Agricultura 4.0

BIOPRODUTOS PARA A AGRICULTURA TROPICAL

De fato, a tendência da utilização de bioprodutos na agricultura segue forte e movimentando o mercado de insumos agrícolas. Simplesmente pelo fato de que os produtores querem soluções tecnológicas dessa natureza e muitos estão produzindo seus produtos na própria fazenda, na onda conhecida como on farm. Dessa forma, investem em biofábricas próprias para a criação e a multiplicação de micro-organismos desejáveis para serem aplicados em suas lavouras.

Contudo, vale lembrar que essa não é uma técnica ou atitude recente dos produtores, uma vez que as usinas de cana-de-açúcar, há muito tempo, estruturaram suas biofábricas para a produção de macro e micro-organismos para o controle biológico de pragas como Cotesia flavipes – inseto parasitoide da broca-da-cana –, Metarhizium anisopliae e Beuveria bassiana – fungos utilizados para o controle de besouros e cigarrinha. Por outro lado, do ponto de vista científico, temos um conhecimento enorme em biossoluções para a agricultura, acumulado nas universidades e em institutos de pesquisa, que podem ser considerados como as minas de carvão e petróleo da era industrial, para esta nova era ou mudança tecnológica que estamos vivendo, a dos bioprodutos para a agricultura tropical.

Enfatizo a questão da agricultura tropical, pois as soluções biológicas devem ser locais, nas condições ambientais em que os seres vivos se desenvolveram, cresceram e evoluíram ao longo do tempo e, portanto, estão adaptados ao local tropical, apresentando maiores possibilidades de sucesso e efetividade no objetivo biotecnológico a que se propõe. Para que, quando aplicados em nossos solos ou culturas, tenham maiores chances de vencerem as forças da natureza locais, como, por exemplo, o princípio da homeostase genética, que, basicamente, seria como a verdadeira resistência que o meio ambiente possui à mudança biológica, ou seja, são as forças da natureza que levam ao equilíbrio biológico.

No caso do fenômeno da homeostase, podemos enxergar uma vantagem e uma desvantagem, pelo menos. A vantagem é que, quando o ser vivo é introduzido em um novo ambiente, ele tende a desaparecer, pois deverá competir com os outros seres nativos, mais adaptados, mais competitivos, que levarão seu concorrente à extinção. É uma vantagem, pois nos traz segurança na introdução de seres vivos exóticos nos ambientes diversos. A desvantagem é a concorrência que o bioproduto irá sofrer em relação aos seres vivos mais adaptados, podendo desativá-los antes de exercerem o benefício desejado no sistema e, portanto, serem um placebo quando utilizados. Esse é um princípio que todos que produzem, vendem, compram e utilizam bioinsumos devem se lembrar, e de que também existem muitos outros fenômenos bióticos e abióticos que ainda não compreendemos ou não conseguimos dimensionar na utilização desses produtos. Essa tendência está levando a uma corrida frenética de empresas e instituições no desenvolvimento de biofertilizantes, bioestimulantes, bioinseticidas, bionematicidas, birremediantes etc., que podem criar uma confusão de soluções ou posicionamentos no mercado. Nesse sentido, para nortear a questão e trazer mais controle no processo, foi promulgado o Decreto nº 10.375, de 26 de maio de 2020, que institui o Programa Nacional de Bioinsumos e o Conselho Estratégico do Programa Nacional de Bioinsumos.

De pronto, o decreto traz uma definição sobre bioinsumos: “Considera-se bioinsumo o produto, o processo ou a tecnologia de origem vegetal, animal ou microbiana, destinado ao uso na produção, no armazenamento e no beneficiamento de produtos agropecuários, nos sistemas de produção aquáticos ou de florestas plantadas, que interfiram positivamente no crescimento, no desenvolvimento e no mecanismo de resposta de animais, de plantas, de micro-organismos e de substâncias derivadas e que interajam com os produtos e os processos físico-químicos e biológicos”. Assim, verifica-se que é uma definição bastante ampla da qual pode ser destacado que os bioinsumos devem trazer algum benefício quando utilizados e, provavelmente, deverão ser cientificamente comprovados antes de serem recomendados ou comercializados.

Como disse, essa mudança tecnológica na agricultura tem chamado a atenção de muitos setores do agronegócio, e há previsões de crescimento do mercado, nos próximos anos, da ordem de 30% a 40%.

Engenheiro-agrônomo, mestre e doutor em Produção Vegetal, pesquisador em Nematologia Agrícola e de Precisão em Proteção de Plantas, professor e diretor da Fatec Shunji Nishimura