Agricultura 4.0

COMO É DIFÍCIL INOVAR NO BRASIL

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A inovação, para muitos, parece um processo místico, abstrato e incompreensível; contudo é uma palavra que nos persegue diariamente, notadamente no mudo dos negócios, uma vez que, com a globalização, as empresas passaram a ser globais e a busca pela “inovação” soa como uma mágica, um “pirlimpimpim” nas corporações, da única saída ou o único caminho para permanecerem ou almejarem crescimento de mercado.

Outra confusão que normalmente as pessoas cometem quando pensam em inovação é que ela está relacionada a um produto, mas ela é muito mais abrangente do que se percebe. Vejamos pela definição onde inovação é, basicamente, criar algo novo e se refere a ideias, métodos ou a um objeto. Inclusive existem várias derivações ou formas de inovação, tais como: inovação do produto, inovação do processo, inovação organizacional, inovação de marketing, inovação afetiva, inovação financeira, inovação empresarial, inovação disruptiva. Ou seja, a inovação pode se apresentar de diferentes formas para nós e se refere a fazer algo diferente daquilo que fazemos, obviamente com benefício

Após essa breve introdução e voltando ao título do texto, no Brasil, parece que existe uma dificuldade maior em se inovar do que em outros países, até mesmo com economias menores que a nossa, inclusive em países da América Latina. Isso se evidencia mais quando olhamos alguns números, como, por exemplo, um cifra que já apresentei neste espaço anteriormente, em outro contexto, referente à nossa posição em publicações científicas e a nossa colocação na inovação mundial. Segundo a National Science Foundation (NFS, dos EUA), o Brasil ocupa a 11ª posição mundial em publicações científicas, à frente de grandes economias, como Canadá, Espanha, Austrália e Holanda, por exemplo. Todavia, quando olhamos o nosso ranking em inovação, estamos na 66ª posição, segundo o Índice Geral de Inovação (IGI) de 2019, publicado pela Universidade de Cornell, atrás de países vizinhos, como Chile, Costa Rica e México. Essa situação nos faz refletir sobre o que acontece: se, de um lado, somos bons em produção científica, por que isso não se reflete em inovação?

Acredito que um dos primeiros pontos a ser analisado diz respeito à nossa própria educação, alicerçada em um modelo tradicional no qual o professor diz o que os alunos devem fazer e eles são avaliados se fizerem aquilo que lhes mandaram fazer. Bom, esse modelo funciona e domina todos os níveis da educação no Brasil nos últimos 100 anos e, sem dúvida, foi importante para criarmos empresas nacionais e instituições hierárquicas, nas quais o chefe diz para o subordinado o que ele tem que fazer e ele executa. Acontece que esse modelo delimitado restringe a criatividade, a iniciativa do indivíduo, a sua preparação para a inovação e, consequentemente, a possibilidade para melhorarmos nela, visto que quem faz a inovação são as pessoas.

Assim, precisamos rever essa forma de aprendizado conteudista e modular e incorporar métodos mais dinâmicos, abertos, que promovam o desenvolvimento de habilidades como autonomia, pró-atividade, colaboração, entrega de resultados, inovação e empreendedorismo. O fato é que essas metodologias existem, entre elas, o aprendizado baseado em problemas (PBL – Problem Based Learning) e a aprendizagem profunda (PL – Profound Learning). É interessante também incorporar metodologias ágeis no ensino, como Scrum, Design Thinking e MVP.

Os especialistas no estudo da inovação colocam outras barreiras para ela no Brasil, além da falta de mão de obra inovativa, que seriam as seguintes: falta de interação dos institutos de pesquisa, universidades e empresas no Brasil, com barreiras jurídicas fortes para isso; carga tributária elevada ou falta de incentivos fiscais; dificuldade de acesso ao crédito; sistema cartorário, burocracia ou “Custo Brasil”; e redução dos investimentos governamentais em ciência e tecnologia.

Claro que cada um desses temas pode render horas de análise e discussão, mas o importante para nós do agronegócio, maior negócio deste País, é que isso nos afeta fortemente, as nossas escolas da área, empresas, produtos, processos, serviços e custos no agro. Precisamos pensar e agir sobre isso!

Engenheiro-agrônomo, mestre e doutor em Produção Vegetal, pesquisador em Nematologia Agrícola e de Precisão em Proteção de Plantas, professor e diretor da Fatec Shunji Nishimura