Herbert & Marie Bartz

MEMÓRIAS DE BARTZ: VIAGENS DA JUVENTUDE – FRONTEIRAS AO NORTE (III)

Espero que os leitores estejam gostando das aventuras e das experiências de Herbert Bartz em sua juventude, que, com certeza, ajudaram a moldar quem ele se tornou na vida adulta. Nesta edição, vamos continuar com mais uma parte da longa viagem, que durou em torno de um mês, de Bartz e seu amigo remando pelos países nórdicos.

Bartz: “A experiência com o temporal fez com que colocássemos mais atenção no tempo, e, quando se formavam nuvens escuras, procurávamos terra firme. Remamos dias, por longas extensões sem ver gente, o que fez com que a nossa reserva de alimentos começasse a ficar pouca, e acabamos por comer somente Hernekeitto –palavra finlandesa para sopa de ervilha –, da qual tínhamos um estoque maior. Aliás, essa sopa é uma paixão nacional. A tradição da sopa de ervilhas é antiga, faz parte da história da culinária finlandesa e, provavelmente, desempenhava um papel importante nos círculos culinários do Norte já na Idade Média.

Por volta do 15º dia, amarramos o nosso bote numa ilha coberta de mato. Entrando no mato, encontrei uma ‘colônia’ de cogumelos, com centenas, de todos os tamanhos. A espécie tinha uma cor marrom-claro, que parecia ser semelhante a uma espécie que minha mãe chamava de Krempling Plize. E eu, mais que depressa, colhi uns quilos desses cogumelos. Fizemos a limpeza e fritamos numa panela com óleo vegetal, que tínhamos em forma sólida no nosso estoque de alimentos, mais sal e pimenta-do-reino moída. O sabor era idêntico ao que conhecíamos de nossa região na Alemanha, e acabamos por preparar uma segunda porção, a qual devoramos imediatamente, porque, depois de dias comendo apenas sopa de ervilhas, esses cogumelos eram um banquete. De barriga cheia e cansados, fomos logo dormir.

As noites de verão no Norte são de poucas horas, e, quando acordei, fiquei aliviado, porque, de fato, os cogumelos eram comestíveis, caso contrário, teríamos tido fortes dores de barriga e vômito. Meu companheiro de viagem ficou extremamente irritado por eu ter externado a minha dúvida apenas no dia seguinte, afinal de contas, poderíamos ter ficado em maus lençóis. Remamos o dia seguinte todo e somente na boca da noite paramos numa ilha com uma pequena casa.

O dono era um senhor, veterano da Guerra Russa-Finlandesa, que gostou de nossa visita. Ele falava um pouco de alemão e de inglês e logo já pôs um pão inteiro fatiado sobre a mesa e, ao lado, um barril de 18 litros com cerveja escura e muito forte, que ele mesmo tinha Gebraut (fabricado) e que fez questão que tomássemos junto. Quando o pão acabou, o senhor, de pronto, buscou um segundo e se divertia com a nossa fome, assim como quando o barril secou, ele providenciou outro e ia enchendo nossos canecos, contando inúmeras histórias de caça, de pesca e da guerra contra a Rússia. Nós três ficamos embriagados e, por volta da meia-noite, ele, sem mais nem menos, buscou um terceiro barril, então acabamos indo dormir somente de madrugada.

Por volta do meio-dia, acordamos e preparamos a nossa saída. Na despedida, ele me deu um presente – um tipo de Spazierstock (bengala) com as iniciais do seu nome K.S. (Kalavi Suihkonen). Essa peça está comigo até hoje, é linda e a mantemos como decoração sobre a lareira de nossa casa. Ela chama a atenção porque vem de uma árvore que cresceu na Lapônia, e o que causa as más-formações visíveis na bengala – porque ela é toda cheia de nós e protuberâncias – ainda é um mistério. Meu amigo ganhou e guardou o chifre de um Ren Tier (rena).

Antes de entrarmos em nosso Kajak (caique) para seguir viagem, o senhor ainda nos fez um grande peixe frito sobre brasa. Nos sentimos um pouco culpados por não poder retribuir à altura tanta generosidade e hospitalidade. Nosso próximo objetivo era visitar uma ilha onde uma grande família finlandesa tinha um Sommer Haus (casa de verão) com sauna. Conhecemos a filha do dono e sua amiga na travessia de Estocolmo (Suécia) para Turku (Finlândia), quando, no ferry-boat, passamos a noite dançando”. E continua na próxima edição...

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo, pesquisadora na Universidade de Coimbra