Palavra de Produtor

REFLEXOS DA PANDEMIA

A besta do apocalipse, vestida com a Covid-19, desnudou a realidade vivida cotidianamente pelas pessoas. “Está tudo errado”, cantava Raul Seixas. Quantos ouviram e entenderam suas músicas? Essa pandemia que continua a fazer enormes estragos sobre a sociedade e a economia planetárias trouxe à tona assuntos que não estavam na ordem do dia, mas debaixo do tapete da casa de cada um. Muito possivelmente acontecerá uma reconfiguração da ordem mundial, e os Estados Nacionais reverão seus conceitos estratégicos pelos efeitos desse vírus e farão avaliação das consequências dessa globalização desenfreada.

Teremos mais fronteiras fechadas e mais protecionismos. O nacionalismo retorna com força, e, ironicamente, a Alemanha, principal mentora e beneficiária da construção da União Europeia, é um dos primeiros países a pular disfarçadamente desse barco. Contextualizo para indicar os primeiros passos dados em consequência da ora evidente fragilidade de uma pretensa governança global.

Olhando para dentro do Brasil, constata-se o ressurgimento de demandas reprimidas nas quais o Governo brasileiro deveria focar: por exemplo, em obras de infraestrutura abandonadas há décadas e na conclusão delas. A recente conclusão do asfaltamento da BR-163, obra inconclusa por 40 anos, já espalha seus resultados positivos sobre a economia agrícola. Também há dias foi noticiado o embarque de 90 mil toneladas de farelo de soja pelo Porto de Paranaguá/PR, após o desassoreamento do Passo da Galheta, que, há muitos anos, esperava por tal ação pública. Após décadas, o Ibama autorizou obra similar no Porto de Rio Grande/ RS, o que permitirá que navios saiam carregados desse porto, e não apenas parcialmente, em função do baixo calado atual.

Sob a égide do II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), foi projetada e iniciada a construção de porto em Caracaraí, no estado de Roraima, às margens do Rio Branco e da BR-174. Em 2000, lá estive, e o que restava era o esqueleto dessa obra inacabada, tão importante para aquele estado, se tivesse sido concluída.

Os resultados da balança comercial desnudam e demonstram quem é quem, principalmente a indústria, que vem apresentando resultados pífios, apesar de viver debaixo do generoso cobertor governamental. É tempo de retomar o conceito “destruição criativa”, voltado à modernização da economia. Apesar dos excelentes resultados das exportações do complexo agro, avizinham-se batalhas imensas, com o aumento dos subsídios nos países desenvolvidos a favor de seu setor primário. Nesse sentido, torna-se premente a definição de novas políticas públicas à agropecuária, em áreas como modais de transporte; ciência e tecnologia, objetivando manter a competitividade setorial; interiorização da internet; enfrentamento da questão ambiental da Amazônia, que contamina as relações internacionais, utilizando- se ferramentas existentes há décadas, como as ações discriminatórias, não necessitando de novo arcabouço legal para fazer rapidamente a regularização fundiária e ambiental.

No front externo, apesar da fragilização da OMC, o Brasil deveria reforçar sua atuação focando no Sistema de Soluções de Controvérsias, para fazer frente ao protecionismo comercial, já em ampliação, e que afetará a produção agropecuária, principal alicerce da economia do Brasil.

Engenheiro-agrônomo, produtor de soja, milho e gado em Nova Maringá/MT, especialista em Administração de Empresas, autor do livro Refl exões de um Alemão Cuiabano