Herbert & Marie Bartz

MEMÓRIAS DE BARTZ: VIAGENS DA JUVENTUDE – FRONTEIRAS AO NORTE (IV)

Seguimos relatando os contos da viagem pelos países nórdicos de Herbert Bartz com seu amigo na juventude, trazendo, a cada episódio, novas surpresas e experiências... Herbert Bartz: “Após a calorosa hospitalidade do veterano de guerra, seguimos viagem remando pelos lagos da Finlândia em direção ao nosso próximo objetivo, que era a visita numa ilha onde uma grande família finlandesa tinha um sommer haus (casa de verão). Nos dias seguintes, vencemos grandes distâncias porque o vento estava favorável, o que, em determinados momentos, fez com que nossa pequena segel (vela) movesse o nosso caiaque bastante rápido. No entanto, em outros momentos, o vento virava, e éramos obrigados a remar até por 14 horas por dia, o que fez com ficássemos ainda mais famintos, devido ao gasto de energia remando. E isso fez com que nosso estoque de alimentos chegasse a quase zero.

Numa quinta-feira, acabamos parando numa ilha que pertencia a um senhor de meia idade que, junto com sua família, cuidava de um plantel de gado leiteiro. Estávamos com muita fome e queríamos comprar leite. Uma das filhas do senhor foi buscar um meio balde de leite recém-ordenhado, que acabamos por bebê-lo todo ali mesmo, em poucos instantes. A fazenda estava no meio da heu ernte (colheita/corte de feno), mas uma peça da segadeira Massey Harris de tração animal estava quebrada e o serviço, parado. Olhei o problema e perguntei ao senhor se ele tinha uma furadeira. Ele tinha apenas um manual. Após algumas horas, consegui fazer quatro furos e rebitar, com pregos cortados, a peça que estava quebrada. Já era noite quando consegui terminar o conserto da segadeira.

No dia seguinte (lembrando que as noites lá têm de quatro a cinco horas), colocamos um dos cavalos para puxar a segadeira. Esta começou a cortar o capim, a colheita do feno continuou e nós acabamos ficando para ajudar. O conserto funcionou bem, mas sempre após uma hora de serviço eu tinha que rebater os rebites feitos de prego. Acabamos cortando capim o dia todo trocando os cavalos a cada três horas. Ao final de dois dias, tínhamos conseguido cortar o lote todo de quase seis hectares.

O fazendeiro ficou muito feliz com o trabalho que desempenhamos e acabou organizando, no final do segundo dia, um baile com três músicos tocando e convidando jovens da vizinhança. Dançamos até de madrugada... No dia seguinte, acordamos cedo para preparar o caiaque e seguir a viagem. O dono da fazenda se ofereceu para transportar nós e o caiaque para um lugar do outro lado da ilha, de onde, conforme o nosso roteiro, chegaríamos a uma outra ilha a 80 quilômetros, que é a ilha com a casa de verão da família da moça que conhecemos na travessia de Estocolmo, na Suécia, para Turku, na Finlândia.

A família do senhor fazendeiro ainda nos tinha dado para a viagem meia dúzia de pães. No caminho para a outra ilha, acabamos colocando pedacinhos de pão no anzol que tínhamos e conseguimos facilmente pescar alguns peixes, que mordiam a isca de pão, para a nossa refeição. O trabalho mais demorado era conseguirmos fazer fogo sobre as rochas de granito, onde assávamos os peixes depois que tínhamos varrido/tirado as cinzas das pedras. Os finlandeses são grandes consumidores de peixe. No país dos mil lagos há peixes em abundância e diversidade.

Acabamos nos surpreendendo com as inúmeras formas que preparam os peixes, que, por sinal, é um de meus alimentos preferidos. As variações de fritar e grelhar o peixe superam a nossa imaginação. E o mais rápido a fazer eram as sopas preparadas com os diversos peixes, que lembravam muito a minha mãe. Ela sabia fazer uma deliciosa sopa de carpa e sempre nos contava, quando éramos crianças, como eram saborosas as sopas feitas de piranha e de bagre, que ela fazia nos tempos vividos no Brasil. Mas, voltando à viagem, a nossa maior preocupação no momento era como chegaríamos com roupa razoável/decente à ilha da grande família finlandesa, que tinha convidado esses dois viajante canoeiros para a sua casa de verão”. Continua na próxima edição...

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo, pesquisadora na Universidade de Coimbra