Segredo

É preciso voltar a AGRICULTAR

Denise Saueressig
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Há 16 anos, quando precisou buscar práticas alternativas ao uso de insumos químicos na sua fazenda, o engenheiro-agrônomo Rogério Vian não imaginava a repercussão que o seu exemplo alcançaria. De uma troca de ideias entre uma dezena de produtores, surgiu o que hoje é o Grupo Associado de Agricultura Sustentável (Gaas), iniciativa que reúne em torno de 3 mil pessoas em diferentes estados. Atual presidente do grupo e diretor regional da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) e da Aprosoja Goiás, Vian é um defensor da agricultura praticada com o aproveitamento de recursos locais e com mais atenção ao que a natureza tem para ensinar. Não se pode deixar de “agricultar”, como ele mesmo define. Nesta entrevista, o produtor de 44 anos revela como conduz a sua propriedade em Mineiros, no Sudoeste goiano, e fala da difusão dos processos sustentáveis no País.

A Granja – Como foi o início da sua trajetória no campo?

Rogério Vian – Até onde eu sei, todos foram produtores na minha família. Sou descendente de italianos e de alemães, mas meus avós já nasceram no Brasil. Nasci em Barra do Garças, em Mato Grosso. Meus primeiros anos de vida foram em Água Boa/MT, onde a família trabalhava com pecuária. Gostava muito dos animais e me imaginava como veterinário ou zootecnista. Em 1979, nos mudamos para Goiás, onde o trabalho passou a ser com a agricultura. Acompanhava meu pai na lavoura e, com 14 anos, fui para o colégio agrícola. Em 1994, entrei na faculdade de Agronomia em Mineiros. Meus pais faleceram há 16 anos e, hoje, minhas irmãs administram suas propriedades e eu trabalho com a minha área em Mineiros. São 990 hectares no total, sendo que 356 hectares são de Reserva Legal e de Áreas de Preservação Permanente (APPs). Além dos grãos, também tenho uma área de cana-de-açúcar e de eucalipto. Na lavoura de 400 hectares, cultivo a soja no verão e, na segunda safra, sorgo, milho, mix de plantas de cobertura e, em anos de bons preços, planto feijão.

A Granja – Quais foram as razões que o levaram a trabalhar com o manejo diferenciado e com a redução de químicos?

Vian – Sempre digo que há duas formas de se começar um processo como esse: ou é por amor, ou é pela dor. No meu caso, foi pela dor. Sou vizinho do Parque Nacional das Emas, e, há 16 anos, foi criada uma zona de amortecimento ao redor do parque. Foram estipuladas várias regras, como a proibição de aplicação aérea, proibição de pulverização de fitossanitários que não fossem da faixa verde e aplicação acompanhada pelos técnicos de órgãos ambientais. Naquele momento, pensei: ou busco um outro modelo de produção, ou vou sair da atividade. Na época, em 2004, estourou a ferrugem asiática. Não se conhecia nenhum outro manejo de controle além dos fungicidas e não existiam fungicidas de faixa verde. Lembro que, em uma área de experimentos, cheguei a colher uma saca por hectare sem a aplicação de fungicida. Também foram estabelecidas restrições para o plantio de variedades transgênicas no entorno do parque. Nesse momento, fui atrás para tentar descobrir o que outras pessoas estavam fazendo de diferente. Comecei a pesquisar na internet, porque na faculdade não ensinaram nada sobre modelos alternativos. Também visitei produtores e tive contato com um pessoal de uma empresa chamada RSA. Eles me apresentaram um trabalho novo em que era possível tratar as sementes de soja com bactérias, tirando o cloreto de potássio e o tratamento químico. Comecei a testar, fiz em 25% da área, tive um resultado muito bom, produzimos igual à área testemunha, que recebia tratamento químico, e, dali em diante, não parei mais. Em quatro anos, não utilizava mais cloreto de potássio e tratamento químico de sementes. Já são 15 anos sem usar. Aos poucos, começaram a aparecer outras opções, veio o pó de rocha, com um trabalho do pessoal da Embrapa em Jataí/GO. Depois, surgiram os grupos de WhatsApp. Percebemos que havia produtores em todo o Brasil experimentando novidades. Visitei um pessoal na Bahia, há oito anos, que já fazia multiplicação de bactérias na propriedade. Levei grupos de produtores até lá, e as técnicas foram se difundindo. Hoje, ainda utilizo químicos na área de cana, que foi plantada no ano passado em parceria com uma usina. Mas minha área com soja, há três anos, é 100% orgânica. Neste momento (junho), a lavoura está cultivada com milho e sorgo orgânicos.

A Granja – Como tem sido a produtividade e, sobretudo, a rentabilidade nas suas áreas?

Vian – Lá atrás, quando iniciei com o tratamento biológico de sementes, consegui manter a média da região, que ficava entre 58 e 60 sacas por hectare. No início do tratamento orgânico, a média caiu bastante, os primeiros dois anos foram sofríveis. É uma adaptação do manejo, é bem diferente, tem competição com mato, com pragas. No primeiro ano, foram 30 sacas por hectare, e, no segundo, 32 sacas/ha. Foram dois anos muito difíceis, mas tudo é aprendizado. Hoje, consigo multiplicar todos os biológicos na fazenda. Ao contrário do que ouvia falar, que o custo era mais alto, com esse modelo de produzir as bactérias e os fungos na fazenda, usar pó de rocha e insumos regionais, consigo ter um custo muito mais baixo do que o convencional. E o preço da soja orgânica, na época em que fechei os contratos, com 20 sacas por hectare, pagava os custos. Comecei a vender a R$ 110,00 a saca e, o último lote, a R$ 135,00 a saca. Neste ano, conseguimos 46 sacas/ ha de média. Tive problemas na soja precoce pelo excesso de chuva, mas, nas variedades tardias, no último talhão, colhi 61 sacas de média. Tive um grande incremento de rentabilidade, que é o mais importante. A busca do aumento da produtividade a qualquer custo vem quebrando muita gente. Na minha área orgânica, consigo 50% a mais de rentabilidade em comparação com o que era no passado. O custo médio da produção convencional fica em torno de R$ 3,5 mil por hectare na soja. O meu é R$ 2 mil. Temos um consultor de custos que fez comparativos em áreas de alguns produtores do grupo, e tivemos um incremento médio de 36% em relação à agricultura convencional. Também temos o coeficiente da felicidade: percebemos os produtores felizes com a adoção das práticas, pessoas que voltaram a ser agricultores. Falo que nós viramos uma máquina de produzir e esquecemos de “agricultar”, como faziam nossos pais e avós.

A Granja – Quais são os planos para os próximos anos?

Vian – Neste ano, serão 800 hectares de lavoura. Arrendei áreas de pastagem que já podem começar com soja orgânica. Hoje, dominamos muito mais as técnicas. Sofremos muito com as variedades, principalmente as mais precoces, que não são tão boas no modelo orgânico. Hoje, mais de 90% do mercado de soja convencional é da Embrapa, mas estamos trabalhando forte para desenvolver essa parte genética. A produção orgânica de soja e de milho é um nicho, com mercados interno e externo muito fortes, com muitos compradores. É uma disputa excelente, porque é o produtor quem coloca o preço. Ao mesmo tempo, no nosso grupo, não incentivamos as pessoas a produzirem orgânicos, mas é um processo natural. O grupo mais antigo, que se iniciou há seis, sete anos, já conseguiu eliminar entre 70% e 80% dos químicos. Incentivamos a ser sustentável, a usar o que há nas regiões para estimular o comércio local. Um país que é o maior produtor de alimentos depender de 70%, 80% de insumos de fora é um absurdo.

A Granja – Como está a evolução do trabalho do Gaas?

Vian – A evolução é surpreendente. Começamos há sete anos, com 20 pessoas em um dia de campo na minha propriedade, e, hoje, realizamos eventos para quase mil pessoas. Para este ano, havíamos projetado um evento para 1,2 mil pessoas em Goiânia, mas, por causa da pandemia, tivemos que adiar para o ano que vem. Acho que nascemos na hora certa e no lugar certo. Surgimos em um momento de custos em alta, produtores deixando a atividade, crises econômicas. Chegamos com soluções factíveis. Começamos em um grupo de WhatsApp com dez, 12 pessoas de Mineiros, e, hoje, temos dez grupos regionais em diferentes estados. E a ideia é justamente trabalhar regionalmente, porque a agricultura que eu faço em Mineiros não será a mesma da Bahia ou do Rio Grande do Sul. Não existem modelos amarrados. Trabalhamos com pó de rocha, mix de plantas de cobertura, fosfato natural, variedades convencionais, multiplicação on farm de fungos e bactérias, coleta de micro-organismos nativos e a reprodução na agricultura, chá de compostagem, homeopatia. São muitas ferramentas. É uma agricultura personalizada. Um modelo viável, em que o produtor toma a rédea do seu negócio, sem pacotes e calendários prontos. Hoje, trabalho muito com o manejo integrado de pragas e doenças, que foi deixado de lado na agricultura moderna. Também aprendemos a lidar com os inimigos naturais. Quando equilibramos o sistema, a planta consegue se tornar imune a doenças e pragas. Precisamos trabalhar tentando entender a natureza. Esse é um conceito sobre o qual aprendemos muito com a chegada ao grupo do Ernest Götsch, que é um produtor de cacau orgânico, pai da sintropia no mundo. É um suíço que está na Bahia há mais de 30 anos que fala muito sobre a mudança de paradigmas. Ele sempre diz: seja humilde, vá para dentro da mata e aprenda com ela. Ela está aí há bilhões de anos ensinando como as coisas podem ser feitas, sem adubo, sem químicos. É isso que estamos fazendo: tentando entender a natureza. Hoje, nossas reservas legais e APPs são nosso maior patrimônio. É ali que buscamos os micro-organismos que vão nos ajudar na produção.

A Granja – Qual é o perfil dos participantes do grupo?

Vian – Nosso grupo é bastante eclético. Temos desde produtor com meio hectare de alface, até gente com 70 mil hectares de lavoura. Todo mundo pode fazer agricultura sustentável. São mais de 3 mil pessoas envolvidas. Em torno de 90% são produtores, entre agricultores e pecuaristas, mas também contamos com pesquisadores e consultores. Pelas nossas estimativas, estamos em mais de 3 milhões de hectares, em diferentes níveis de implantação de práticas mais sustentáveis. Foi necessário criar uma pessoa jurídica, porque o trabalho evoluiu. Hoje, temos portas abertas nos ministérios da Agricultura e da Ciência e Tecnologia. Somos reconhecidos, vamos participar do conselho do Programa Nacional de Bioinsumos. Temos demanda para criar um grupo na Argentina. Já temos sócios no Paraguai e na Bolívia, e também já fomos convidados para eventos nos Estados Unidos. Nossos materiais estão sendo traduzidos para o inglês pela grande demanda.

A Granja – E quais são os próximos projetos do Gaas?

Vian – Um dos grandes aprendizados dessa pandemia e que temos percebido pelo contato com grandes empresas é de as pessoas se darem conta de como a alimentação pode representar saúde. A demanda por alimentos mais saudáveis cresceu muito, assim como o interesse pela proteção ambiental. É um movimento que está vindo do consumidor. Pretendemos, neste ano ainda, lançar um selo do Gaas para mostrar o que nossos produtores estão fazendo, um processo rastreado, com QR Code, para que o consumidor possa acessar as propriedades. Queremos mostrar que preservamos as nascentes, que trabalhamos pela proteção da fauna. Já queremos comercializar a próxima safra com o selo. Também estamos em campanha de filiação e acreditamos que vamos associar em torno de mil pessoas neste ano.

A Granja – Para o produtor que pretende iniciar um trabalho com práticas mais sustentáveis, quais são as recomendações?

Vian – Sempre digo que a primeira coisa é andar, sair de dentro da propriedade. Eu calculo que já andei uns 2 milhões de quilômetros, e não paro. Esse tipo de conhecimento não chega pronto na sua fazenda. Comece por onde é mais fácil, não importa por onde seja, mas comece e teste. O lema do nosso grupo é aprender, testar e compartilhar. Acertando ou errando, o conhecimento deve ser dividido. Queremos somar tudo o que tem de bom nas diferentes formas de fazer agricultura e transformar nesse modelo que chamamos de sustentável. É um pouco de tudo. Nosso modelo não tem pacotes prontos. É uma caixa de ferramentas em que o produtor utiliza aquela que considera importante.