Especial Campeões da Soja

Vitórias da simplicidade e do CAPRICHO

Para produzir bem e bastante – atingir as chamadas “altas produtividades” – tem que investir pesado, gastar muito, adquirir insumos de ponta e altamente tecnológicos, utilizar uma máquina que custou milhares de reais e que só funciona se conectada a um satélite. Na prática do cotidiano do campo, isso se chama: fake news. Pelo menos não foi a realidade dos campeões brasileiros de produtividade de soja da 12ª edição do Desafio Nacional de Máxima Produtividade de Soja, evento promovido em 2019/2020 pelo Comitê Estratégico de Soja Brasil (CESB), que mobilizou mais de 5 mil produtores de todas as regiões. Foram três campeões regionais – Centro -Oeste, Sudeste e Norte/Nordeste – e um na modalidade Irrigado, além do campeão nacional, que, por ser do Paraná, também foi considerado o campeão da Região Sul.

As razões e as explicações que levaram esses produtores às conquistas estão descritas nesta edição, em artigos de integrantes do CESB, a seguir, e na seção O Segredo de Quem Faz, nas páginas anteriores, em que o produtor paranaense Laércio Dalla Vecchia relata as razões – e ações – que o levaram a obter a primeira colocação, com produtividade de 118,82 sacas/hectare. Todos os relatos têm um ponto crucial em comum: as altas produtividades foram obtidas a partir da implementação de um manejo simples e de conhecimento de todos. Nenhum milagre, nenhum investimento vultoso. Simplesmente o “básico bem-feito”. “Até pouco tempo, pensava que bastava investir em produtos. E esse não é o caminho. É preciso investir em princípios. São práticas consolidadas e que, muitas vezes, nós, produtores, acabamos deixando de lado”, sintetiza o campeão Dalla Vecchia.


Centro-Oeste: PLANEJAMENTO e manejo assertivo

O produtor mato-grossense Elton Zanella é tricampeão do Desafio, e, em todas estas três edições, a média da área de 230 hectares foi acima de 85 sacas/ha

Dr. João Pascoalino, coordenador técnico e de Pesquisa do CESB

O campeão de produtividade do Centro-Oeste na safra 2019/2020 foi o produtor Elton Zanella e o consultor e engenheiro-agrônomo Alfeu Volf Junior. A produtividade campeã foi de 103,19 sacas/hectare, obtida em um sistema de produção de sequeiro na fazenda Zanella, situada em Campos de Júlio/MT.

Vale destacar que o produtor já é tricampeão do Desafio Nacional de Máxima Produtividade de Soja. E, em todas as edições nas quais foi campeão, a média produtiva da área total (de 230 hectares) estava acima de 85 sacas/ha, sendo essa produtividade aproximadamente 52% maior que a média produtiva registrada para a região Centro-Oeste. Dessa forma, caracterizando ambiente de alta produtividade e, ao mesmo tempo, estabilidade produtiva.

O sucesso do produtor, na ótica produtiva, está vinculado a vários fatores, que compreendem desde o planejamento da safra até o momento da colheita. No entanto, quando estudamos um pouco mais a fundo o ambiente de produção, notamos que o clima foi favorável, tendo temperatura dentro do ideal e precipitação em quantidade e bem distribuída durante todo o ciclo da cultura da soja. Somado a isso, há um manejo assertivo e de alta efetividade para o aproveitamento dos recursos essenciais para desenvolvimento e crescimento das plantas.

Especial

Produtor Elton Zanella: o segredo das altas produtividades está associado com o sistema produtivo como um todo

Nove culturas no sistema

Nesse contexto, podemos destacar o sistema de plantio direto e a rotação de culturas, sendo que, nos últimos cinco anos, a safra utilizou nove culturas no sistema. O sucesso do produtor também veio da utilização expressiva de corretivos e condicionadores de solo, um perfil do solo bem estruturado, sem impedimento físico e químico, biologicamente ativo e com sementes de qualidade, com germinação e vigor acima de 90%.

A qualidade de semeadura também influenciou na alta produtividade, com plantabilidade superior a 85% com plantas normais e, ainda, a nutrição de plantas com adubação de base e foliar obedecendo à necessidade e à lógica de aproveitamento da planta e a condução da lavoura, configurando um manejo nutricional e fitossanitário, adotando uma filosofia de trabalho preventivo associado com produtos de primeira linha e tecnologia de aplicação, assim obtendo sempre a melhor performance dos produtos aplicados.

Em suma, o segredo das altas produtividades está associado com o sistema produtivo como um todo, exigindo do produtor planejamento e conhecimentos prático, científico e tecnológico. Dessa forma, possibilita a sustentabilidade e a rentabilidade da sojicultura no Brasil, sendo um case de sucesso os campeões de produtividade do Centro-Oeste.


Irrigado: AMBIENTE de produção estruturado

A lavoura do gaúcho Eliseu José Schaedler, com produtividade de 111,93 sacas/ha, teve seis culturas rotacionadas nas últimas safras

Dr. Paulo Cesar Sentelhas, membro efetivo do CESB, professor titular da Esalq/USP, pesquisador do CNPq e CTO da Agrymet

O Desafio Nacional de Máxima Produtividade de Soja do CESB, na edição da safra 2019/2020, teve como campeão da categoria irrigado o agricultor Eliseu José Schaedler, de Boa Vista das Missões/RS, assistido pelo consultor engenheiro-agrônomo Felipe Arthur Baron. A produtividade obtida na área de Schaedler, auditada pelo Cesb (em 3,9229 hectares), chegou à expressiva marca de 111,93 sacas/hectares. Essa lavoura estava situada sob um sistema de irrigação do tipo pivô central, com uma área total de 54 hectares, na qual a produtividade média foi de 102,3 sacas/ ha, valor igualmente expressivo.

O êxito do produtor foi obtido em função de uma série de fatores, e não apenas pelo fato de a área ser irrigada. Logicamente, a irrigação bem manejada contribuiu para esse elevado nível de produtividade. Ao longo do ciclo da cultura da soja, foram aplicados 129 milímetros de água em 13 aplicações, sendo 81 mm na fase vegetativa e 48 mm na fase reprodutiva. Somando-se às chuvas, a cultura teve ao seu dispor 693,2 mm de água, o que foi muito próximo da condição ideal.

Além da irrigação, um outro fator decisivo para a alta produtividade alcançada foi o bom manejo da área em questão, a qual é conduzida no sistema de plantio direto e teve, ao longo das últimas safras, seis tipos distintos de culturas rotacionadas (soja, aveia-preta, aveia ucraniana, aveia-branca, nabo forrageiro e milho), além da correção química do solo. Isso propiciou um excelente ambiente de produção dos pontos de vista físico, com perfil profundo; químico, com níveis de cálcio, especialmente, elevados em profundidade; e biológico, propiciando um índice de qualidade do solo (IQS) de 4,81, muito próximo do ideal, de 5.

A cultivar empregada foi a Brasmax Zeus (GM 5.5), cujas sementes apresentaram elevado vigor (84,3%) e porcentagem de germinação (90%). A semeadura foi realizada em 19/10/2019, obtendo-se uma população de cerca de 243 mil plantas/ hectare, com 12,3 plantas por metro linear, considerando-se o espaçamento de 50 centímetros entre linhas. O tratamento das sementes se deu na fazenda, sendo empregado Biozime e CO-MO, esse último aplicado novamente em V3. A adubação se deu na pré-semeadura, com superfosfato simples e KCl, e na semeadura com NPK (7-33-12).

Especial

Produtor Eliseu José Schaedler: além da irrigação, a alta produtividade foi alcançada a partir do bom manejo da área

Ao longo do ciclo, foram realizadas quatro pulverizações com inseticidas e seis com fungicidas, de modo a garantir a sanidade das plantas. O ciclo da cultura atingiu 146 dias, e as plantas tiveram, em média, 130,2 grãos, com um peso médio dos grãos (PMG) de 218,7 g, o que resultou na produtividade de 111,93 sacas/hectare.

Planejamento, conhecimento e trabalho árduo

Assim, vemos que o sucesso obtido pelo produtor se deveu à boa estruturação do ambiente de produção; ao ajuste do genótipo, da população de plantas e do arranjo espacial de acordo com a realidade local; à qualidade das sementes utilizadas e das práticas agrícolas, incluindo a tecnologia de aplicação; e à irrigação, que evitou que a cultura sofresse com o intenso déficit hídrico que se estabeleceu na região, especialmente na fase vegetativa. Portanto, o caminho para as altas produtividades não é trivial e exige planejamento, conhecimento e trabalho árduo.


Norte/Nordeste: “O que se planta, se COLHE”

Clima, aporte de matéria orgânica e qualidade das práticas agrícolas colaboraram para que o Condomínio Milla, do Piauí, alcançasse 101,8 sacas/hectare

Sergio Abud da Silva, biólogo, supervisor de Transferência de Tecnologia Embrapa e membro efetivo do CESB

A campeã do Desafio Nacional de Máxima Produtividade de Soja do CESB 2019/2020 da região Norte/Nordeste foi a fazenda Condomínio Milla, de Baixa Grande do Ribeiro/PI, com uma produtividade de 101,8 sacas/hectare, em 2,6 hectares auditados. O Condomínio Milla é constituído pela família Milla, com o pai e três filhos, aqui representados pelo filho Robert Milla e seu consultor, o engenheiro-agrônomo Luiz Gabriel de Moraes Junior.

Lavoura da Família Milla teve eficiência econômica com retorno econômico de R$ 3,2 para cada R$ 1,00 investido

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Localizada numa região conhecida como Serra Grande, a fazenda tem 35 mil hectares, cultiva 21,6 mil, sendo 15 mil com soja. A área recordista já é cultivada há 15 anos, rotacionando milho, milheto e soja. Nas últimas duas safras, cultivou-se o milho em segunda safra. Historicamente, a região tem temperaturas altas e distribuição de chuva irregular. A temperatura é fator determinante, e a água, fator limitante de produtividade. Nesta safra, a chuva se iniciou tarde e atrasou o plantio (19/11/2019). Choveu pouco na fase vegetativa (65 milímetros) e, na fase reprodutiva, foi bem distribuída e acumulou 742 mm.

A área recordista tem um solo bem estruturado (IQS 5,01), sem restrição química e física, e com ótima qualidade biológica. Em 2017, incorporou-se 3,5 toneladas de calcário dolomítico e duas toneladas de gesso, seis meses antes do plantio. A estratégia foi melhorar o perfil e produzir palhada em superfície e raiz no solo, com o objetivo de aumentar a retenção da umidade e possibilitar maior absorção de água e nutrientes. Esse manejo contribuiu para um bom desenvolvimento das plantas e para o histórico crescente de produtividade no talhão, que atingiu 82 sc/ha na última safra.

A cultivar Bônus IPRO foi semeada com plantadeira pneumática de disco, em linhas espaçadas de 50 centímetros. A semente tinha 93,5% de germinação e 91,5% de vigor, resultando numa população final de 310 mil plantas/ha. A adubação foi feita a lanço, 90 dias antes do plantio, com Fertgrow (00-18-17).

91% de eficiência agronômica

Produtividade é igual ao número de grãos x o peso dos grãos. Com o manejo descrito anteriormente, a Bônus produziu uma média de 2,5 grãos/vagem e peso médio de mil grãos de 234,3 gramas, o que resultou na produtividade recorde de 101,8 sc/ha. Para atingir essa produtividade, a lavoura foi muito bem conduzida, atingindo 91% de eficiência agronômica, que minimizou o impacto da eficiência climática de 71%.

A eficiência econômica também foi fantástica: para cada R$ 1,00 aplicado, obteve-se um retorno de R$ 3,2. Quando perguntamos aos produtores e ao consultor o que realmente fez a diferença na condução da lavoura, eles responderam que foi o clima, o aporte de matéria orgânica no solo e a qualidade das práticas agrícolas empregadas na lavoura. Realmente, “o que se planta, se colhe”.


Sudeste: CONSTRUÇÃO do ambiente de produção

O mineiro Antônio Guedes de Oliveira Neto obteve para o Desafio 118,63 sacas/ha, num talhão de 108 hectares cuja produtividade média foi de 88 sacas

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Nos últimos cinco anos a lavoura campeã de Antônio Guedes de Oliveira Neto, ao centro, teve seis cultivos: café, soja, milho, crotalária, trigo e milheto

Mestre Breno Henrique Araújo, membro efetivo do CESB e consultor sênior e coordenador de cursos do Grupo Rehagro

O Desafio Nacional de Máxima Produtividade do CESB, na edição da safra 2019/2020, teve como campeão na região Sudeste na categoria sequeiro o produtor Antônio Guedes de Oliveira Neto, juntamente com o seu consultor Clovis Ney da Silva. A fazenda Segredo está situada no município de Patrocínio/MG, na região do Alto Paranaíba. A área auditada pelo CESB (3,0569 ha) chegou à incrível produtividade de 118,63 sacas/hectare, situada em um talhão de 108 hectares, no qual a produtividade média foi de 88 sacas/ha

No início da safra, as chuvas demoraram a se regularizar, houve atraso de semeadura na região, e as primeiras áreas que foram semeadas no início do mês de outubro sofreram com esse cenário. Porém, durante todo o desenvolvimento da cultura da soja nesse talhão, plantado nos últimos dias de novembro, choveu 1.286,2 milímetros, sendo o total de chuva no vegetativo e no reprodutivo equivalente a 608,6 mm e 677,6 mm, respectivamente. Tal valor trata-se de um bom índice pluviométrico – e o mais importante, bem distribuído, com ligeiras exceções em janeiro e fevereiro, que apresentaram alguns dias nublados e com excesso de chuva.

O tempo de cultivo do talhão é de 35 anos, sendo 30 destes com café. Nos últimos cincos anos, o talhão teve o cultivo de seis culturas diferentes (café, soja, milho, crotalária, trigo e milheto), o sistema de plantio direto foi implantado com a rotação das espécies citadas anteriormente.

Tal fato, integrado com o manejo correto do solo, propiciou um ambiente favorável para altas produtividades, visto que foi construída a fertilidade do solo ao longo do perfil, com presença de teores elevados de cálcio em profundidade e ausência de alumínio até dois metros. A área também apresentou ótimas condições físicas, com níveis adequados de resistência à penetração de até 60 centímetros. Portanto, esse solo não possui barreiras química e física para o crescimento das raízes.

O plantio foi realizado no dia 28/11/2019, a cultivar utilizada foi a BMX Desafio RR. O produtor Antônio Neto adquiriu sementes de alta qualidade, com vigor de 95% e germinação de 90%. O estande obtido foi de 327.333 plantas/ha, com 16,4 plantas por metro linear e espaçamento de 50 cm.

Semente com cobalto e molibdênio

O tratamento de sementes foi realizado na fazenda, usando fungicidas, inseticidas, inoculantes e cobalto + molibdênio. Na adubação de semeadura, aplicou-se 450 quilos do formulado 04-30-16 + B e Zn, e, um dia após a emergência, foi aplicado a lanço 80 kg/ ha de KCl. Durante o ciclo da soja, foram realizadas quatro aplicações de fungicida e quatro de inseticida, com o objetivo de proteger a cultura ao longo de todo o desenvolvimento. O ciclo da leguminosa alcançou 130 dias, e as plantas apresentaram, em média, 111 grãos e um peso de mil grãos de 201,4 g.

É notório que o sucesso obtido pelo agricultor Antônio Neto trata-se da integração de inúmeros fatores. Pode-se destacar os seguintes: a construção do ambiente de produção ao longo dos anos, o posicionamento correto do material genético, a precisão na semeadura, a proteção das plantas durante todo ciclo e a ótima qualidade das operações de modo geral.