Palavra de Produtor

A NOVA ORDEM CAPITALISTA

No momento, a Apple vale no mercado cerca de US$ 1,5 trilhão, praticamente equivalendo ao PIB brasileiro de 2019. Por que ela e outras como a Amazon, o Facebook etc. valem tanto? Ora, esse valor de mercado se explica porque estão inseridas na nova ordem da economia mundial, trabalhando com coleta de informações de bilhões de pessoas, que, uma vez processadas, são transformadas em algo com valor, ainda que imaterial. Enfim, o capitalismo se reinventa, não seguindo mais o princípio da acumulação da riqueza tradicionalmente compreendida como produção agrícola, petróleo, aço, carros etc.

Agora, com o processamento de dados e informações, o mercado passa a monetizar sonhos, desejos, enfim, criar necessidades não palpáveis, explicando a razão dessas empresas valerem tanto. Essa introdução objetiva sinalizar que é preciso mudar o entendimento quanto às tendências da economia mundial. Se esse passa a ser o norte da economia, qual seria o olhar a ser empregado pela agropecuária? Do mundo vêm outros sinais, como recentemente, no âmbito da União Europeia, a eleição dos novos integrantes do parlamento europeu desmontou a representação dos partidos políticos tradicionais, formando-se uma nova e importante base política transversal rotulada como os “Verdes”.

No momento, já demonstram sua força ao questionarem o Acordo União Europeia/Mercosul, que demanda ratificação por aquele parlamento. Nos Estados Unidos, vem sendo proposto um “Green New Deal” para tornar a economia deles mais sustentável. Essas duas situações expostas determinam que o Brasil repense sua visão e discurso feito por todo o arco político, face as mudanças inevitáveis e cada vez mais irreversíveis. Ainda que sejam relevantes e reais os argumentos quanto a quesitos ambientais acerca da produção agropecuária, eles não sensibilizam a população consumidora desses países ricos, para os quais o País fornece alimentos.

O Brasil precisa incrementar a produção sustentável e ocupar crescentemente os espaços do mercado mundial, mas compreender que, infelizmente, não haverá aumento na renda real do produtor só com essa fonte primária de receitas. Deverá, sim, incorporar ao seu negócio uma nova vertente de faturamento, a partir da bioeconomia, com a valoração de ativos existentes ou gerados em suas propriedades. Sob essa nova ótica, quanto o campo brasileiro poderá ganhar?

A Shell, empresa petrolífera, sentindo a mudança dos ventos da economia global, acaba de estruturar uma empresa denominada Nature Based Solutions (NBS), que transformará ações como desmatamento evitado, recuperação de áreas degradadas etc. em fontes de receitas, por meio da venda de créditos de carbono.

Atuando na vanguarda desse novo tempo, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) acaba de firmar, com um conjunto de proprietários rurais de Mato Grosso, por meio do projeto Conserv, contratos por tempo determinado de pagamento por desmatamento evitado, enfim, uma modalidade de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). É um fato histórico e emblemático, a partir do qual é possível dizer que sim, a agropecuária brasileira está trilhando o caminho da nova ordem capitalista, que lhe permite fazer frente às exigências do mercado consumidor global, com agregação de ganhos financeiros ao seu negócio.

Engenheiro-agrônomo, produtor de soja, milho e gado em Nova Maringá/MT, especialista em Administração de Empresas, autor do livro Reflexões de um Alemão Cuiabano