Glauber em Campo

O MUNDO SERÁ MAIS PROTECIONISTA OU ABERTO APÓS A PANDEMIA?

Glauber Silveira

Recentemente, adidos agrícolas do Brasil que atuam em diversos países, como China, Arábia Saudita, União Europeia etc., fizeram seus relatos ao Ministério da Agricultura e a lideranças de diversas entidades representantes de diversas cadeias do agronegócio brasileiro. O interessante é que, no sumário do documento consolidado com a visão dos diversos adidos, as palavras “protecionismo” e “nacionalismo” apareceram por diversas vezes, o que demonstra uma certa tendência para a proteção dos seus mercados de quem assim puder fazer. Afinal, com a Covid-19, a segurança alimentar fica visivelmente como a principal prioridade de qualquer país.

Na avaliação dos adidos, o mundo pósCovid-19 ainda é desconhecido. Disse, em live do projeto Mais Milho, o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Orlando Ribeiro, que, primeiramente, deve haver uma queda no consumo. Neste momento, observa-se uma queda temporária na demanda mundial por alimento. Isso já está ocorrendo, visto que restaurantes, bares e outros estabelecimentos estão com suas atividades suspensas ou com funcionamento parcial. Entretanto, por outro lado, a população mundial continua crescendo, e o Brasil tem um papel fundamental no abastecimento de alimentos no mundo. Mas, na busca por segurança alimentar e autossuficiência, os países poderão aumentar o protecionismo e implantar mecanismos que estimulem a produção interna, como o movimento buy local.

É importante observar que, olhando mais para frente, o que vemos é um mundo que vai continuar buscando alimentos de melhor qualidade, maior segurança e preços competitivos. Devido a tudo isso, o Ministério da Agricultura está trabalhando no sentido da diversificação de produtos alimentares do Brasil e de abertura de novos mercados, como forma de expandir a sua participação no comércio mundial. O mundo após a pandemia estará muito mais pobre, e todos buscarão sua segurança alimentar. Porém há países que não tem área para isso, e, sendo assim, o Brasil tem uma oportunidade em suprir alimentos de qualidade a preços competitivos.

O presidente da Cargill, Paulo Sousa, na mesma live do projeto Mais Milho, disse que alguns países têm demostrado interesse em levantar barreiras comerciais, principalmente os do Leste Europeu. Ressaltou que este momento é de oportunidade para o Brasil e, portanto, é hora de mostrar que somos um parceiro confiável, que temos uma produção sólida e respeitamos os contratos. Esta é uma ótima ferramenta para abrir novos mercados. Paulo Sousa diz, ainda, que devemos garantir o livre mercado de compra e venda de grãos no Brasil. O País produz cerca 100 milhões de toneladas de milho e exporta, aproximadamente, a metade para atender à demanda do mercado doméstico. Esse fato é muito positivo. Ressaltou que a demanda global por grãos cresce cerca de 3,5% ao ano, e, portanto, temos que estar mais abertos e ativos para a exportação.

Na mesma live, o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o deputado Alceu Moreira (MDB/RS), falou da importância da China como parceiro comercial. Quando perguntado das manifestações recentes contra a China por parte de integrantes do Governo, ele disse o seguinte: “As divergências são normais e naturais em uma democracia, mas não se pode fazer manifestações pouco inteligentes que possam afetar a relação com um cliente tão importante quanto este. O conflito de interesses e opiniões é algo bastante comum. Veja, por exemplo, que o país que mais tem conflito com a China também é um dos seus principais parceiros comerciais, os Estados Unidos”.

O deputado disse, ainda, o seguinte: “As manifestações que afetam a imagem da China, como a de acusá-la de ser culpada pela pandemia da Covid-19, é desaconselhável, e uma atitude pouco inteligente, principalmente para o Brasil, que precisa de um relacionamento comercial normal com aquele país”. A propósito, lembrou que, indiretamente, no caso do milho, a China é a maior importadora do nosso cereal, de forma indireta, por meio das compras de aves e suínos.

O Brasil se firma como um parceiro confiável. Não deixamos de cumprir nenhum contrato. Vamos sair grandes desta pandemia, como um país confiável e que manteve seus compromissos. Enquanto isso, a Rússia, que é o quarto maior exportador de trigo, restringiu suas exportações do grão. Não está faltando comida na mesa do brasileiro, e continuamos cumprindo nossos contratos. Mantivemos os contratos e abastecemos o mercado interno.

Tem sido dito por integrantes do Governo, parlamentares e líderes de classe que o Brasil deve sair fortalecido desta pandemia e com uma imagem de país confiável. Mas não há nada mais importante que a previsibilidade, o que gera confiança. Reafirmo que a reforma tributária é importantíssima, pois os custos no Brasil são astronômicos, um verdadeiro mastodonte. Precisamos reduzir a complexidade da arrecadação no contexto de uma reforma administrativa, para determinar o tamanho do Estado para ajustar a necessidade fiscal. Com isso, o Brasil vai se tornar mais competitivo e poderá atender à demanda mundial, que virá cada vez mais sedenta por alimentos de qualidade, sustentáveis e a preço competitivo. Resta, agora, fazer a lição de casa.

Presidente do Sindicato Rural de Campos de Júlio/MT, presidente da Câmara Setorial da Soja, presidente da Associação de Reflorestadores do MT, vice-presidente da Abramilho e Diretor Conselheiro da Aprosoja