Palavra de Produtor

PANDEMIA X DESIGUALDADES

Ao longo de décadas, tem estado presente em meus artigos a preocupação com as desigualdades de toda ordem. Se elas são inerentes à espécie humana, pelo fato de que ninguém é igual a qualquer outra pessoa, não deixa de ser determinante que todas deveriam receber pré-condições iguais para o seu enfrentamento, a partir de uma educação pública de qualidade, inclusive no mundo rural. Afinal é essa uma das atribuições básicas de qualquer Estado para com seus cidadãos. É a educação, e só ela, que pode nivelar a competição por oportunidades, com, aí sim, cada um ocupando espaço meritocrático nessas disputas. No momento atual, com a disseminação pandêmica da Covid-19, provocando ruptura de todo um modelo de vida, qual o caminho a seguir frente a ela, a globalização e a liberalização mundial ainda existentes, especialmente por quem trabalha na agropecuária?

A luta titânica, que começa a aflorar entre os dois gigantes, Estados Unidos e China, cada qual empregando estratégias para manter ou disseminar o seu projeto hegemônico de uma forma de capitalismo, provoca continuada fragilização dos mais fracos, agravando as desigualdades, o aumento de excluídos dos “padrões de consumo e renda”, perpetuando o conceito de 20 x 80. A produção de alimentos continua a todo o vapor e, não há notícias de desabastecimento nacional e global, o que evidencia ser um dos poucos setores ativos e determinantes para evitar a ruptura do tecido social. Resulta nas seguintes perguntas: o que ganha essa produção estratégica de alimentos, comparada, por exemplo, com a indústria de máscaras, respiradores e ventiladores, a qual aumentou exponencialmente os preços cobrados na hora de suas vendas por conta da pandemia? Que preço ainda pagará pelas consequências dessa pandemia e da pauperização da população nacional e mundial?

Paradoxalmente, é um gigante útil, com pés de barro, em face do viés dito liberalizante dos agentes econômicos do Governo, que, em sua visão, não lhes importa que novamente milhares de produtores caiam do barco da produção agropecuária nacional, desde que forneça comida regularmente e sem exercer pressões inflacionárias.

Logo, o setor continua a receber pouca atenção na agenda governamental, independentemente dos governantes de plantão, permitindo a manutenção da escalada concentradora de terras e de renda, para aqueles detentores de laços na cadeia global de suprimentos. A agropecuária ficará mais pobre ao final desta atual tragédia, e, muito possivelmente, o Governo adotará políticas de favorecimento às populações urbanas, inclusive mantendo os preços dos alimentos baratos, apropriando-se de sua renda, como com a pretendida formação de estoques. Não se vislumbram propostas estratégicas para o setor primário, porque o Governo Federal continua devendo a implementação, consoante o seu porte de Segurança Jurídica Fundiária e Ambiental; Plano Plurianual de Financiamento de Safras; Plano de Seguro de Renda; Infraestrutura Viária e de Telecomunicações; Pesquisa Estratégica em Genética, Nanotecnologia e Modelos de Produção, entre outras.

Como já mencionado em artigo, na edição de setembro de 2018 em A Granja, ao não atendimento das demandas da atividade, de tanto apanhar, mais e mais se distanciará o sonho mítico de homens e mulheres do campo, despidos de sua dignidade e impedidos de ganhar a vida, a bater em constrangida e silenciosa retirada, aumentando o silêncio no campo.

Engenheiro-agrônomo, produtor de soja, milho e gado em Nova Maringá/MT, especialista em Administração de Empresas, autor do livro Reflexões de um Alemão Cuiabano