Herbert & Marie Bartz

MEMÓRIAS DE BARTZ: VIAGENS DA JUVENTUDE PELAS FRONTEIRAS DO NORTE

Nesta edição, vamos contar parte de mais uma das viagens que Herbert Bartz fez na virada de sua juventude para a fase adulta. Essa foi para as fronteiras com os países nórdicos e durou em torno de cinco semanas. Preparados?

“Essa viagem foi em agosto de 1958 e foi bem diferente das outras. Aconteceu poucos meses antes do Abitur, a grande prova após nove anos de ginásio, cujo êxito decidiria a escolha e a admissão em uma universidade de reputação. Mas meu amigo Jürgen e eu sonhávamos há muito tempo com essa aventura que nos levaria até o Norte da Finlândia, a terra dos mil lagos. Fazia parte importante de nosso planejamento a aquisição de uma canoa dobrável, um Klepper boot em alemão, que era basicamente uma capa de lona emborrachada que pesava 60 quilos, mais um madeiramento que estica a lona para formar a canoa, de mais ou menos cinco metros de comprimento. Esse esqueleto de madeira da canoa pesava mais 50 quilos (110 quilos de lona + esqueleto). A nossa bagagem de viagem era uma mochila para cada um com um saco de dormir, roupas e livros para podermos estudar para a prova, que totalizava 90 quilos de carga para cada um de nós. E ainda fazia parte um estoque de alimentos, em torno de 15 quilos, porque estava previsto no roteiro da viagem passarmos longos dias sem contato com a civilização.

Partimos da Rhenânia e, em um dia, conseguimos chegar em Kiel, uma cidade portuária no Norte da Alemanha, de onde embarcamos num ferry-boat para a Dinamarca. Apesar da bagagem pesada, atravessamos a Dinamarca de carona, país que notavelmente tem um povo muito gentil. A travessia de Copenhagen, na Dinamarca, para Malmö, na Suécia, também foi via ferry-boat, e lá perdemos um dia pedindo carona. Os suecos consideravam os caronistas naquela época marginais, porque o welfare state garantia aos cidadãos o dinheiro para pagar transporte púlevados blico. Quando estávamos em Malmö, acabamos confiando numa senhora, que almoçava com seu chauffear (motorista) e que nos ofereceu lugar numa mesa grande. A duras penas, consegui convencer Jürgen a comer um prato de comida num restaurante à beira da estrada. Aquela senhora vivia em Estocolmo e nos ofereceu carona até a capital, e, dessa forma chegamos mais ao Norte. Para economizar despesas com pernoites em albergues, seguimos o ‘exemplo’ de outros caronistas, que dormiam em praças públicas, em bancos altos, almofadados e cobertos por teto de lona, usados para engraxar sapatos ao ar livre, e que protegiam do sol e da chuva.

No entanto, para o nosso azar (ou não), por volta da meia-noite, um caminhão da prefeitura, com um punhado de funcionários, chegou e acordou a todos. Nós e mais um total de 30 jovens fomos levados para um centro de triagem. Lá, fomos convidados a tomar um banho, recebemos uma muda de roupa limpa para dormir, e a nossa roupa foi levada para a lavanderia. Antes de dormir, todos recebemos um generoso sanduíche e uma xícara de café com leite. Dormimos bem e, no dia seguinte, fomos púlevados novamente para o centro de triagens, onde recebemos nossa roupa lavada e passada e mais um sanduíche com café com leite. Essa experiência nos mostrou como funciona o welfare state na Suécia. Logo em seguida. Logo em seguida, fomos para o porto comprar a passagem de ferry- boat que nos levaria para Turku (Abo), na Finlândia, através do Mar Báltico. Não tínhamos dinheiro para pagar cabine nessa viagem, mas o ferry-boat tinha um salão de dança onde conhecemos duas moças e passamos a noite toda dançando. Essas moças, tempos depois, acabaram indo no visitar na Alemanha.” Continua na próxima edição.

Algumas informações complementares e curiosas... Vocês devem ter se perguntado: “Como Bartz aguentou carregar uma bagagem tão pesada por trajetos tão longos?”. Então... Quando falo que Papi é o cara, isso é desde sempre. Bartz, na sua juventude, treinava decatlo. Rafael Fuentes, que treina triatlo e é amigo próximo de Bartz, diz o seguinte sobre o decatlo: “Decatlo é um esporte olímpico e tem todas as modalidades do atletismo em sua estrutura. É bem difícil e requer médias altas em tudo para um bom desempenho”. Não é para qualquer um, e isso explica o preparo físico de Bartz para suportar a carga da bagagem na viagem. E sobre o welfare state na Suécia, que Papi cita no texto, é uma forma de governo em que o Estado protege e promove o bem-estar econômico e social dos cidadãos, com base nos princípios de igualdade de oportunidades, distribuição equitativa da riqueza e responsabilidade pública por cidadãos incapazes de aproveitar as provisões mínimas para ter boa vida.

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo, pesquisadora na Universidade de Coimbra