Palavra de Produtor

ESTOQUES DE ALIMENTOS

Custaria caro para o Governo Federal manter estoques de alimentos? Essa súbita elevação dos preços do arroz não foi prevista? Quais foram os fatores que concorreram para que o abastecimento do produto chegasse a essa situação? Foi e é historicamente estudado o impacto provocado nas mudanças alimentares, desde quando o homem se fixou em núcleos urbanos, deixando de ser coletor de alimentos. Da Mesopotâmia há os registros em tablitas, feitos por escribas, sobre a guarda de grãos que havia nesses reinados. Segurança alimentar é uma necessidade para os governantes de que não ocorrerá tensão social.

O Brasil, nas décadas de 1970/1980, tinha política pública para a formação de estoques reguladores e adaptou às circunstâncias internas algo que era feito com maior amplitude, tanto pelos Estados Unidos como pela Europa, com montanhas de trigo, milho, manteiga e carnes armazenadas. Aqui eram guardados arroz, feijão, milho, trigo e carne bovina em uma rede de armazéns pública/ privada. A aquisição desses produtos era feita pela Companhia de Financiamento da Produção (CFP), pela Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal) e pelo Ctrin, departamento do Banco do Brasil. Hoje, o órgão encarregado dessa área é a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No Rio Grande do Sul, pela importância estratégica para sua economia, o estado estruturou o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), que atua fortemente nesse subsetor.

A Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM) tinha duas finalidades básicas: garantir preço mínimo ao produtor, que cobrisse seus custos de produção; e formar estoques que permitissem ao Governo intervir nos mercados em eventual desabastecimento ou em súbitas elevações de preços, os quais viessem provocar pressões inflacionárias. Como é a situação de momento? A visão distorcida que a máquina brasiliense tem da agropecuária, com sua visão urbana, levou a este atual quadro de estupefação. O que é possível fazer? Pouco, muito pouco! O Governo Federal não dispõe de alimentos armazenados, e, no momento, eventuais intervenções serão cosméticas.

De maneira oposta, na China é tão relevante a questão de estocagem estratégica de alimentos que tais informações são mantidas fechadas a sete chaves, como no presente caso do abastecimento interno de carne suína, em decorrência da Peste Suína Africana (PSA), que dizimou seus rebanhos. Especula-se quanto de seus estoques foram colocados no mercado para suprir a demanda interna e diminuir os impactos nos preços pagos pelos consumidores.

Atualmente, há poucos recursos nas rubricas do Orçamento Geral da União para a execução de uma política de aquisição de grãos para 2021. A visão neoliberal cunhou tais rubricas como despesas, e não como investimentos. Como se vê, a esperteza um dia acaba em desfavor do povo e dos governantes. O atual repique inflacionário é o sinal. A burocracia estatal conta com os favores do clima para ajudá-la a vencer esse desafio presente. Será que poderá contar? A ela, deve ser lembrada a fábula da Cigarra e da Formiga, de Esopo. É necessário produzir para consumir nos invernos. O Governo Federal precisa agir, olhando principalmente para a produção de arroz do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, sob pena de se transformar em mero espectador na oferta e nos preços praticados desse produto de amplo consumo popular.

Engenheiro-agrônomo, produtor de soja, milho e gado em Nova Maringá/MT, especialista em Administração de Empresas, autor do livro Reflexões de um Alemão Cuiabano