Solos

As razões e as causas da FERTILIDADE

A fertilidade de um solo passa pelo equilíbrio dinâmico entre as suas propriedades químicas, físicas e biológicas. Mas o que colabora e o que atrapalha tal estabilidade que, por fim, definirá a produtividade de uma lavoura?

Adriana Pereira da Silva, João Tavares Filho e Ricardo Ralisch, professores do Departamento de Agronomia da Universidade Estadual de Londrina/PR; Afonso Peche Filho, pesquisador científico do Instituto Agronômico (IAC); e Amanda L. Pit Nunes, pesquisadora na Total Biotecnologia – Biotrop e docente na Unopar

A proposta deste artigo é enfatizar a importância que as propriedades físicas do solo têm para a sua fertilidade, para a produtividade das lavouras, para a rentabilidade das atividades agropecuárias e, consequentemente, para o saldo da balança comercial brasileira, com reflexos em toda a sociedade e no funcionamento do planeta Terra. Então este artigo deve te interessar.

Já está consagrado o conceito de que a fertilidade do solo é um equilíbrio dinâmico entre suas propriedades químicas, físicas e biológicas, segundo as palavras do professor Walter Boller, da Universidade de Passo Fundo/RS. Portanto, avaliar essas características separadamente atende a interesses mais específicos do que analisar a fertilidade.

Por exemplo, quando se retira uma amostra de solo para fazer uma análise química, avalia-se a disponibilidade de nutrientes daquele solo, naquela ocasião, para algumas plantas de interesse econômico e em determinados momentos de seu desenvolvimento. Da mesma forma, avaliar a densidade do solo ou sua resistência à penetração reflete algumas características físicas momentâneas de determinado solo e estima-se como isso afeta o desenvolvimento das plantas de interesse direto.

A compreensão da fertilidade do solo é bem mais ampla do que isso. Além do equilíbrio dinâmico e complexo já citado, sugere-se que se considere a fertilidade do solo baseada no conceito de fertilidade como sendo a capacidade de gerar vida e essencialmente biológico. Sendo assim, quanto mais quantidade e diversidade de vida o solo tiver, mais fértil fica. Nesse raciocínio, a base da fertilidade do solo é a sua biologia, os atributos químicos e físicos contribuem ou prejudicam essa propriedade.

A vida no solo

Então o solo gera vida? Sim, o solo propicia a vida, e a sua camada superficial é o ambiente que compreende 25% da biodiversidade do planeta. Os números são estonteantes. Numa amostra de solo fértil diluído a um milionésimo de sua densidade, estima-se haver 5 mil espécies e 100 milhões de seres, só de bactérias. Mas há, ainda, os fungos, os protozoários, os aracnídeos, os insetos, os nematoides e as minhocas, símbolos da riqueza biológica do solo e com papel-chave na fertilidade e na nutrição de plantas.

O solo é um imenso reservatório de água e oxigênio, fornecidos pela atmosfera, dois dos três fatores para se ter vida. O terceiro fator da vida é a energia, que é fornecida pelas plantas ao converterem luz solar em biomassa vegetal e alimento.

Isso caracteriza a interação dos compartimentos solo, plantas e atmosfera. São os ciclos, no caso, da água, do oxigênio e da vida. Mas todos os ciclos biogeoquímicos do planeta Terra passam pelo solo e pelas plantas. Portanto o solo explorado pela agropecuária não é só o maior patrimônio dos produtores, é o maior bem deste planeta, pois é com solo bem tratado que se protege a água, se mitiga gases nocivos na atmosfera, se propicia a biodiversidade, se conserva e melhora a fertilidade e se obtém altas produtividades.

Então o papel da agricultura extrapola em muito a produção de alimentos, pois produz fibras, energia, ambiente e vida. A boa agropecuária é simplesmente a atividade humana mais importante, e os bons agricultores são as pessoas que lidam com o solo.

Como avaliar a fertilidade do solo

Considerando o exposto, o ideal seria avaliar a riqueza da vida no solo, ou sua biodiversidade, para analisar a fertilidade, não é? Há diferentes equipes de microbiologistas e biólogos de solo trabalhando para se chegar a parâmetros aplicáveis para isso. Mas, infelizmente, não é tão simples assim, pois os parâmetros biológicos são muito variados e dinâmicos, e algumas análises microbiológicas são complexas e caras. Porém está se evoluindo diante do vasto e desconhecido mundo microscópico, já que a ciência agronômica brasileira é das mais amplas e uma das melhores do mundo.

O que se tem de aplicável são as avaliações da estrutura do solo, que é um parâmetro físico que afeta diretamente a fertilidade. A estrutura do solo é a sua organização morfológica, ou seja, a combinação de seus componentes minerais e orgânicos com a porosidade que o compõe, formando os agregados e os torrões. A porosidade é a responsável pelo armazenamento de água e ar, além do enraizamento das plantas, elementos fundamentais à fertilidade. Esse enraizamento e toda a sua dinâmica associada à atividade dos organismos constroem a porosidade e a estrutura do solo.

Portanto um solo bem estruturado é fértil, e essa fertilidade promove os desenvolvimentos das plantas e da atividade dos seres vivos que redundam em boa estruturação do solo, altos teores de matéria orgânica e com grande capacidade de armazenamento de água, de oxigênio e de fornecimento de nutrientes. Eis o ciclo novamente e quão fundamental é a estrutura do solo. Essa estrutura é construída pela atividade biológica e só pode ser construída por ela.

A estrutura do solo e o manejo

Essa estrutura do solo associada à sua fertilidade é muito vulnerável e fortemente afetada pelo manejo do solo e dos sistemas de produção. Por isso se adota a denominação de estrutura antrópica do solo, ou aquela estrutura que é afetada pela atividade humana, no caso, a agropecuária. Ela se distingue da estrutura pedológica do solo, que considera os aspectos mineralógicos e de origem do solo, que não são alterados pelo manejo, mas que são importantes para se reconhecer o solo avaliado e prever como ele reage ao manejo.

Uma agricultura conservacionista se fundamenta na conservação dos recursos naturais. Considerando o exposto anteriormente, essa agricultura se inicia com a conservação do solo e da sua estrutura, que leva à conservação da água, da atmosfera e da biodiversidade.

Operações agrícolas

As operações agrícolas afetam diretamente a estrutura do solo, e o efeito mais visível é a compactação, diminuindo a porosidade, reduzindo a capacidade de armazenamento de água e ar no solo, dificultando o enraizamento e o desenvolvimento dos organismos. Essa compactação reduz a capacidade de infiltração das águas das chuvas no solo, levando ao escorrimento superficial da água e à erosão, o pior dos males da agricultura.

Por isso, muita atenção às operações agrícolas, façam apenas as necessárias, usem velocidades e implementos adequados e sigam com atenção as manutenções dos equipamentos recomendadas. Lembrem-se sempre: operação agrícola não constrói estrutura do solo, favorece ou desfavorece a atuação da atividade biológica para tal.

O excesso de porosidade, provocado por algumas operações que desagregam o solo, são ainda piores que a compactação e devem ser evitados. No solo desagregado, a água da chuva infiltra rapidamente, não fica retida e se perde. O excesso de aeração do solo promove a oxidação da sua matéria orgânica, produzindo gás carbônico, que é emitido para a atmosfera contribuindo com o efeito estufa e as mudanças climáticas.

As raízes e os organismos do solo não encontram um ambiente propício ao desenvolvimento, empobrecendo o solo paulatinamente. Em geral, esse empobrecimento é compensado pela aplicação de mais insumos sintéticos, como fertilizantes, elevando os custos e o potencial contaminante, prejudicando ainda mais o ambiente biológico do solo e criando um círculo vicioso.

O conceito de agricultura conservacionista passou a ser aceito internacionalmente, baseado no sucesso do sistema plantio direto concebido no Brasil. Portanto, se a dúvida é como fazer uma boa agropecuária, a solução está nos nossos ensinamentos ao resto do mundo: um bom sistema plantio direto. É importante a adoção completa do conceito do sistema plantio direto, reduzindo o revolvimento desnecessário do solo, mantendo a cobertura permanente – de preferência com plantas vivas – e, principalmente, promovendo a rotação de culturas.

O mal da sucessão sem rotação

A sucessão de culturas, sem rotação, tão difundida no cenário nacional, é o fator que mais reduz a qualidade do sistema plantio direto, diminuindo a introdução de material vegetal no sistema e reduzindo o teor de matéria orgânica do solo, não alimentando a atividade biológica e prejudicando a estrutura e a fertilidade do solo. A diversidade de culturas contribui com diferentes sistemas radiculares, diferentes preferências nutricionais, diferentes microbiomas e diferentes ciclagens de nutrientes. Tudo isso favorece a fertilidade do solo e a sustentabilidade dos sistemas de produção.

Como avaliar a estrutura do solo

Não há métodos diretos para se avaliar a estrutura do solo. Como se trata de um arranjo entre formatos de componentes minerais e porosidades, a melhor forma de se avaliar é visual, qualitativa e não quantitativamente. A metodologia padrão se chama Perfil Cultural, que avalia uma parede do solo numa trincheira. Nesse perfil, identifica-se a distribuição espacial das diferentes estruturas, considerando diversos parâmetros, como resistência ao toque da faca, faces de rupturas e tamanhos dos torrões, variação de coloração e de umidade, interação com as raízes e presença de atividade biológica.

O Perfil Cultural permite avaliar e considera na interpretação a profundidade do efeito antrópico. Ele permite diversos níveis de avaliação, desde a verificação do efeito direto de uma operação agrícola como a avaliação dos impactos de um sistema de produção.

No Brasil há algumas equipes que atuam com Perfil Cultural, como a do Instituto Agronômico (IAC), de Campinas/SP, e a da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná. Paralelamente, foram sendo propostas outras metodologias mais rápidas de avaliação da estrutura do solo que vêm sendo empregadas por outras equipes de pesquisas, como a da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPr).

Metodologia Dres

Recentemente, uma equipe desenvolveu o Diagnóstico Rápido da Estrutura do Solo (Dres), que empregou os resultados dos mais de 30 anos ininterruptos que a equipe da UEL vem empregando, validando e aperfeiçoando a metodologia do Perfil Cultural. A proposta não é substituir o Perfil Cultural, pois o Dres faz uma avaliação rápida da superfície, mas sim empregar como monitoramento das áreas ou das práticas agropecuárias, definindo os locais que merecem análises mais aprofundadas, que enriquecem a avaliação em relação à resistência, à penetração, à densidade do solo ou à porosimetria, pois, ao avaliar a estrutura do solo, permite criar uma relação de causa e efeito de forma conclusiva. A metodologia Dres está disponível gratuitamente em www.embrapa.br/en/dres.

Por ser rápida, essa metodologia possibilita que o agricultor monitore os efeitos do seu manejo do solo e de seu sistema de produção, permitindo, ainda, a atribuição de uma nota à qualidade estrutural e uma interpretação desta, com recomendações de práticas que permitam a melhoria da estrutura do solo. Porém destaca-se que uma interpretação mais aprofundada se obtém com a metodologia do Perfil Cultural, cujos critérios e procedimentos de emprego podem ser vistos no artigo de Tavares Filho et al. (1999), em www.scielo.br/pdf/ rbcs/v23n2/22.pdf.

Os conceitos, neste artigo, são complexos, e a abordagem suscinta do texto acaba impondo algumas generalizações. O mais importante é conseguir provocar uma reflexão sobre a importância do solo e de sua estrutura. Cuidem-se, cuidem do solo e boa safra.