Água

PRESERVAR para não faltar

Diferentes práticas e ferramentas podem ajudar os produtores no processo de conservação dos recursos hídricos nas propriedades

Denise Saueressig [email protected]

Tão importante quanto contar com a água disponível para o desenvolvimento adequado das plantas são as práticas de proteção desse valioso e insubstítuível recurso. Especialistas concordam que a sustentabilidade hídrica passa necessariamente por uma visão geral do sistema e que considere o manejo nos diferentes processos adotados nas propriedades.

As ferramentas estão interconectadas, se complementam, frisa o geógrafo e extensionista rural Gabriel Ludwig Katz, coordenador da Área de Saneamento Básico da Gerência Técnica da Emater/RS. “As boas práticas de uso e conservação de solo – que incluem medidas como plantio em nível, plantas de cobertura, proteção de encostas e recomposição de matas ciliares – contribuem também na preservação da água. O que se pretende é evitar a compactação do solo para que a água possa infiltrar e abastecer os aquíferos”, argumenta.

Embora a programação de atividades tenha sido afetada devido à pandemia da Covid-19, é crescente a demanda de produtores por capacitação voltada a ações de preservação da água, informa o geógrafo da Emater. A maior procura também é observada em anos como este, em que o Rio Grande do Sul enfrentou uma séria estiagem. O trabalho envolve, por meio de programas coordenados por secretarias estaduais, orientação para a construção de microaçudes, barragens e cisternas, assim como a instalação de projetos de irrigação e de poços tubulares. Em julho, o governo gaúcho anunciou R$ 55,1 milhões em recursos para o enfrentamento à seca e mitigação dos problemas causados pelos meses de falta de chuva.

Os extensionistas da Emater também colaboram para iniciativas de conservação de cerca de 1,2 mil nascentes a cada ano. Além da recomposição da vegetação no entorno dessas fontes, a prática inclui o cercamento da área e uma pequena estrutura de captação de parte da água e de proteção de contaminantes. “Ensinamos como é possível instalar o sistema com materiais existentes na propriedade”, descreve Katz. Como esses locais são considerados Áreas de Preservação Permanente (APPs), o trabalho é amparado por resolução do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), que permite a atividade e caracteriza a mesma como de baixo impacto ambiental, de interesse público e benefício sanitário.

Revitalização

No estado que lidera a produção agropecuária no País, o Projeto Guardião das Águas, da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja/MT), promove, desde 2018, identificação, diagnóstico, orientação e regularização de áreas de nascentes. O diretor administrativo da associação, Lucas Costa Beber, informa que a iniciativa mapeou 26 municípios e identificou 41.548 dessas fontes até junho deste ano. “Em média, 95% das nascentes localizadas em áreas agricultáveis estão conservadas”, cita.

Segundo o dirigente, a ação faz parte de um projeto maior e que envolve a sustentabilidade de todos os processos das propriedades. Um dos exemplos é o Programa Soja Plus, que considera aspectos ambientais, sociais e econômicos. “Queremos mostrar à sociedade que o produtor trabalha com responsabilidade ambiental. Mantemos parcerias com instituições e aproximação com outros países para que, futuramente, o produtor possa receber remuneração pela preservação”, destaca.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) criaram, em 2015, o Programa Nacional de Proteção de Nascentes com o desafio de revitalizar mil fontes em todo o País. A meta foi ultrapassada, chegou a 1,7 mil, e o programa se tornou um curso que já soma mais de 30 mil participantes.

O treinamento gratuito e realizado à distância tem dez horas de aulas e pode ser finalizado em 14 dias. O primeiro módulo aborda a importância da propriedade rural na produção e na preservação de água, enquanto a segunda etapa ensina a proteção das nascentes em cinco passos: identificar, cercar, limpar, controlar a erosão e replantar espécies nativas. “A relação custo-benefício é sempre vantajosa para o produtor, sobretudo para aqueles que enfrentaram alguma dificuldade com a água e conseguem perceber as mudanças no sistema pela maior infiltração no solo”, aponta o coordenador de projetos da Diretoria de Assistência Técnica e Gerencial do Senar, Alexandre Gessi. O dirigente ressalva que a melhoria geral da condição hídrica da propriedade depende de um manejo adequado das áreas produtivas e que envolvem outras técnicas conservacionistas, como o plantio direto, por exemplo.

Mais água e menos erosão

O engenheiro-agrônomo Luciano Cordoval de Barros, da Embrapa Milho e Sorgo, reforça esse pensamento, lembrando que a proteção de nascentes é importante, mas não resolve o problema da sustentabilidade hídrica. “É preciso mexer no entorno da bacia para fazer a água infiltrar e chegar até a nascente. É um trabalho amplo, não é só cercar o olho d’água. É preciso trabalhar a bacia toda para conservar o solo”, salienta.

Cordoval é o idealizador do Projeto Barraginhas, que são estruturas que retêm as enxurradas e fazem a água da chuva se infiltrar no solo, ajudando na recarga dos lençóis freáticos, que abastecem nascentes, córregos e rios. O benefício é duplamente sentido, já que, além de aumentar a disponibilidade de água na propriedade, o solo é preservado dos efeitos da erosão causada pelas enchentes. “Toda a produção que estiver no entorno dessa área vai agradecer”, resume. “Em cinco meses de chuva, uma barraginha pode encher umas dez vezes, ou seja, vai jogar no lençol freático o equivalente a dez lagos”, acrescenta.

O ideal é que o próprio produtor indique as áreas mais críticas de inundação para que seja realizada a obra. O mais recomendável é que a terra esteja úmida para facilitar o trabalho. Uma barraginha leva em torno de duas horas para ficar pronta. “O custo é do aluguel das máquinas, ou seja, em torno de R$ 300,00 por duas horas. Se houver parceria com prefeituras, por exemplo, esse valor pode ser reduzido para R$ 100,00”, descreve Cordoval. As pequenas bacias, em formato de meia lua, podem ter capacidade para 100 mil litros a 200 mil litros.

O idealizador do projeto considera fundamental repassar adiante a tecnologia e, por isso, vem se dedicando ao treinamento de outros profissionais, que ele chama de “clones”. “Em 2002, por exemplo, treinamos 600 técnicos da Emater de Minas Gerais. Agora, também estamos trabalhando em parceria com o Senar nacional”, diz.

Desde o projeto-piloto, há 22 anos em Sete Lagoas/MG, a estimativa é de que em torno de 2 milhões de barraginhas tenham sido construídas em diferentes estados do País. Cerca de 70% das áreas atendidas são pequenas propriedades. Um dos fatores que colaborou para essa disseminação foram as premiações recebidas pela iniciativa e que geraram patrocínio para a expansão em regiões de grande escassez hídrica, como o semiárido.

Práticas remuneradas

Criado em 2001, o Programa Produtor de Água estimula o pagamento por serviços ambientais por ações de conservação de água e solo. A estimativa da Agência Nacional de Águas (ANA) é de que aproximadamente 1,2 mil produtores tenham aderido à iniciativa em uma área correspodente a cerca de 400 mil hectares. “Entendemos que a gestão da água e do solo é indissociável. A forma como o solo é usado poderá ampliar ou não a disponibilidade de água”, justifica o coordenador de Implementação de Projetos Indutores da ANA, Marco Alexandro André.

O funcionamento do programa ocorre por meio de contrato entre uma empresa, prefeitura ou instituição demandante por água em maior quantidade e/ou em melhor qualidade e produtores que se interessem em participar da ação. Embora a média da remuneração seja de R$ 200,00 por hectare, o valor tem variações de acordo com as práticas adotadas. “Percebemos que a consciência dos produtores está mudando. O solo é um bem muito valioso, e perder solo é perder nutrientes e investimento. Tentamos fazer com que se evite a erosão, tanto com práticas de quanto com a recuperação das matas ciliares. É uma forma de o produtor se sentir parte da solução, e não mais do problema”, sustenta o dirigente.

Além do pagamento aos produtores, o programa já beneficiou habitantes das regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Palmas/TO, Rio Branco/ AC, Campo Grande/MS, Goiânia/GO e Brasília/DF. “Um dos nossos desafios é expandir a abrangência do programa, mas entendemos que nem sempre é possível a implementação por limitações de cada local”, menciona André. Ele explica que a ANA não tem envolvimento no pagamento pelos serviços ambientais, mas presta assistência técnica para a execução dos projetos.