Armazenagem

Controle total da PRÓPRIA PRODUÇÃO

Administrar na propriedade a safra de grãos colhida e comercializá-la no momento mais adequado – leia-se, ao melhor preço – são alguns dos benefícios de manter uma estrutura de armazenagem na fazenda. E as vantagens vão além

Eng. Adriano Mallet, diretor técnico da Agrocult Consultoria e Treinamento em Armazenagem de Grãos, [email protected]

O talento agrícola do produtor brasileiro a cada safra vem se confirmando. Na safra 2019/2020, o País chegou a um patamar recorde de produção, de aproximadamente 257 milhões de toneladas, e com previsões, para os próximos anos, de produções ainda maiores – a estimativa para 2030 é de 390 milhões de toneladas. Com as condições climáticas normais em todas as regiões, os números nesta safra seriam ainda maiores. Como exemplo, a Região Sul foi castigada pela seca, com uma quebra de safra de 28,8% apenas no Rio Grade do Sul.

A decolagem agrícola está alicerçada Controle total da PRÓPRIA PRODUÇÃO Administrar na propriedade a safra de grãos colhida e comercializá-la no momento mais adequado – leia-se, ao melhor preço – são alguns dos benefícios de manter uma estrutura de armazenagem na fazenda. E as vantagens vão além Eng. Adriano Mallet, diretor técnico da Agrocult Consultoria e Treinamento em Armazenagem de Grãos, [email protected] na tecnologia desenvolvida para cada perfil brasileiro de plantio, pois existem várias microrregiões climáticas. O Brasil está num patamar mundial agrícola como o maior produtor e exportador de soja, assim como líder em outros segmentos exportadores do agronegócio para o abastecimento mundial de outros alimentos, como em carnes suína, bovina, aves etc.

Todo o avanço na produção agrícola desencadeou necessidades decorrentes de carências acumuladas, como em logística e infraestrutura, sobretudo em armazenagem ou estocagem dos volumes crescentes de grãos. Números gerados pelo aumento de produtividade e pela abertura de novas áreas. Além das trocas de atividades agrícolas verificadas em algumas regiões pontuais, nas quais áreas de pecuária extensiva foram substituídas por lavouras de soja e milho.

Mas o incremento médio de produção, de 4,8% ao ano, não vem sendo acompanhando pela construção de novos armazéns e silos verticais, que apresentam um crescimento médio, nos últimos cinco anos, de 2,6%/ano. Como resultado, o déficit de armazenagem foi estimado em 88,80 milhões de toneladas na recente safra. A capacidade estática de armazenagem atual é 169,814 milhões de toneladas, considerando que alguns ambientes não estão totalmente em condições de receber e realizar uma boa conservação dos grãos e a manutenção da qualidade.

Conforme o perfil agrícola da região

Pela comparação do crescimento da produção versus a capacidade de armazenagem, é preciso estimular o produtor a investir na sua própria armazenagem na propriedade, índice de 16% no Brasil, ante 56% nos Estados Unidos – um modelo de unidade armazenadora com características que podem ser administradas pelo próprio produtor, localizado na propriedade, junto à sua lavoura, e que tem como principal função armazenar a sua própria safra. Dessa forma, é possível ter vários modelos de estruturas e capacidades estáticas, de acordo com o perfil de cada região agrícola, com unidades pequenas, médias e grandes.

Uma forma de incrementar os investimentos em armazenagem é disponibilizar ao produtor linhas de créditos com taxas de juros atrativas para a construção de silos e armazéns, visto que são investimentos com valores elevados e implantados, inicialmente, em um único momento, diferentemente de investimentos em maquinários, que podem ser feitos de forma gradual, acompanhando os incrementos de áreas e as renovações de frota parcial.

No mercado financeiro há algumas linhas, mas a mais direcionada é o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), com taxas de juros que variam de 5% (para unidades de até 6 mil toneladas ou 100 mil sacas) a 6% (para unidades com capacidade superior).

Outra grande vantagem da armazenagem própria é a liberdade de negociar no melhor período a safra e por diferentes modalidades. A realidade demonstra que vender direto (mercado de lotes) é mais lucrativo que a venda balcão via terceiros. Neste item, o produtor deve simular de forma retroativa duas modalidades de comercialização para verificar os ganhos.

Exemplificando de forma simples: unidade armazenadora de 100 mil sacas, que equivale a um valor armazenado de R$ 13 milhões (soja a R$ 130,00/saca em Sorriso/MT em setembro de 2020). A diferença da forma de modalidade é de 8%, e o ganho chega a R$ 1,04 milhão. Então, estimando um investimento de R$ 6 milhões em armazenagem (equipamentos de armazenagem, civil, elétrica), na primeira armazenagem, já se tem 17% de retorno, fora as demais vantagens mencionadas.

Sem depender de terceiros

Outro ganho relevante é deixar de pagar a terceiros as taxas cobradas para receber, limpar, secar e armazenar a produção, que, somadas, podem chegar a patamares de até 25% do volume entregue. Aplicando este percentual sobre a sua produção, são atingidos valores elevados. Manter a qualidade final do produto (grãos) – sem contaminações, grãos avariados (ardidos, mofados, fermentados e queimados) e pragas no momento da comercialização – agregará maior valor ao destino final – indústrias de alimentos, fábricas de ração, indústrias de óleo, entre outros.

E, no momento de comercialização, ter a decisão a seu comando também contribui para a rentabilidade, pois os valores durante um período de venda têm variações tanto positivas como negativas. Mas, com a guarda de sua safra, consegue- se, por meio de consultorias, projetar qual o melhor momento para a venda. Isso também reduzirá os custos de fretes, que se valorizam no pico da safra, sendo que, após o escoamento desta, voltam a uma estabilização. E, ainda, o produtor poderá prestar serviços de limpeza, secagem e armazenagem para terceiros.

Importante mencionar um item fundamental para se alcançar os objetivos anteriores. Saber fazer uma gestão empresarial do negócio, ou seja, todo o processo que antes era terceirizado, agora, será de responsabilidade do produtor – administração, custos operacionais, recursos humanos, suprimentos, contratações, manutenção e outros.

Da mesma forma, os cuidados com as perdas qualitativas e quantitativas. Para evitar, o produtor terá que buscar conhecimentos por meio de sua capacitação e de seus colaboradores para ter condições técnicas de receber a safra, classificando e realizando os demais processos operacionais, como limpeza, secagem, armazenagem expurgos e conservação, para manter o padrão de qualidade quando do recebimento na unidade.

Em relação ao quantitativo (peso), envolve a rentabilidade financeira de forma direta, pois o produtor comercializa seu produto por peso. Os parâmetros de comercialização de teor de umidade do grão são 14% B.U. (teor de umidade real do produto). Ao entregar com percentual acima, haverá descontos, e, com umidade inferior, por ter menos peso, perda da remuneração. Exemplificando: para uma capacidade de armazenagem de 100 mil sacas de soja, com armazenagem inicial com 14% B.U. e unidade de comercialização com 13,50% B.U., a diferença de 0,50% representa, em peso, uma perda correspondente a 580 sacas, equivalente a R$ 75.400,00 (base MT, R$ 130,00 a saca em setembro de 2020).

Aplicação das novas tecnologias

Dominar todo o processo de conservação de grãos é o grande desafio para contribuir na viabilização do investimento. Para alcançar o objetivo, o armazenador necessita aplicar as novas tecnologias no processamento dos grãos, como termometria digital com monitoramento a distância, sistema de exaustão, secadores com controle automatizado, máquinas de processamento de grandes capacidades, energias alternativas (usinas fotovoltaicas) para redução de custos de energia elétrica, capacitação, manutenção preventiva, informatização de controles, sistemas operacionais automatizados, entre outros.

Com um déficit de armazenagem de 88 milhões de toneladas, ainda haverá muito trabalho e desafios. É preciso diminuir este volume a partir da construção de muitos armazéns e silos, considerando uma média crescente da safra de 4,80% ao ano, contra a média de implantação de armazéns de 2,60%. Dessa forma, é de fundamental importância a disponibilização, pelo Governo, de linhas de créditos com juros atrativos aliada ao comprometimento dos fabricantes do segmento em desenvolver equipamentos específicos a custos viáveis para pequenos e médios produtores. O Brasil é uma potência agrícola em desenvolvimento, e é preciso alinhar os objetivos para que esta trajetória de conquistas seja sustentável e rentável para todos os participantes.