Herbert & Marie Bartz

MEMÓRIAS DE BARTZ: VIAGENS DA JUVENTUDE – CONHECENDO O SUL DA EUROPA (PARTE II)

Continuamos, nesta edição, a viagem de Herbert Bartz e seu amigo pelo sul da Europa, e ele conta a imprudência que cometeram a caminho de Nápoles, na sequência, a visita ao Sul da Itália, depois, seguindo para o Norte do país pela costa Leste e retornando para a Alemanha.

Bartz: “(...) Mas não demorou muito e começamos a nos sentir mal. No desespero em comer, acabamos não prestando atenção à condição dos tomates, mas depois vimos que havia sido recém-aplicado um agrotóxico na plantação. Mais um pouco de tempo se passou e começamos a vomitar e ter dores muito fortes. Ficamos com medo e fomos à beira da estrada tentar procurar por ajuda, pois estávamos sem água e recursos para aliviar o mal-estar. De repente, um daqueles típicos triciclos de carga italianos parou e, de dentro do veículo, um senhor de meia idade perguntou, em italiano, qual era o nosso problema. Explicamos nossa imprudência. Sem pensar muito, o homem nos colocou na plataforma do triciclo e nos levou para a sua casa, numa propriedade agrícola a poucos quilômetros dali.

Sua senhora, sorridente e gorda, com meia dúzia de crianças à volta dela, tomou conta de nós. Essa senhora parecia ser uma expert em intoxicação, porque nos fez vomitar ainda mais. A nossa plena recuperação levou três dias, até que essa senhora matriarcal, que comandava toda a família, nos deu permissão para continuarmos nossa viagem. Em minha imaginação e percepção, essa senhora matriarcal representa toda a firmeza, grandeza e bondade da família italiana.

Plenamente recuperados, seguimos viagem rumo ao Sul da Itália. Nosso plano era chegar até a Sicília, mas, em Nápoles, onde andamos pela cidade velha com nossas mochilas nas costas, tivemos a triste experiência de sermos saqueados por uma dúzia de moleques que arrancaram tudo que puderam do nosso corpo. Eu perdi a minha máquina fotográfica e a minha carteira com um pouco de dinheiro, e meu amigo, um canivete preto. Por recomendação de minha mãe, eu guardava os documentos numa bolsinha de couro dentro da calça, com uma reserva de 50 marcos alemães. Tivemos que mudar nossos planos, sem dinheiro para a travessia para a Sicília, gastamos uma semana para juntar uns trocados, mas foi muito agradável, pois transportamos de barco turistas para a famosa Gruta Azul.

Em direção ao Norte, pegamos carona num caminhão, que levou um dia até Veneza, onde não pudemos ficar porque todos os albergues para jovens estavam lotados. Acabamos por seguir para o nosso próximo objetivo, que era a visita ao mausoléu do Imperador Teodorico, O Grande. O rei dos ostrogodos é um dos personagens lendários mais importantes entre os povos germânicos da Idade Média. O mausoléu que fica nas proximidades de Ravena é coberto com uma imensa e pesada tampa circular de mármore dolomítico com, mais ou menos, sete metros de diâmetro. Seguimos atravessando a Lombardia (a terra dos barbas longas), que recebeu esse nome pela tribo germânica chamada Langobard, que chegaram até lá atravessando os Alpes. Nessa região, fiquei impressionado com os búfalos que os agricultores criavam para produzir o famoso queijo Mozzarela. Com uma oportuna carona, chegamos até o Lago Maggiore. Convidamos duas moças para remar à noite sob a luz do luar, mas fomos observados, outros dois botes com os donos do barco nos seguiram, e, sem conversa, um deles quebrou o remo na minha cabeça. Não me causou maiores danos, não é fácil ser cavalheiro. As moças não sofreram nada.

Do Lago Maggiore, partimos para os Alpes pela sinuosa subida para São Gotardo e tivemos que nos separar. Meu amigo pegou carona numa potente motocicleta e eu peguei carona com um padre italiano numa Vespa 100cc. Começamos a subida e, na metade, a ‘vespinha’ não aguentou. O padre me largou à beira da estrada. Começou a escurecer, tive que atravessar um pasto no qual havia uma cabana que os montanheses usavam para dormir. Na cama, não havia cobertores. Passei a noite mais fria e longa da minha vida. No dia seguinte, consegui carona até a cidade alemã Tegernsee. Lá, trabalhei por alguns dias num hotel, pois meu dinheiro havia terminado. E, então, indo Rio Reno abaixo, levei dois dias para chegar em casa”.

E vejam só como são as coincidências (ou não). Sempre que transcrevo as histórias de meu pai – porque ele escreve tudo à mão em um caderno no Brasil e, minha mãe, dona Luiza, a Mami, tira fotos e me manda –, acabamos conferindo os nomes de lugares e complementando um pouco as informações. Quem conhece o sr. Herbert Bartz sabe que ele é um apaixonado, aficionado, fanático por alho e cebola. E, ao procurar sobre a história do Imperador Teodorico, O Grande, vejam só o que encontramos: “Teodorico, O Grande (454–526) é chamado de ‘o maior apreciador de alho em todos os tempos. Nenhum outro personagem histórico superou Teodorico na afeição a esse bulbo branco, rosado ou roxo, composto por dentes, tão importante para a humanidade, seja do ponto de vista alimentar, terapêutico ou mágico. Temperava tudo com alho!”. Bartz redescoberto em uma versão medieval.

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo, pesquisadora na Universidade de Coimbra