esgoto, planta eucalipto para abastecer com lenha própria o secador e inventou um sistema que coleta e armazena a água do ar-condicionado das máquinas, que pode ser reutilizada, por exemplo, para limpeza do para-brisa e lavagem das mãos do operador.

Projeto com foco na sustentabilidade

O produtor Luiz Antonio Pradella também é um entusiasta das práticas conservacionistas. Na sua fazenda em Formosa do Rio Preto, no Oeste da Bahia, ele aproveita a água da chuva em diferentes processos e adota o sistema plantio direto em toda a área de cultivo de grãos, seguindo à risca os três pilares da prática: não revolvimento do solo, cobertura permanente e rotação de culturas. “Nossa preocupação ambiental é geral, e a energia solar faz parte disso. Temos a oportunidade de coletar a energia do sol, que é fonte inesgotável e gratuita”, salienta.

Em 2010, nove anos depois da chegada da família ao estado, foi feito um investimento em energia solar no sistema off grid, quando o mesmo não está conectado à rede pública e precisa de equipamentos diferenciados para ter autonomia, como as baterias. “Até hoje, a qualidade da energia elétrica que chega até nós não é boa, tem muita oscilação”, justifica o produtor.

Em 2018, iniciaram os projetos com as placas fotovoltaicas no sistema on grid, ou seja, com conexão à rede. O objetivo era suprir quatro unidades consumidoras: uma na sede da fazenda e três na cidade de Luís Eduardo Magalhães, onde ficam um escritório e duas residências da família. Na época, as contas somadas resultavam em torno de R$ 2 mil por mês. “Por alguns meses, o consumo foi abastecido, mas, neste ano, foi preciso fazer um novo investimento, ampliando o número de placas”, diz. Agora, a expectativa é zerar a conta a partir de outubro com as 90 placas instaladas. “Em quatro ou cinco anos, o projeto se paga pela economia na fatura de energia. E ainda contamos com uma garantia de funcionamento para um período entre 20 e 25 anos”, complementa.

Pradella recomenda que os produtores avaliem com boa vontade as possibilidades da energia solar. “Ainda há muito a ser melhorado, mas é viável técnica e financeiramente. Para quem não tem recursos próprios, existem as linhas de crédito. Procurem uma empresa séria, um bom projetista. A instalação e a manutenção são práticas, e os equipamentos estão cada vez mais eficientes. Inclusive, é possível fazer um investismento em conjunto, em sociedade”, indica. Para o futuro, o produtor não descarta trabalhar em um projeto maior, de instalação de uma usina para vender energia.