Na Hora H

O QUE NOS ESPERA NO PÓS-PANDEMIA

Se formos pessimistas, vamos olhar só para o lado dos estragos na nossa economia, na qual já se está prevendo mais R$ 1 trilhão de déficit público em 2020. Realmente, é preocupante que, com o inevitável crescimento das dívidas dos estados, dos municípios e, principalmente, das estatais – das quais nem todas as caixas- pretas foram abertas ainda. E, com isso, a previsão é que a dívida atual já é de R$ 5 trilhões ou mais.

É triste termos de encarar que esta parte da dívida não foi formada por efeitos pandêmicos ou de qualquer outro sinistro que tenha assolado o nosso País. O sinistro que tivemos foi a irresponsabilidade de sucessivos governos que, administrando mal a nossa economia, atingiram essa dívida estratosférica, que só pode ser explicada pela péssima gestão dos recursos financeiros da União, irresponsavelmente torrados em projetos cujos resultados nunca vimos, a não ser os cemitérios de entulhos que nos envergonham a todos.

Por outro lado, a demagogia, o populismo desenfreado forçou a uma trajetória de gastos inexplicáveis, como a reeleição presidencial que trouxe como consequência a angustiosa corrida para quem conseguisse tirar mais nas tetas da União e colocar em bolsos, cuecas, sacos, caixas de papelão, apartamentos. E, pior ainda, os invisíveis “agrados” de tamanho tão elevado que nem aviões ou caminhões transportariam e que, até hoje, não foram devidamente esclarecidos a nós, humildes contribuintes, que esperávamos e depositamos grandes esperanças na nossa Lava Jato, hoje cerceada pela própria Justiça. Quer pandemia maior que essa?

A verdadeira pandemia também nos deixa mais de 100 mil mortes de nossos irmãos que, mais susceptíveis, foram rapidamente eliminados, deixando- nos a tristeza e a saudade de todos que foram. O desemprego em número incalculável e a quebradeira de milhares de empresas de todos os portes são também um desafio e uma tristeza que temos de encarar. Não é só este horroroso quadro anteriormente descrito que ficou como saldo negativo.

Da mesma forma, temos a certeza de que o mundo não vai parar. Ele pode deixar de usar muitos objetos, costumes, riquezas para alguns, mas vão nos deixar também a certeza que a população mundial não foi dizimada, e que todos terão de comer e, também, evitar o fantasma da fome que pode assolar a tranquilidade, especialmente das nações populosas, cujos recursos naturais (terra, água, plantas, animais etc.) são limitados.

A pandemia deixa também uma outra face de sua crueldade, bem diferente, especialmente as nações que, privilegiadas por Deus, possuem tantos e inesgotáveis recursos naturais, que, também pela graça divina, iluminaram a mente de seus cientistas. Estes, pela primeira vez nos últimos 50 anos, conseguiram criar uma agricultura tropical altamente sustentável e comprovadamente imbatível em qualidade, preço e constância de oferta. Coisa que não existia antes.

A pandemia deixou também uma janela nunca imaginada aos países tropicais, os únicos que são capazes de atender às verdadeiras demandas dos alimentos que vamos consumir. O Brasil não pode, de forma nenhuma, perder essa oportunidade que vinha se esboçando há vários anos, mas que, especialmente agora, confirma com toda clareza o desafio que o nosso País tem. Estamos sendo convocados pelas nossas organizações internacionais a garantir que, dos 61% da necessidade de aumentar da oferta de alimentos até 2050, caberá ao Brasil atender a, no mínimo, 41% dessa segurança da alimentação mundial.

Graças à competência dos nossos cientistas agrupados nas nossas instituições como a Embrapa, universidades, organismos estaduais de pesquisas e a iniciativa privada, bem como os nossos técnicos assistentes, extensionistas, tanto dos quadros oficiais quanto da iniciativa privada, e, principalmente a existência de produtores competentes, inovadores, exímios em governança e empreendedores que conhecem bem os mercados que terão de atender, todos esses nos dão a garantia do suprimento alimentar aqui no Brasil e para onde for necessário. Vamos aprender com esta pandemia que nem tudo é tristeza e que muito maior será a oportunidade que ela nos dá para fazer o nosso País ser o que desejamos.

Engenheiro-agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura