Soja

Sistema de produção & GESTÃO DA PROPRIEDADE

A definição da sequência e do conjunto de práticas de manejo das culturas em cada ambiente ao longo do tempo depende diretamente da maneira como o negócio da fazenda é gerido.

Engenheiro -agrônomo Leandro Zancanaro, mestre em Ciência do Solo, integrante do Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb) e diretor técnico da Fundação MT

A atividade agrícola é muito dinâmica em todas as suas etapas. Compatibilizar produtividade, estabilidade produtiva, repetibilidade, rentabilidade e melhoria constante do ambiente de produção são os principais desafios. O que se produz em uma safra não é fruto específico do que foi feito naquela safra, mas também do que foi feito e como foi feito nos anos anteriores.

Em trabalho realizado no Rio Grande do Sul, por mais de 20 anos, Margarete Nicolodi e outros pesquisadores concluíram, em 2008, que, para um solo produzir abundantemente, o principal fator foi o sistema de produção adotado ao longo do tempo. Isso é muito válido para todas as condições, mas principalmente em solos com a condição química corrigida. E os resultados de pesquisa da Fundação MT permitem as mesmas conclusões.

Mas, afinal, o que se entende por sistema de produção e o que interfere na escolha do sistema de produção? Citando o pesquisador Marcelo Hiroshi Hirakuri, sistemas de produção são o conjunto de sistemas de cultivos no âmbito de uma propriedade rural, definidos a partir de fatores de produção (terra, mão de obra e capital) e interligados por um processo de gestão. Sendo que o sistema de cultivo se refere às práticas comuns de manejo associadas a uma determinada espécie vegetal, visando à sua produção a partir da combinação lógica e ordenada de um conjunto de atividades e operações. Resumindo, sistema de produção, na atividade agrícola, é determinado pela sequência e pelo conjunto de práticas de manejo de todas as culturas cultivadas em cada ambiente de produção ao longo do tempo.

A soja é a cultura cultivada em maior área no Brasil, com 37 milhões de hectares, aproximadamente, na safra 2019/20, segundo a Conab. A soja é cultivada desde o Extremo Sul até o Extremo Norte do Brasil – ou seja, em várias latitudes – e é uma cultura sensível ao fotoperíodo. Atualmente, é cultivada em solos com mais de 50 anos de cultivo e em áreas com uso recente para fins agrícolas. É plantada em regiões com variações intensas na distribuição e no volume de chuva durante o ano, e entre anos, além de estar em regiões com diferentes altitudes. Também é cultivada em solos de diferentes materiais de origem e grau de intemperização.

O cultivo também ocorre desde solos naturalmente férteis até muito ácidos e deficientes de todos os nutrientes, além de ser cultivada em solos de diferentes texturas e matérias orgânicas. Assim, é impossível definir um único sistema de produção para todas as condições. As formas de produção mais adequadas variam dentro do Brasil, de uma região, de uma propriedade e até mesmo de um campo comercial.

Nas imagens, as diferenças entre três lavouras: soja e braquiária, soja e pousio e soja e milho safrinha

Em todas as condições, os sistemas de produção mais adequados quanto ao manejo do solo são os que reduzem a degradação da matéria orgânica, os que permitem maior aporte de carbono ao sistema e maior aporte de nitrogênio, e que apresentem culturas com diferentes sistemas radiculares, sendo obrigatório ter no sistema gramíneas com sistema radicular agressivo e abundante. Ou seja, para ter bons sistemas de produção, há necessidade de ter diversificação de culturas, com características complementares. A soja, por exemplo, é dependente das outras culturas presentes no sistema de produção. E estas também são dependentes da soja.

As respostas não são no mesmo tempo e na mesma intensidade para todos os ambientes. Mas, de modo geral, em ambientes mais frágeis, as respostas ocorrem em menor período de tempo e com maior intensidade. Porém isso acontece tanto para os manejos bons quanto para os ruins. Na escolha dos sistemas de produção, é fundamental respeitar as aptidões das áreas cultivadas, e também as características de cada espécie vegetal. Para cada ambiente de produção há sistemas de produção mais adequados. Ou seja, não existe um único sistema de produção para todos os ambientes; há ambientes que permitem sistemas intensivos de produção.

Outras culturas e atividades

Já em solos arenosos, é preciso que os sistemas escolhidos contemplem a viabilização de outras culturas ou atividades mais do que apenas produzir soja, por exemplo. Ou seja, nessa situação, para se ter uma possibilidade de produzir, há necessidade de se fazer uma escolha de quais culturas – como a braquiária, a crotatária, o milheto, o estilosantes, entre outras – e como estas vão ser implantadas e manejadas.

Porém é importante também estar ciente de que os sistemas de produção não resolvem todos os problemas de uma área. Em algum momento, em ambientes muito frágeis e em regiões com clima desfavorável, o melhor é preservar a vegetação natural ou repensar as atividades. Outra questão importante: o sistema de produção depende da mão de obra disponível, que pode ser diferente para cada ambiente. Nesse caso, incluem-se a gestão da propriedade e a persistência e a convicção do produtor, pois o tempo é um fator fundamental para as conclusões. Portanto, na escolha dos sistemas de produção, há de se considerar o perfil do produtor e os seus objetivos.

É necessário também considerar os diferentes investimentos para cada sistema de produção. Por exemplo, um sistema de integração lavoura-pecuária exige uma estrutura e recursos iniciais diferentes de um método com soja/ milho, ou soja/algodão. Porém isso não significa que uma prática mais “simples” não possa ser eficiente. Mas por que é importante escolher o sistema de produção mais adequado a cada ambiente?

Em trabalho de pesquisa da Fundação MT, após 12 anos avaliando o impacto de diferentes sistemas de produção, associado à escolha de cultivares com potencial produtivo maior, foi possível aumentar significativamente a produtividade sem aumentar a aplicação de insumos, como demonstrado na edição d’A Granja de maio. A produtividade da soja aumentou de 60 sacas por hectare para 90 sc/ha ao longo do tempo. Evidentemente que esse crescimento não foi obtido de um ano para outro. Os benefícios dos sistemas de produção dependem do tempo, da qualidade de como é feito e, automaticamente, da persistência.

Além de aumentar a produtividade, houve maior estabilidade da produtividade, como ficou demonstrado no sétimo ano do trabalho, na safra 2014/15, quando foi cultivada uma soja superprecoce, com 98 dias sem dessecar e período de estiagem de 29 dias em pleno enchimento de grãos. As diferenças encontradas na safra não estiveram correlacionadas com os parâmetros químicos isolados de uma análise de solo de rotina (Tabela 1), e sim com as diferenças quanto às condições biológicas (Tabela 2). Essas avaliações da condição biológica do solo foram feitas em conjunto com a Embrapa Cerrados, com a pesquisadora doutora Ieda de Carvalho Mendes.

Quanto à condição física do solo, foi possível demonstrar que, após sete anos, os tratamentos sem revolvimento com sistemas de produção incluindo braquiária a cada três anos, pelo menos, foram os que apresentaram maior armazenamento de água em profundidade. Além de maior continuidade dos poros, em experimento envolvendo sistemas de produção com as culturas soja e algodão.

Consequências em populações de nematoides

Em outro trabalho da Fundação MT, foi possível avaliar como os sistemas de produção interferem na população de nematoides no solo e nas raízes da soja e como diferentes sistemas de produção permitem ter maior ou menor convivência com o nematoide de cisto. Quando houve rotação de culturas na segunda safra com braquiária, crotalária e milho, associada à rotação de materiais genéticos quanto à reação aos nematoides de cisto, e manejo adequado da calagem, após 11 anos, foi possível obter produtividades de 100 sc/ha, sem aumentar os insumos, mantendo a adubação de 45 e 90 kg/ha de P2O5 e K2O, respectivamente.

Em Mato Grosso, sistemas de produção de integração lavoura-pecuária estão crescendo por necessidade em solos arenosos. Há situações em solos de textura arenosa (<15% de argila), nos quais a soja, quando cultivada, após 18 a 30 meses de pastagem de braquiária, tem obtido produtividades de 60 sc/ ha, podendo chegar a 80 sc/ha, além de obter mais de 30 arrobas de carne por hectare ao ano. Se não fosse a adoção desse sistema, a propriedade seria inviabilizada. Nessas propriedades, a implantação e a continuidade dos sistemas de produção adequados, mesmo em solos arenosos, permitem a melhoria da qualidade do solo, demonstrada pela avaliação da atividade enzimática dos mesmos.

Sem dúvida alguma, fazer escolha de um sistema de produção mais adequado para cada ambiente dentro de uma propriedade está diretamente relacionado aos conhecimentos técnicos, mas o sucesso e a consequente continuidade das escolhas dependem essencialmente da gestão da propriedade.