Na Hora H

O MOMENTO DIFÍCIL DO PAÍS NÃO PODE ATINGIR A ÁREA DE PESQUISA

Após tantos anos de desgovernos, para não dizer desmandos, roubalheiras, descalabros no conceito de todo o tipo de seriedade exigida na condução da administração pública, o “déficit público” se encontra na órbita dos R$ 5 trilhões. E, agora, impulsionado pela pandemia que atingiu a todos os países, não só com suas mortes, como também por um terrível desgaste econômico e social que afetou toda a humanidade, e que proporciona ao Brasil, como resultado mínimo, um endividamento obrigatório de mais de R$ 1 trilhão, que eleva forçosamente a dívida pública do País ao inimaginável valor de R$ 6 trilhões. Dívida que, logicamente, teremos de pagar, mesmo com sacrifício de muitas iniciativas governamentais que possam alavancar o crescimento deste País, tão desejado. Este sacrifício, evidentemente, deverá atingir a muitos setores, hoje tão importantes para amenizar as consequências dos efeitos dos dois desastres anteriormente mencionados.

É nesta hora que vamos conhecer a competência de quem nos governa, especialmente em suas estratégias para garantir a recuperação mais rápida de um país que foi inegavelmente massacrado. É evidente que saúde, educação, segurança e emprego são áreas que não podem deixar de receber as devidas atenções. Todas elas vão exigir gastos de grande monta, cujos resultados não são imediatos. Só virão se forem bem e adequadamente tratados a longo prazo.

O País já demonstrou, nestes últimos 40, 50 anos, que tem capacidade de mobilizar de forma adequada e inteligente os seus recursos naturais, com garantia de alta sustentabilidade e com capacidade competitiva que já dominou o mercado internacional, especialmente na área de alimentos. Isso não foi nenhum milagre. E, sim, as decisões claras, estratégicas e definitivas dos governos que tiveram a visão de usar e construir a primeira agricultura tropical sustentável que o mundo tem. Os resultados estão aí, não necessitam de mais explicações.

Os investimentos em ciência, tecnologia e inovação, num país com tamanha variedade e quantidade de recursos naturais como o Brasil, não podem prescindir de recursos em projetos sérios, definidos e objetivos, cujo resultado possa trazer, a curto prazo, a garantia da manutenção de nossa capacidade competitiva, que não é nem será indefinida se não tivermos condições de continuidade do que vem sendo feito até hoje. Especialmente agora, quando enxergamos, a curto prazo, que o País tem imensas possibilidades de, por meio de uma bioeconomia, dar um novo salto em seu sistema produtivo e, ao mesmo tempo, se libertar das dependências de produtos químicos elaborados por uma indústria que ainda não temos aqui, e que, nos dias de hoje, nos faz dependentes.

É por isso que chamamos a atenção da necessidade e da coragem heroica de nossos governantes de definir claramente a prioridade de investimentos em nossa Embrapa, cujo passado demonstra competência. As nossas instituições estaduais de pesquisa agropecuária – hoje em estado de penúria – não devem nem podem ser abandonadas, e não só pela tradição que construíram ao longo da vida nacional como pioneiras na busca da ciência para o setor agrícola. Assim como as nossas universidades ligadas ao campo, algumas sendo exemplo de repercussão internacional e que estão trazendo à comunidade brasileira os melhores cientistas para o desenvolvimento; e as instituições privadas, hoje crescentes, com indiscutível participação no desenvolvimento científico de nossa reconhecida agropecuária.

Aí estão, sem dúvida, as prioridades que, entendemos, darão os mais rápidos resultados à recuperação econômica, social e ecológica que necessitamos. Contamos, seguramente, com a classe produtora, já reconhecida em todo o mundo, que será capaz de absorver os conhecimentos aqui gerados e transformá -los em produto real e competitivo, e que dará ao País os mais rápidos recursos que este necessita.

Engenheiro-agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura